terça-feira, 31 de dezembro de 2019

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Soneto XCIII


Guaramiranga, pássaro vermelho,
Furtivo morador da verde serra;
Uirapuru-laranja que inda encerra
Um canto mavioso e sem parelho.

Entranha de encanto estas paragens;
Beleza realçada em vivas cores;
Gorjeia serelepe em meio às flores,
Desenha sob o céu outras imagens.

Acorda já disposto antes da aurora;
Desbrava todo o dia a densa mata,
Retorna à sua árvore de noite.

Recorda as aventuras mundo afora,
O encontro inglório com um vil primata,
Depois o vento frio como açoite...

Eliton Meneses

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A Genealogia da Moral : Nietzsche


"A moral dos escravos necessitou sempre de um mundo oposto, exterior; necessitou, falando psicologicamente, de estimulantes externos para entrar em ação; a sua ação desde a profundidade é uma reação."

"O respeito do homem superior ao seu inimigo é caminho aberto para o amor... Ele não pode suportar um inimigo que não seja venerável e no qual nada tenha a despertar, mas a respeitar."

"A finalidade de toda a cultura é domesticar a besta humana."

"Estes fracos querem ser algum dia os fortes."

"Do ponto de vista histórico, a justiça na terra representa a luta justamente contra os sentimento reativos."

"Em tese geral, o castigo endurece; concentra e aguça os sentimentos de aversão: aumenta a força de resistência."

"Todos os instintos que não descarregam para fora volvem para dentro."

"Há tantas coisas no homem que infundem espanto! A terra tem sido há muito tempo um asilo de dementes."

"Todo aquele que construiu um 'novo céu' achou a força no seu próprio inferno..."

"Há nestes homens rancorosos, nestes degenerados, uma sede de vingança subterrânea, insaciável, inesgotável contra os bons, engenhosa em máscaras e pretextos."

"'Que vergonha sermos felizes em presença de tantas misérias!' Mas quão grande e funesto erro seria o dos felizes e robustos, se algum dia duvidassem do seu direito à felicidade!"

"Os fortes aspiram distanciar-se um dos outros e os fracos a unir-se."

"Platão contra Homero; eis um antagonismo completo, real. Ali, o defensor mais voluntarioso do 'além', o grande caluniador da vida, e o divinizador involuntário da natureza áurea."

(Friedrich Nietzsche. in A Genealogia da Moral)

Soneto XCII


Forasteiro sombrio na própria aldeia;
Desterrado tardio do próprio sonho;
Argonauta arredio no mar medonho;
Guerrilheiro senil na era alheia;

Garimpeiro de conchas na areia;
Trovador de um canto enfadonho;
Cavaleiro infantil de ar bisonho;
Cangaceiro viril de légua e meia.

Cada tempo carrega as suas dores;
Tem a própria expressão dos seus amores,
Seus dilemas, desejos e amarguras.

Todos querem fazer o seu destino,
Mesmo quando há risco e desatino
E vestígios de antigas desventuras.

Eliton Meneses

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Soneto XCI


A conduta que vem do inconsciente
Tem nuances sutis muito intrincadas;
Faz brotar tantas mágoas recalcadas;
Iceberg no mar de cada mente.

Um processo complexo e coerente,
De imagens mormente desejadas;
De ambições e invejas simuladas;
O primata no homem mais latente.

Quero dele a beleza e o talento,
A altura, elegância e inteligência;
O emprego, o endereço e a mulher.

Se fiz tudo, passei por sofrimento;
Sou igual, quero dele a existência;
Se ele tem, para mim se faz mister.

Eliton Meneses

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Soneto XC


Uma marca ficou do ferro em brasa;
Indelével sinal pra toda a vida;
A lembrança na pele da ferida,
Mesmo anos depois, sozinho em casa.

Foi-se o tempo em que soube bater asa;
Escalara a montanha mais temida,
Sem saber que o tempo da partida,
Quando some a coragem, não atrasa.

Muitas vezes o belo não tem lastro;
O encanto se apaga sem um rastro,
Tão efêmero como um vaga-lume.

Um instante passado cuja essência
Incutiu-se no cerne da existência
Faz a vida exalar outro perfume.

Eliton Meneses

domingo, 15 de dezembro de 2019

Soneto LXXXIX


Estou farto de ouvir as cantilenas;
Tanta coisa abstrata em meu regaço;
Pouco importa o que penso, se o que faço
Tem a marca opressora das cadenas.

Quem deseja singrar águas serenas
Deve andar sob a regra de um só laço;
Não voar espirais do tempo-espaço,
Se não tem a coragem das falenas.

Os castelos são obras de arquitetos,
Homens livres que vivem seus projetos,
Não meninos que brincam na areia.

Os amores têm coisas de adulto,
Cuja falta corrói o ser estulto,
Mesmo longe do canto da sereia.

Eliton Meneses

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A Gaia Ciência : Nietzsche


"Mas em todas as circunstâncias o novo é o mal, aquilo que quer conquistar, derrubar as velhas fronteiras e as antigas devoções; e só o que é antigo é bom!"

"O maior trabalho dos seres humanos até agora foi o da concordância de todos sobre muitas coisas e a criação de uma lei da concordância — tanto faz se as coisas são verdadeiras ou falsas."

"E não será exatamente o que consideramos importante, o que nos denuncia? Isso revela onde colocamos o peso das coisas, e o que para nós não tem peso nenhum."

"Como fenômeno estético, a existência ainda nos é suportável, e por meio da arte nos são dados o olhar e a mão, e sobretudo, a boa consciência para podermos fazer de nós mesmos um fenômeno como esse."

"Devemos ser capazes de nos colocarmos acima da moral, e não apenas ficarmos parados com a rigidez medrosa de alguém que teme escorregar e cair a qualquer instante, e inclusive devemos ser capazes de flutuar e brincar com essa moral! Como poderíamos prescindir da arte para isso, e também do maluco? E enquanto, de algum modo, vocês ainda sentirem vergonha de si mesmos, não poderão estar conosco!"

"Com a moral, o indivíduo é induzido a ser uma função do rebanho e só se atribuir valor como uma função."

"Será que não estamos caindo continuamente? (...) Será que não estamos vagando por aí através de um nada infinito? O espaço vazio, será que ele não está nos bafejando?"

"A decisão cristã de achar o mundo feio e mau tornou o mundo feio e mau."

"É o que dita o sentimento judeu, para o qual tudo que é natural é a indignidade em si mesma."

"Onde se domina, existem massas, onde há massas, existe uma necessidade de escravidão. Onde existe escravidão, os indivíduos são poucos, e eles têm contra si os instintos de rebanho e a consciência."

"Aquilo que em tempos passados nos conduzia à suposição de um 'outro mundo', não era um impulso e uma necessidade, mas um engano na interpretação de certos processos naturais, uma dificuldade do intelecto."

"Tudo o que é do meu jeito, na natureza e na história, fala comigo, elogia-me, empurra-me para a frente, consola-me —: o resto eu nem escuto, ou esqueço-o logo. Estamos sempre apenas em nossa companhia."

"Os perspicazes juízes das bruxas e até as próprias bruxas estavam convencidas da culpa delas por bruxaria, mas, apesar disso, ela não existia. É isso que acontece com toda culpa."

"Você deve se tornar aquele que é."

"Quero aprender cada vez mais, ver o necessário das coisas como sendo o belo — então, serei um daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: daqui em diante esse será meu amor."

"De vez em quando precisamos saber nos perder, se quisermos aprender algumas coisas que nós mesmos não somos."

"Ao longo da maior parte do tempo consideramos o pensamento consciente como o pensamento em si, só agora nos surge a verdade, de que a maior parte de nossa atuação intelectual ocorre de forma inconsciente e imperceptível para nós."

"A senda ao próprio céu sempre passa pela volúpia do próprio inferno."

"Os gregos costumavam rezar duas ou três vezes por tudo o que é belo!"

"Como seria se um dia ou uma noite um demônio se intrometesse na sua mais solitária solidão, e dissesse: 'Você terá de viver mais uma vez, e inúmeras vezes mais, esta mesma vida, como a que vive agora e viveu, e não haverá nada de novo nela; porém, cada dor e cada prazer, cada pensamento e cada suspiro, e tudo indizivelmente pequeno e grande de sua vida voltará para você, na mesma sequência e ordem — inclusive essa aranha e essa luz da Lua entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A eterna ampulheta da existência será sempre invertida — e você com ela, seu grãozinho de pó, em meio à poeira!"

"Ó grande astro! O que seria de sua felicidade se você não tivesse a quem iluminar!"

"Na natureza, não predomina nenhuma situação precária, porém, uma abundância, um desperdício, que até beira a insensatez. A luta pela existência é apenas uma exceção, uma restrição temporária da vontade de viver; a luta grande e pequena gira totalmente em torno de algo maior, do crescimento e da extensão da potência, de acordo com a vontade de potência, que afinal, é a vontade da vida."

"Pois o amor, pensado como inteiro, grande, completo, é natureza, e como natureza em toda eternidade, algo 'amoral'."

(Friedrich Nietzsche. in A Gaia Ciência)

sábado, 7 de dezembro de 2019

Soneto LXXXVIII


O tempo é uma volta do infinito;
A vida, uma cena de um instante;
A peça é um moinho inconstante;
Tragédia de um teatro tão bonito.

Debalde é viver sempre aflito;
Melhor é se sentir um visitante;
Quiçá um gafanhoto saltitante,
Que em pouco, sob um pé, será proscrito.

Passado jaz apenas na lembrança;
Futuro é uma vaga esperança;
O agora é que é a vida nua e crua.

Diante do iminente abismo eterno,
O sábio viu o sol em pleno inverno,
Dançando alegre a música só sua.

Eliton Meneses

Deutsch


— Was magst du am besten über Weihnachtszeit?
— Ich mag Treffen, die Hoffnung auf den neuen Cristus und die Arbeitspause.

— Wie werdest du in diesem Neujahr gefeiert?
— Ich werde mit meiner Familie nach Guaramiranga fahren.

— Was sind deine Ziele für dem nachsten Jahr?
— Ich möchte eine neue Sprache lernen, eine Reise nach Europa unternehmen und ein neues Kind bekommen.

— Wo verbringst du normalerweise Weihnachten?
— Ich verbringe zu Hause mit meiner Familie und einigen Freunden.

— Hast du ein Ritual im neuen Jahr?
— Schritt in Weiß, ich mache das Zeichen des Kreuzes und ich bitte um Gesundheit und Glück.

— Was erwarten Sie ab 2020?
— Ich hoffe, es ist ein Jahr der Brüderlichkeit und des Wohlstands, voller Liebe und Frieden.

sábado, 30 de novembro de 2019

Frase do mês


"Amar é se entregar ao outro, sem receio de ser devolvido."

XIV Conadep : Rio de Janeiro








Ego


um primata que vagueia,
passos firmes na areia.

volta e meia azafamado,
quase nunca desalmado.

além da mediocridade,
aquém da barbaridade.

uma eterna construção,
entre a mente e o coração.

às vezes, um pouco hostil,
mas, em regra, mui gentil...

Eliton Meneses

Amor: direito, moral e fé


O direito opera a partir dos fatos da vida. Mudam-se os fatos, mudam-se as normas. "Tudo flui como um rio." (Heráclito)

                                                           ***
O amor é uma força natural ativa; a moral, uma força reativa humana. Logo, o amor, no sentido mais pleno, rompe todas as barreiras morais. 

                                                           ***

A fé cristã não admite mudança: "eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe." (Mateus 19:6) O Deus cristão impõe a opção pela estabilidade da vida; é um Deus conservador que, entre o laço precedente e o amor superveniente, considera o amor uma tentação do demônio.

Além do bem e do mal : Nietzsche


"Não se prender a qualquer pessoa: mesmo que seja a mais querida — toda pessoa é uma prisão e um refúgio."

"(...) aquilo que é comum tem sempre pouco valor. No final, as coisas devem ser como são e como sempre foram — as grandes coisas continuam sendo para os grandes, os abismos para as profundezas, as delícias e entusiasmos para os refinados e, resumindo, as raridades para os raros."

"Não é a intensidade, mas a duração dos sentimentos superiores que forja os homens superiores."

"Não existem fenômenos morais, o que existe é a interpretação moral dos fenômenos..."

"Aquele que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro. E se você olhar durante muito tempo para um abismo, o abismo vai também olhar para dentro de você."

"O que se faz por amor acontece sempre além do bem e do mal."

"O amor traz à luz as qualidades ocultas e superiores de um amante — o que é raro e excepcional nele: nesse ponto, ele engana facilmente a sua regra."

"Amamos acima de tudo nossos desejos, e não a coisa desejada."

"Seus profetas fundiram em uma só as palavras 'rico', 'ímpio', 'perverso', 'violento', 'sensual', e pela primeira vez deram um cunho vergonhoso à palavra 'mundo'. Nessa inversão de valores (à qual pertence a palavra 'pobre' como sinônimo de 'santo' e 'amigo') jaz a importância do povo judeu: com ele começa a rebelião dos escravos na moral."

"Os verdadeiros filósofos são ordenadores e legisladores; dizem: 'é assim que deve ser!', determinam o para onde? e o para quê? do homem, e, ao fazer isso, colocam o trabalho prévio dos operários filosóficos e dos que dominaram o passado a seu dispor — agarram-se ao futuro com mãos criadoras, e o que quer que seja e tenha sido passa a ser para eles um meio, um instrumento, um martelo. O seu 'conhecer' é criar, sua criação é legislar, o seu querer à verdade é vontade de potência."

"No homem a criatura e o criador estão unidos: em um homem não há apenas matéria, fragmento, abundância, barro, lodo, absurdo, caos; há também o criador, o escultor, a dureza do martelo, a divindade do espectador e o sétimo dia: — vocês entendem esse contraste?"

"O homem nobre também ajuda os desafortunados, mas nunca — ou quase nunca — por piedade, e sim por um impulso gerado pela superabundância de poder."

"Só existem obrigações para com aqueles que nos são iguais."

(Friedrich Nietzsche. in Além do bem e do mal)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Aforismos


Ciclo da vida

Nascer, crescer, ser feliz e morrer.

Tempo


A sucessão de instantes eternos.

Espaço


A tábua de salvação do abismo.

O homem livre


Um fim em si mesmo.

O escravo

Um instrumento alheio.

sábado, 23 de novembro de 2019

Soneto LXXXVII


Os mortos já se vão acumulando:
Camélia, Hortênsia, Rosa e Margarida...
O Cravo também fez sua partida;
O Lírio se foi triste, definhando.

Um mundo que se vai desintegrando;
Há pouco era um jardim todo florido;
Gardênia conheceu seu par garrido;
Crisântemo sem ela foi murchando...

Tulipa, Orquídea, Íris, Violeta
Bateram asas como borboleta,
Deixando apenas Nardo sob o sol.

As flores novas são outro jardim;
Não cheiram mais igual ao meu Jasmim,
Nem têm as cores do meu Girassol.

Eliton Meneses

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Soneto LXXXVI


Sou feito de sonhos e de desejos,
Saberes e crenças, suposições;
A obra que faço vem de lampejos,
Coragens e medos, contradições.

Os falsos profetas, os vi sobejos;
Soberbos no mar de superstições;
Astutos, loquazes, alguns bocejos;
Inútil agarrar-se em definições.

A luz do real lhes parece hostil,
Preferem habitar funesto covil,
Escravos do mundo das ilusões.

Espanta a origem de tais valores,
Talvez ressentidos por suas dores,
Cultuam a glória dos seus grilhões.

Eliton Meneses

sábado, 9 de novembro de 2019

Soneto LXXXV


De que importam tantas provações,
Esquivas, escusas e fundamentos?
De que importam autojuramentos,
Se somos guiados por emoções...?

Jamais desvanecem as ilusões,
Hauridas no leito dos sentimentos,
Conquanto nutridas só de momentos,
Do afeto que une dois corações.

Difícil amor que não se desgasta,
Imune às agruras da foz distante,
Sujeito à angústia da longa espera.

Às vezes, a vida se faz nefasta,
Mas há a certeza de um instante
Eterno e fugaz como a primavera.

Eliton Meneses

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Soneto LXXXIV

                                          Para Oneon

Longas horas travamos de conversa;
As memórias completas de uma vida,
Me contaste até antes da partida,
Mesmo quanto à ressalva controversa.

Descobri uma história bem diversa
Da comum que costuma ser vivida;
De prazeres e amores bem servida,
No mais fundo do humano submersa.

Menestrel da antiga boemia;
Pescador de invejável valentia,
Mui longeva carreira de hedonismo.

Todo um quadro bastante pitoresco,
Dionísio envolto de burlesco, 
Que dançava na beira do abismo.  

Eliton Meneses

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Mors


Tive pai
Tenho filho
Sou espírito não santo.

Um se esvai
Perde o brilho
Vai morar em outro canto.

Outro sai
Andarilho
Sempre causa algum espanto.

Mais um cai
Desce o trilho
Infortúnio de outro pranto.

Novo ai
Compartilho
Fica cá um outro tanto.

Eliton Meneses

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Humano, demasiado humano : Nietzsche


"Mas tudo o que é essencial na evolução humana se realizou em tempos primitivos, antes desses quatro mil anos que conhecemos aproximadamente; nestes o homem já não deve ter se alterado muito."

"A filosofia se divorciou da ciência ao indagar com qual conhecimento da vida e do mundo o homem vive mais feliz. Isso aconteceu nas escolas socráticas: tomando o ponto de vista da felicidade, pôs-se uma ligadura nas veias da investigação científica — o que se faz até hoje."

"No sonho continua a agir em nós esse antiquíssimo quê de humanidade, pois ele é o fundamento sobre o qual evolui a razão superior, e ainda evolui em cada homem: o sonho nos reconduz a estados longínquos da cultura humana e fornece um meio de compreendê-los melhor."

"O pensamento profundo pode estar muito longe da verdade, como, por exemplo, todo pensamento metafísico; (...) A crença forte prova apenas a sua força, não a verdade daquilo em que se crê."

"De antemão somos seres ilógicos e por isso injustos, e capazes de reconhecer isto: eis uma das maiores e mais insolúveis desarmonias da existência."

"No conjunto a humanidade não tem objetivo nenhum, e por isso, considerando todo o seu percurso, o homem não pode nela encontrar consolo e apoio, mas sim desespero."

"O homem se torna o que ele quer ser, seu querer precede sua existência."

"Se alguém quer parecer algo, por muito tempo e obstinadamente, afinal lhe será difícil ser outra coisa."

"A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos."

"Sem prazer não há vida; a luta pelo prazer é a luta pela vida."

"Toda a moral do Sermão da Montanha está relacionada a isto: o homem tem autêntica volúpia em se violentar por meio de exigências excessivas, e depois endeusar em sua alma esse algo tirânico."

"O que uma vez se moveu está encerrado e eternizado na cadeia total do que existe, como um inseto no âmbar."

"Quando se é alguma coisa, não é preciso fazer nada — e contudo se faz muito."

"O que há de melhor em nós é talvez legado de sentimentos de outros tempos, os quais já não alcançamos por via direta; o sol já se pôs, mas o céu de nossa vida ainda arde e se ilumina com ele, embora não mais o vejamos."

"Habituar-se a princípios intelectuais sem razão é algo que chamamos de fé."

"Aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito."

"Ao iniciar um casamento, o homem deve se colocar a seguinte pergunta: você acredita que gostará de conversar com esta mulher até na velhice? Tudo o mais no casamento é transitório, mas a maior parte de tempo é dedicada à conversa."

"O amor não reconhece nenhum poder, nada que separe, distinga, sobreponha ou submeta."

"Convicção é a crença de estar, em algum ponto do conhecimento, de posse da verdade absoluta."

"Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra  — e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem."

(Friedrich Nietzsche. in Humano, demasiado humano)

domingo, 27 de outubro de 2019

Oneon Bezerra de Menezes


Partiu deste plano um ser humano que, com suas contradições, viveu uma vida plena, depois de percorrer, nos seus improváveis 81 anos de vida, os extremos da condição humana, como um autêntico personagem de Dostoiévski. Alguém que narrou e protagonizou a maioria das histórias que guardo na memória. Alguém que, talvez sem querer, despertou em mim o desejo de conhecer o mundo, outras línguas e outras histórias. Alguém que um dia disse que, se alguém matasse um filho seu, ele iria buscá-lo nem que fosse no inferno. E estou certo de que ele cumpriria a promessa... Felizmente, não foi preciso cumpri-la. Ele não teve o infortúnio de enterrar nenhum dos seus inúmeros filhos. Alguém que um dia pediu para um filho, ainda criança, que lhe desse um beijo na testa no dia em que ele morresse. Hoje, depois de tantos anos, infelizmente, eu acabei de lhe dar um beijo na testa fria. Morreu Oneon Bezerra de Menezes, meu pai, responsável por uma parte considerável do que sou.




quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O ser e o nada




"Comme si cette grande colère m'avait purgé du mal, vidé d'espoir, devant cette nuit chargée de signes et d'étoiles, je m'ouvrais pour la primière fois à la tendre indifférence du monde." (Camus)

"Como se esta grande raiva me houvesse purgado do mal, vazio de esperança, diante desta noite cheia de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo." (Camus)

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Pacta sunt servanda


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Drummond 

domingo, 20 de outubro de 2019

Alter(ego)


Ora um passo para dentro,
Ora um passo para fora.
Às vezes, eu sou o centro;
Logo após, eu vou embora.

Tenho dentro do presente
O passado e o futuro.
Sou no claro imanente,
Transcendente no escuro.

Sou a casa da ciência,
Sob o teto do mistério.
Tudo tem a sua essência,
Quando segue algum critério.

Mesmo atrás da utopia,
No presente sou feliz;
Cada instante a alegria
Dança em frente do nariz.

Sou do mundo inteligível,
No verão e no inverno;
Moro no mundo sensível,
Entre o céu e o inferno.

Um instante sou vontade;
Outro, representação.
De manhã, eu sou verdade;
De noite, sou ilusão.

Eliton Meneses

sábado, 19 de outubro de 2019

Ecce Homo : Nietzsche


"Fiz minha filosofia da minha vontade de ter saúde."

"Minhas experiências me dão um direito à desconfiança geral, em relação aos assim chamados 'impulsos' altruístas, o 'amor ao próximo', pronto a oferecer todo tipo de conselho."

"Deus é uma resposta grosseira, uma falta de delicadeza contra nós, pensadores, basicamente apenas uma proibição grosseira: vocês não devem pensar."

"Não somos um acaso, mas uma necessidade."

"Não quero, de jeito nenhum, que alguma coisa se torne diferente do que é; eu mesmo não quero tornar-me diferente."

"O que mais me lisonjeou até agora foi que velhas colhedoras de uvas não descansaram até terem escolhido os cachos mais doces para mim. É onde se deve chegar, como filósofo..."

"A Circe da humanidade, a moral, falsificou profundamente toda psicologia — desmoralizou-a a ponto de afirmar aquela terrível bobagem de que o amor deve ser algo 'não-egoísta'..."

"A mulher precisa de filhos, o homem é sempre apenas um meio."

"A perda de peso, a resistência contra os instintos naturais, em uma palavra, o 'altruísmo' — foi o que se chamou até agora de moral."

"A primeira coisa que levo em conta ao 'testar' uma pessoa é saber se ela possui uma percepção de distanciamento físico, se ela sempre enxerga uma hierarquia, um grau, uma ordem entre os seres humanos, se consegue distingui-los; é isso que a torna um gentilhomme. Em qualquer outro caso ela pertence, inexoravelmente, ao grupo dos que têm coração altruísta, uma definição bastante benevolente de canaille."

"O necessário não me ofende, o amor fati é a minha natureza mais íntima."

"Obedeço à minha natureza dionisíaca, que não separa o 'não-fazer' do 'dizer sim'. Sou o primeiro imoralista; e, assim, o destruidor par excellence."

(Friedrich Nietzsche. in Ecce Homo)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Soneto LXXXIII


Deixaste os devaneios para trás;
Não foste tudo aquilo que sonhavas;
Sabias muito menos que pensavas;
Nem mesmo esperavas algo mais.

O mundo se mostrou bem mais voraz;
Não deste um passo além de onde estavas;
Aquela fortaleza que ostentavas
Desfez-se num só sopro, tão fugaz.

O tempo derradeiro ainda escoa;
O corpo, que definha combalido,
Padece um desalento duradouro.

Um último vagido ainda ecoa;
A mente já no mar do desvalido
Navega sem nenhum ancoradouro.

Eliton Meneses

domingo, 6 de outubro de 2019

Soneto LXXXII

                                      Zu Nietzsche

Um bigode munido de um martelo,
Candidato loquaz a Anticristo,
Pretendeu derrubar tudo já visto,
Convidando a história a um duelo.

Desdenhava de tudo que é singelo:
Altruísmo, moral, razão e Cristo.
Pensador sob a aura de Mefisto,
Pregador do instinto como belo.

"Super-homem", vaidoso, prepotente,
Desferiu na cultura a verve insana,
Aturdido por ódios viscerais.

Não passou muito embora de um doente,
Ressentido da força mais humana:
O amor que nos faz mais que animais.

Eliton Meneses

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Crepúsculo dos ídolos : Nietzsche


"Somente como meio de defesa empregam a dialética os que não têm outra arma."

"(...) toda moral de aperfeiçoamento, inclusive a moral cristã, foi um erro."

"Ver-se obrigado a combater os instintos é a fórmula da decadência, enquanto que, na vida ascendente, felicidade e instinto são idênticos." 

"A razão é a causa de falsearmos o testemunho dos sentidos."

"(...) nos vingamos da vida com a fantasmagoria de uma vida distinta, de uma vida melhor."

"Em todas as épocas o peso da disciplina foi posto a serviço do extermínio (da sensualidade, do orgulho, do desejo de dominar, de possuir e de vingar-se). Mas atacar a paixão na sua raiz é atacar a raiz da vida; o processo da Igreja é nocivo à vida."

"Todo o bem procede do instinto e é por conseguinte leve, necessário, espontâneo."

"Os homens foram considerados livres para se poder julgá-los e castigá-los, para se poder declará-los culpados."

"O cristianismo é uma metafísica de verdugos."

"A ideia de Deus foi até agora a maior das objeções contra a existência." 

"O juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem."

"(...) na luta contra o animal, torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: corrompeu o homem, tornou débil e reivindica o mérito de tê-lo tornado melhor."

"(...) o aspecto geral da vida não é a indigência e a fome, mas, ao contrário, a riqueza, a opulência, até, caso se queira, uma absurda prodigalidade; onde há luta é pela dominação."

"(...) quando se sente de qualquer modo deprimido, o homem percebe a proximidade de algo feio. Seu sentimento de potência, sua vontade de potência, sua altivez, sua coragem, tudo isso diminui com a feiura e cresce com a beleza."

"A história dos desejos tem sido até agora a parte vergonhosa do homem."  

"As lamentações jamais valem algo, procedem sempre da debilidade. Não há diferença essencial entre atribuir nosso próprio mal-estar aos demais, como faz o socialista, ou atribuí-lo a nós mesmos, como faz o cristão."

"O homem que se torna altruísta é um homem acabado."

"A diminuição dos instintos hostis e que mantêm a desconfiança alerta — e esse seria em todo caso nosso progresso — não representa senão uma das consequências da diminuição geral da vitalidade."

"O homem livre, e muito mais o espírito livre, pisoteia essa espécie de bem-estar desprezível com que sonham os merceeiros, os cristãos, as vacas, as mulheres, os ingleses e demais democratas. O homem livre é guerreiro."

"A filosofia grega é a decadência do instinto grego." 

(Friedrich Nietzsche. in Crepúsculo dos ídolos) 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Frase do mês


"To be kind is more important than to be right. Many time, what people need is not a brilliant mind that speaks but a special heart that listens." (F. Scott Fitzgerald)

Deserto


Sem conversa
Sem encontro
Sem carinho
Sem poesia
Sem canto
Sem arte
Sem mar
Sem riso
Sem voz
Sem sol
Sem lua
Sem ela
Sem mim
Sem nada.

Eliton Meneses

domingo, 29 de setembro de 2019

Redes sociais






O primeiro print é do status do Instagram da Amélia Rocha; o segundo é de um comentário do Leonardo Pildas ao poema Trava-língua, no Facebook, e o terceiro é o da resposta da Aury à felicitação pelo seu aniversário, também no Facebook. Somente quem conhece Amélia, Pildas e Aury sabe o significado dessas alusões...

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Trava-língua


Mundo tépido, bicho lépido, homem intrépido;
Forma pálida, norma válida, chuva cálida;
Tempo tétrico, assimétrico, peixe elétrico;
Gosto ácido, vento plácido, peito flácido;
Olho míope, oh! Calíope! pobre etíope;
Quadro erótico, lábio exótico, bem neurótico;
Ar profético, voto ético, afonético;
Fosso quântico, vô romântico, vão semântico;
Mais um vândalo, cheiro sândalo, bofe escândalo;
Quanto cúmulo, mais acúmulo, foi pro túmulo.

Il Principe : Machiavelli


"(...) il tempo si caccia innazi ogni cosa, e può condurre seco bene come male e male come bene."

"(...) le iniurie si debbano fare tutte insieme, acciò che, assaporandosi meno, offendino meno; e benefizii si debbano fare a poco a poco, acciò si assaporino meglio."

"(...) il populo desidera non essere comandato nè oppresso da' grandi, e li grandi desiderano comandare e opprimere el populo."

"(...) a uno principe è necessario avere el populo amico; altrimenti non ha, nelle avversità, remedio."

"E la natura delli uomini è, così obligarsi per li benefizii che si fanno come per quelli che ricevano."

"E principale fondamenti che abbino tutti li stati, così nuovi come vecchi o misti, sono le buone legge e le buone arme."

"Nessuna cosa fa tanto stimare uno principe, quanto fanno le grandi imprese e dare di sè rari esempli."

"È ancora stimato uno principe, quando elli è vero amico e vero inimico; cioè quando, sanza alcuno respetto, si scuopre in favore di alcuno contro ad un altro."

"E la prima coniettura che si fa del cervello di uno signore, è vedere li uomini che lui ha d'intorno."

"(...) li uomini sono molto più presi dalle cose presente che dalle passate."

(Il Principe, Niccolò Machiavelli)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Soneto LXXXI


Muito antes de sermos o que somos,
Fomos bichos ferozes, primitivos;
Enredados em fluxos instintivos,
Procuramos não ser o que já fomos.

As entranhas dos nossos cromossomos
Guardam marcas de tempos aflitivos;
A despeito dos tantos lenitivos,
Somos muito mais fera que supomos.

Possuímos furtivos atavismos,
Uns desejos sublimes enlaçados
Com arroubos latentes destrutivos.

Percorremos complexos silogismos,
Cultivamos amores elevados,
Vez em quando sem freios efetivos.

Eliton Meneses

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Soneto LXXX


Foi um sismo que nunca havia visto;
Uma flor que de tudo o mais destoa;
Uma voz que distante ainda ecoa;
O encontro mais terno e imprevisto.

Sinuoso, complexo, mas benquisto;
Faz um mundo de cores meio à toa;
É mais livre uma ave quando voa,
Mesmo quando o universo se faz misto.

Todavia, voara céu adentro,
Muito afoito, ciente do perigo,
Cada vez mais distante de algum centro.

À procura quiçá de algum abrigo,
Divisou por encanto fora e dentro
A lanterna de um sábio bem antigo.

Eliton Meneses

sábado, 14 de setembro de 2019

Soneto LXXIX


Andei por muita légua e já não vi floresta;
Somente cerca, gado e árvores cortadas;
O céu, um fosco gris, as nuvens deformadas;
Fumaça a encobrir as ambições funestas.

Os animais corriam em busca do que resta;
Os índios lamentavam as tabas devastadas;
Um parvo inda nutria as ilusões passadas;
A Terra consumida em chamas indigestas.

O sol se apagava a milhas de distância;
Um grito de socorro ecoa pelo mundo;
Ninguém pode negar um tal paroxismo.

A Amazônia tem tamanha importância;
Não pode sucumbir a sopro moribundo,
Nem fazendeiro rir à beira do abismo.

Eliton Meneses

domingo, 8 de setembro de 2019

Elegia


Eu me pego voltando na história,
Recordando de tudo que passou;
Tenho tudo guardado na memória,
Desde quando o cupido nos flechou.
Não é fácil o caminho da razão,
Quando a corda nos ata o coração.

Lembro ainda a primeira ligação,
De manhã a caminho do trabalho;
O bom dia discreto, a emoção,
Certo filme, o sorriso, o ato falho...
Foi aquele o primeiro carnaval
Da mudança que nunca vira igual.

Uma foto surgiu meio do nada,
Numas férias sem quase algum contato,
A primeira semente foi plantada,
Quando tudo inda era abstrato.
Foi decerto um arroubo inconsciente,
Que tornou toda a vida diferente.

Logo após veio o seu aniversário;
Um convite indiscreto, um encontro;
Desenhamos qual era o cenário,
O princípio do amor em seu confronto.
Foi um misto de susto e de alegria,
Julieta e Romeu, quem sabe um dia.

A saudade apertava a toda hora;
Sol a pino no fim de um outubro;
Não dá mais, era tempo de ir embora,
De repente o sinal tornou-se rubro.
Todo o mundo em volta tão opaco;
Coração destroçado, só o caco.

O amor foi guardado nas caixinhas,
No silêncio esquivo de um bloqueio;
Apagara o canal, sem entrelinhas,
O real converteu-se em devaneio.
Nem o tempo comprido apagou
A saudade ardente que ficou.

Veio então um estranho fim de ano;
Um céu gris, todo quadro desbotado;
A certeza do duro desengano;
Uma noite inteirinha acordado.
A canção argentina recordava
Quem não mais o percurso acompanhava.

Eis que surge do acaso um convite;
Falta um dia apenas para vê-la;
A saudade passara do limite,
Não havia recurso pra contê-la.
Encontrei-a rápido, mas tão linda
Que a angústia que havia dei por finda.

Logo à noite já veio o desbloqueio;
Num instante a noite se fez dia;
Uma moça sentada num passeio,
À espera de alguém na fantasia,
Acendeu todas luzes do Natal;
Me senti muito mais que especial.

Uma frase saudou o novo ano;
Bem distante e ainda afastado;
Uma flor de metal me fez humano,
Caminito me viu apaixonado.
Dois coqueiros enfim em frente ao mar
Conjugaram pra sempre o verbo amar.

Eliton Meneses

sábado, 7 de setembro de 2019

Il Gattopardo : Tomasi di Lampedusa


"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi."

"Ho capito benissimo: voi non volete distruggere noi, i vostri 'padre'. Volete soltanto prendere il nostro posto."

"L'efficacia della confessione non sta solo nel raccontare i fatti, ma nel pentirsi di quanto si sia commesso di male."

"E no rimase che l'oscurità come ogni altra sera, da sempre."

"L'amore, Eccellenza, l'amore è tutto, ed io lo posso sapere."

(Il Gattopardo. Tomasi di Lampedusa)

sábado, 31 de agosto de 2019

Frase do mês


"Auf der Höhe der Verliebtheit droht die Grenze zwischen Ich und Objekt zu verschwimmen." (Freud)

"No auge do sentimento de amor, a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer." (Freud) 

Curtas do mês


Sempre houve queimada na Amazônia, mas se está diante de um aumento de 82% de um ano para outro (cf. G1), que coincide com o primeiro ano de um governo que é declaradamente favorável ao agronegócio e contrário ao meio ambiente e especialmente aos índios, que são os guardiões da floresta.

Comemorar um tiro na cabeça de uma pessoa em surto psicótico — como o fez o Governador Witzel — é sinal de que o surto psicótico não acometeu apenas a pessoa morta...

Sou Lula Livre! Sou direito do trabalhador, das mulheres, dos pobres, das minorias... Sou Amazônia... E você, é só Bolsonaro?

Traços indeléveis


Era tradição entre os alunos da Escola de 1.º Grau Vilebaldo Aguiar gravar o nome com giz no teto da sala de aula. Ao me despedir da escola, ao concluir a 8.ª série, nos idos de 1992, também deixei minha marca, que, para minha surpresa, depois de quase 27 (vinte e sete) anos, ainda permanece lá.


Há marcas que o tempo não apaga, mesmo quando escritas a giz...


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Soneto LXXVIII


A aragem fustiga a face em transe;
Mar revolto ameaça a vela afoita;
A palavra cortante ainda açoita;
Toda história revolve num relance.

Bem distante, já fora do alcance;
Pesadelo insistente inda pernoita;
Na alcova vazia alguém acoita
O espasmo final de um romance.

Duas aves outrora em simbiose
Avoavam sem norte a céu aberto,
Ao sentirem a mais plena sintonia.

Uma pena que amor em overdose
Faz o bem e o mal andarem perto,
Chega a Deus e destrói a fantasia.

Eliton Meneses

A interpretação dos sonhos : Freud


"O sonho mostra a verdadeira natureza do homem, ainda que não inteira, e está entre os meios que nos permitem conhecer o núcleo oculto da psique."

"No sonho, o psiquicamente reprimido vem à luz."

"O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido, recalcado)."

"Uma experiência para a qual não achei exceções é o fato de todo sonho tratar da própria pessoa que sonha. Os sonhos são absolutamente egoístas."

"O trabalho do sonho absolutamente não pensa, calcula ou julga, mas se limita a transformar."

"O estado de sono possibilita a formação dos sonhos ao reduzir a censura endopsíquica."

"Os delírios são a obra de uma censura que não se dá mais ao trabalho de ocultar suas atividades, uma censura que, em vez de cooperar para uma reelaboração que não seja mais chocante, risca sem consideração tudo aquilo a que faz objeções, tornando incoerente o que resta. Essa censura procede de modo inteiramente análogo à censura russa de jornais na fronteira: apenas jornais estrangeiros repletos de tarjas pretas chegam às mãos dos leitores que cabe proteger."

"O desejo provém do inconsciente e não pode ser percebido durante o dia."

"O desejo figurado no sonho tem de ser um desejo infantil."

"No inconsciente nada pode ser terminado, nada passou ou foi esquecido."

"O inconsciente é o círculo maior que abrange em si o círculo menor da consciência; tudo o que é consciente tem um estágio prévio inconsciente, enquanto o inconsciente pode permanecer nesse estágio e ainda assim reclamar o valor pleno de uma produção psíquica. O inconsciente é o psíquico propriamente real, tão desconhecido para nós segundo sua natureza interna quanto o real do mundo externo; ele nos é dado pelos dados da consciência de maneira igualmente tão incompleta quanto o mundo externo pelas informações de nossos órgãos sensoriais."

"Em sua expressão última e mais verdadeira, deve-se dizer que a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material."

(A interpretação dos sonhos. Sigmund Freud)

domingo, 18 de agosto de 2019

Greek x Hebrew


"It has long been understood by philosophers that the entire bedrock of Western culture is based on two rival worldviews — the Greek and the Hebrew — and whichever side you embrace more strongly determines to a large extend how you see life.
From the Greek — specifically from the glory days of ancient Athens — we have inherited our ideas about secular humanism and the sanctify of the individual. The Greeks gave us all our notions about democracy and equality and personal liberty and cientific reason and intellectual freedom and open-mindedness and what we might call today 'multiculturalism'. The Greek take on life, therefore, is urban, sophisticated, and exploratory, always leaving plenty of room for doubt and debate.
On the other hand, there is the Hebrew way of seeing the world. (...) 'Hebrew', in the sense that philosophers use it here, is shorthand for an ancient worldview that is all about tribalism, faith, obedience, and respect. The Hebrew credo is clannish, patriarchal, authoritarian, moralistic, ritualistic, and instinctively suspicious of outsiders. Hebrew thinkers see the world as a clear play between good and evil, with God always firmly on 'our' side. Human actions are either right or wrong. There is no gray area. The colletive is more important than the individual, morality is more important than happiness, and vows are inviolable.
The problem is that modern Western culture has somehow inherited both these ancient worldviews — though we have never entirely reconciled them because they aren't reconcilable. (...) Our legal code is mostly Greek; our moral code is mostly Hebrew. We have no way of thinking about independence and intellect and the sanctity of the individual that is not Greek. We have no way of thinking about righteousness and God's will that is not Hebrew. Our sense of fairness is Greek; our sense of justice is Hebrew."
(Elizabeth Gilbert. in Committed, A Love Story)

sábado, 17 de agosto de 2019

Soneto LXXVII


Há quem queira na vida tudo quanto;
Há quem queira somente ter um laço;
Uns que fazem fortuna como santo;
Outros anjos atrás de um regaço.

Há pessoas vazias tendo tanto;
Outras ricas deitadas no bagaço;
Uns envoltos na crise do quebranto;
Outros tantos carentes de abraço.

Há pessoas que Deus nem sempre acode,
Cujas lutas o mundo menospreza,
Para quem esta vida é sempre esquiva.

Há pessoas pra quem o bem eclode,
Mesmo quando largadas e sem reza,
Passageiras de um barco à deriva.

Eliton Meneses

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Haicais

i.
Foi-se a euforia,
da enorme completude,
fez-se a agonia.

ii.
Ágil pensamento
revoava grandioso,
antes do lamento.

iii.
Mente compulsiva,
por alguém obcecada,
mesmo sendo esquiva.

iv.
Ah! realidade!
por que mudas volta e meia,
fora da vontade?

v.
Pobre amor eterno,
renegado por três vezes,
sopro pós-moderno.

vi.
Tudo à flor da pele,
sentimento exagerado,
mas depois repele.

vii.
Cruzaste a soleira,
solitário então ficaste,
sem eira nem beira.

sábado, 10 de agosto de 2019

A Missa e o Apocalipse


"Quem quer expressar a aliança com Deus, ratificar a aliança com Deus, renovar a aliança com Deus tem de comer o Cordeiro — o cordeiro pascal que é nosso pão sem fermento. (...)
O que João descreve em sua visão era nada menos que o fim do mundo antigo, da antiga Jerusalém, da antiga aliança e a criação de um mundo novo, uma nova Jerusalém, uma nova aliança. Com a ordem do mundo novo surgiu uma nova ordem de culto. (...)
Onde encontramos sacerdotes paramentados de pé diante de um altar? Onde encontramos homens consagrados ao celibato? Onde ouvimos os anjos serem invocados? Onde encontramos uma Igreja que guarda as relíquias dos santos dentro de seus altares? Onde a arte exalta a mulher coroada de estrelas, com a lua debaixo dos pés, que esmaga a cabeça da serpente? Onde os fiéis suplicam a proteção do arcanjo são Miguel?"
(O Banquete do Cordeiro. A missa segundo um convertido. Scott Hahn)

P.S.: Scott Hahn resgata a compreensão dos cristãos primitivos de que o Apocalipse (último livro da Bíblia) retrata a liturgia da nova Aliança que é vivenciada com a comunhão na missa católica. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Mar


Fustigado pelo vento;
Corroído pelo sol;
Arranhado pela areia;
Temperado pelo sal,
O veleiro corta lento,
Sob os olhos do farol.
Tem consigo uma sereia;
Duas roupas no varal.
Voa longe o pensamento,
Vai além do arrebol.
Inda estio, já floreia
Um coqueiro no quintal.
Todo eterno num momento;
Aves juntas pelo ar
Vão cruzando o firmamento;
Nuvens vagam sobre o mar...

Eliton Meneses

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Frase do mês


"Há um certo número de coisas que não podemos atingir a não ser dando deliberadamente um salto na direção contrária. É preciso partir para o estrangeiro, a fim de encontrar a pátria que abandonamos." (Franz Kafka)

Canto


Canto, porque não esmorece a vontade de cantar.
O sonho ainda existe, o canto ainda insiste.
Não vai ser uma nuvem que nos vai fazer parar.
Saímos de uma seca, um verão escabroso,
Deixemos as pegadas no solo pantanoso,
Será a contragosto, inverno rigoroso, mas será muito afoita a coragem de plantar.
Cruzada num inferno, diabos pavorosos,
Cruzados corajosos no outono vão chegar.
Depois a nova era, virá a primavera,
Será vencida a fera e as flores da justiça irão enfim brotar.

Eliton Meneses

1.ª Pessoa


A morte não causa espanto,
Há mortos por todo canto.
Pouco importa a lei de Deus,
Basta não ser um dos meus.
Vosso reino venha a nós,
Todo aquele que tem voz.
Muito limpo o palacete,
Salvo embaixo do tapete.
Possuía tanta cousa
Quem sequer lavava a louça.
Sentada na penteadeira,
Sonhava a moça faceira.
A estranha de cocó
Vai morrer no caritó.
Vão entrar em simbiose,
Logo após mais uma dose.
Empregaram mil fatores,
Disfarçando as suas dores.
Prometera doravante
Ser melhor a todo instante.

Eliton Meneses

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Cotidiano


Acorda insone.
O sol já anda alto.
A água do banho não aquece.
Gravata, para quê gravata?
Onde estará a camisa passada?
Esqueceram de passar a camisa.
O aroma do café já não traz recordação.
A música, melhor fechar o rádio.
O leite frio não adoça o café morno.
O carro não pega, deve ser bateria de novo.
Tudo tão caro, o custo de vida, tanta conta...
O transporte púbico, que droga, tanta gente amontoada.
Todos tão pacientes, sem pressa em meio à cidade com pressa.
 O troco, senhor! — Que troco? Paguei no cartão.
— Não aceitamos cartão...
O trabalho, que tédio!
O chefe tem cara de poucos amigos.
Sim, senhor. É essa mesma. Três meses de garantia.
Quanto tempo falta para o almoço?
Alguém no telefone, de novo o telemarketing.
Comida sofrível, a sobremesa por favor.
Era preciso trocar a escova.
Que palidez! Esse espelho emagrece ou engorda?
Oi! Não. Encontro, hoje à noite?
Não posso. Estou fechado para balanço...
Passava a roupa tão bem...
Que cliente chato!
Que horas é o café?
O colega relata sua vida.
A filha vai ao médico.
O filho vai mal na escola.
Tudo parece tão distante.
A mulher ao menos ainda passa a roupa.
Fim de expediente. Graças a Deus!
De novo o coletivo.
Um cego pede esmola.
Para quê tanta parada?
A rua está escura.
Um cachorro late solitário.
Onde estará a chave?
Antes era tudo tão mais simples.
O jornal, a novela... As mesmas notícias de sempre.
O que fazer para o jantar?
Sardinha, miojo, um resto de vinho...
Amanhã começaria tudo de novo.
Sábado será a visita.
Os meninos hão de ficar bem.
Dessa vez não haverá retorno.
A pensão, metade das férias...
Tinha que aprender a viver só.

Eliton Meneses

domingo, 28 de julho de 2019

Humilhados e ofendidos : Dostoiévski


"— Não sei, Natacha. Nesse homem tudo é inexplicável. Quer casar-se com outra e amar-te a ti. Ele é capaz de tudo ao mesmo tempo."

"E finalmente, essa qualidade dos seres ingênuos, que talvez lhe viesse do pai, de apreciar uma pessoa, considerando-a por melhor do que verdadeiramente é e exagerar exaltadamente tudo quanto tem de bom, tinha-se desenvolvido nela num grau violento. A essas criaturas custa-lhes depois muito refazerem-se da sua desilusão e ainda mais quando sentem que são elas mesmas as culpadas. Para quê esperar de uma pessoa mais do que aquilo que ela pode dar?"

"O tempo... é a melhor solução para tudo."

"Em certos casos o dinheiro proporciona-nos uma posição independente, prepara-nos para procedermos com liberdade."

"— Olhe, há pormenores insignificantes e que no entanto servem para caracterizar um homem."

«O principal não é a inteligência, mas sim aquilo que a rege... A natureza, o coração, as nobres qualidades, a cultura...»

"— mas não basta a inteligência, também é preciso coração para uma pessoa não se deixar enganar."

"Aquela ingênua duplicidade da criança e da mulher que pensa, aquela ânsia infantil, e absolutamente sincera, de verdade e justiça, a sua fé inquebrantável nas próprias aspirações, tudo isso parecia iluminar-lhe o semblante com um certo fulgor de sinceridade, muito belo, e comunicava-lhe uma espécie de suprema beleza espiritual." 

"Eram mais «iguais» entre si, e isso é o essencial."

"Mas repare no que lhe digo: se fosse possível (o que, claro está, não será nunca, dada a natureza do homem), se fosse possível que cada um de nós escrevesse todos os seus pensamentos, mas sem recear desvendá-los — não só o que se receia dizer e por nada do mundo se diz aos outros, não só o que se não diz ao amigo mais íntimo, mas até aquilo que uma pessoa se não atreve a dizer a si própria —, então, creia-me, levantar-se-ia no mundo tal cheiro pestilencial que todos deitaríamos a correr, sufocados. E é por isso, diga-se entre parênteses, que as nossas convenções e o decoro mundano nos são precisos."

(Fiódor Dostoiévski. in Humilhados e ofendidos) 

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Soneto LXXVI


Cangaceiros sedentos de vingança;
Coronéis que faziam a própria lei;
A miséria roubava a esperança;
As volantes corriam atrás do rei.

O sertão sem vestígio de mudança,
Padecendo a agrura a pobre grei,
Desolada na fé, sem segurança,
Esperava a missão de mais um frei.

Estilhaço de sonho em toda parte;
A poeira, o sol quente, a vida, a arte;
Tanta cruz que fincava o duro chão.

Almas vivas cantavam em romaria,
Ecoando o dizer da profecia:
Quem espera vê luz na escuridão.

Eliton Meneses

terça-feira, 23 de julho de 2019

Freud explica


"Mas então acontece que a pessoa odiada atraia sobre si um desgosto bem merecido devido a alguma transgressão; então posso dar livre curso à minha satisfação por ela ter sido atingida pelo justo castigo, e nisso me exprimo em concordância com muitos outros que são imparciais. Porém, posso observar que minha satisfação é mais intensa do que a dos outros; ela recebeu um reforço oriundo da fonte do meu ódio que até então estava impedido pela censura interior de fornecer afeto, mas que não é mais impedido de fazê-lo nas novas circunstâncias. Isso geralmente ocorre na sociedade quando as pessoas antipáticas ou membros de uma minoria malvista cometem algum delito. Assim, sua punição não corresponde habitualmente à sua falta, e sim à falta acrescida da hostilidade, até então sem efeito, dirigida contra elas. Os punidores sem dúvida cometem uma injustiça nesse caso, mas são impedidos de percebê-la devido à satisfação que lhes proporciona o cancelamento de uma repressão longamente mantida em seus íntimos. Nesses casos, o afeto sem dúvida é justificado segundo sua qualidade, mas não segundo suas proporções; e a autocrítica tranquilizada quanto ao primeiro ponto negligencia com muita facilidade o exame do segundo. Uma vez aberta a porta, facilmente forçam passagem por ela mais pessoas do que de início se pretendia deixar entrar." (Sigmund Freud. in A interpretação dos sonhos)

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Lampião


Andei muito, vi santos, vi a lenda;
Arco-íris depois de um sereno;
Vi a tarde cair num sol ameno
Da porteira encurvada da fazenda.
Percorri taciturno a mesma senda
De um rei que vagou pelo sertão,
Com Maria e Corisco, a tradução
Da coragem do povo nordestino;
A memória que guardo de menino,
Virgulino Ferreira, o Lampião.

Vi Piranhas depois de muitos anos;
O parente inda vivo do coiteiro;
Descobri como veio sorrateiro
João Bezerra, depois de muitos planos;
Como foram gerados tantos danos,
Na manhã que raiou como trovão.
Vi a grota em que jaz o Capitão;
Tanto sangue no leito desaguar;
Vi o rio na seca virar mar
E também vi o mar virar sertão.

Eliton Meneses

segunda-feira, 8 de julho de 2019

La coscienza di Zeno : Svevo


"La vera schiavitù è la condanna all'astensione: Tantalo e non Ercole."

"È un dubbio che m'accompagnò per tutta la vita e oggidí posso pensare che l'amore accompagnato da tanto dubbio sia il vero amore."

"– La vita non è né brutta né bella, ma è originale!"

"La mia cura doveva essere finita perché la mia malattia era stata scoperta. Non era altra che quella diagnosticata a suo tempo dal defunto Sofocle sul povero Edipo: avevo amata mia madre e avrei voluto ammazzare mio padre."

"Nella psico-analisi non si ripetono mai né le stesse immagini né le stesse parole. Bisognerebbe chiamarla altrimenti. Chiamiamola l'avventura psichica. Proprio così: quando s'inizia una simile analisi è come ci si recasse in un bosco non sapendo se c'imbatteremo in un brigante o in un amico. E non lo si sa neppure quando l'avventura è passata."

(La coscienza di Zeno. Italo Svevo)

domingo, 30 de junho de 2019

Frase do mês


"Everyone wants happiness without any pain, but you can’t have a rainbow without a little rain."

Undécima


Arrodeio não leva a novo ponto;
Pouco importa mudar somente o nome;
Aparece no palco e logo some;
Dá um tédio reler o mesmo conto;
Quanto mais interesse, mais confronto;
Qual cachorro que corre atrás do rabo;
Não se sabe se Deus ou se diabo;
Sempre anjo do mel e da peçonha.
Nada muda de fato nesta história;
Quem cavalga soberbo rumo à glória
Vai montado na besta da vergonha.

Eliton Meneses

Arrabal amargo


Uma poesia em forma de música, como todo grande tango. Dramático, intenso, com uma pitada de humor. Uma das mais refinadas metáforas de Gardel e Le Pera. Uma história com começo, meio e fim. Um tango que dá vida ao subúrbio que habita cada um de nós, em meio ao labirinto do amor, que de alguma forma se confunde com a própria vida. Dois quartetos undecassílabos como introdução; dois quintetos em redondilha maior como refrão; e mais dois quartetos undecassílanos como conclusão: A/rra/bal/a/mar/go/me/ti/doen/mi/vi/da... A última sílaba átona não se conta. Um tango completo, da letra à melodia, que nos faz perguntar: Por onde andam os Gardeis e Le Peras do nosso tempo...?   




Arrabal amargo metido en mi vida
Como la condena de una maldición
Tus sombras torturan mis horas sin sueño
Tu noche se encierra en mi corazón

Con ella a mi lado no vi tus tristezas
Tu barro y miserias, ella era mi luz
Y ahora vencido arrastro mi alma
Clavado a tus calles igual que a una cruz

Rinconcito arrabalero
Con el toldo de estrellas
De tu patio que quiero
Todo, todo se ilumina
Cuando ella vuelve a verte

Y mis viejas madreselvas
Estan en flor para quererte
Como una nube que pasa
Mis ensueños se van,
se van, no vuelven más

A nadie le digas que ya no me quieres
Si a mí me preguntan diré que vendrás
Y así cuando vuelvas mi alma te juro
Los ojos extraños no se asombraran

Veras como todos esperaban ansiosos
Mi blanca casita y el viejo rosal
Y como de nuevo alivia sus penas
Vestido de fiesta mi lindo arrabal.

(Gardel/Le Pera)

El camino...



sexta-feira, 28 de junho de 2019

Omnia vincit amor


Audiência de apresentação de adolescente acusado de ato infracional.
O juiz pergunta à mãe:
– A senhora tem algo a dizer sobre seu filho?
A mãe responde:
– Sim. Que eu amo ele!

terça-feira, 25 de junho de 2019

Orações em Latim


Signum Crucis

Per signum X crucis, de X inimicis nostris libera-nos Deus X noster.
In nonime Patris X et Fílii X et Spitiui Sancto X. Amen.

Gloria Patri

Glória Patri et Fílio et Spirítui Sancto. Sicut erat in princípio et nunc et semper et in saecula saeculórum. Amen

Ave Maria

Ave, María, grátia plena : Dóminus tecum : benedícta tu in muliéribus, et benedictus fructus ventris tui Jesus.
R/. Sancta María, Mater Dei, ora pro nobis peccatóribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen

Pater Noster

Pater noster, qui es in caelis Sanctificétur nomen tuum : Advéniat regnum tuum : Fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Panem nostrum quotidiánum da nobis hódie : Et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris. Et ne nos indúcas in tentatiónem.
R/. Sed líbera nos a malo. Amen

Salve Regina

Salve, Regina, Mater misericordiae, vita, dulcédo et spes nostra, salve. Ad te clamamus, éxsules fiIii Evae. Ad te suspirámus geméntes et flentes in hac lacrimárum valle. Eia ergo, advocáta nostra, illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte. Et Jesum benedíctum fructum Ventris tui, nobis, post hoc exsílium, osténde. O clemens, o pia, o dulcis Virgo María!
V/. Ora pro nobis, sancta Dei Génitrix.
R/. Ut digni efficiámur promissiónibus Christi.

Credo

Credo in Deum, Patrem omnipoténtem, Creatórem caeli et terrae. Et in Jesum Christum, Filium eius únicum, Dóminùm nostrum : qui concéptus est de Spíritu Sancto, natus ex María Virgine, passus sub Pontio Piláto, crucifíxus, mórtuus, et sepúltus : descéndit ad ínferos; tértia die resurréxit a mórtuis; ascéndit ad caelos; sedet ad déxteram Dei Patris omnipoténtis : inde ventúrus est judicare vivos et mórtuos. Credo in Spiritum Sanctum, sanctam Ecclésiam Cathólicam, Sanctórum communionem, remissiónem peccatórum carnis resurrectiónem, vitam aetérnam. Amen.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Soneto LXXV


Passageiros do trem da zero hora;
Estação de um tempo que passou;
Quem não foi dessa vez ainda chora;
A saudade foi tudo que restou.

Todo mundo um dia vai embora;
É quimera pensar que se livrou;
Mesmo aquele fiel que muito implora,
Assustado, num sopro se apagou.

Tanta gente arrota tanta empáfia,
Atropela o que acha pela frente,
Nos instantes efêmeros da vida.

Arrogante altivez de uma máfia,
Arvorando-se mor que toda gente,
Até quando lhe assalta a despedida.

Eliton Meneses

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Soneto LXXIV


A massa não cresce sem ter fermento;
Os olhos não enxergam sem ter a luz;
A obra precisa de mais cimento;
Mais coisas ocorrem a quem faz jus.

Há muitos segredos no firmamento;
Há ouro escondido que nem reluz;
Não basta a ciência, sem sentimento;
Os homens transcendem aos pés da cruz.

Quisera que tudo fechasse a conta;
Quiçá vislumbramos somente a ponta
Do enorme mistério além do nariz. 

Tão logo começa, vem a partida;
São muito complexas as coisas da vida;
Queremos ter asa e somos raiz. 

Eliton Meneses

terça-feira, 11 de junho de 2019

Soneto LXXIII


Sem coragem sequer de ir na esquina,
Padecia prostrado no seu quarto;
Era jovem mas já estava farto,
Derrotado no ocaso da rotina.

Um castelo deitado em ruína;
Coração quase à beira do infarto;
Tudo quanto fazia era um parto;
Tinha o caos bem diante da retina.

Quão modestas são sempre suas queixas,
Arremedos de mágoa e desrespeito,
Desdenhava dos laços afetivos.

Preocupado no espelho com madeixas;
Olvidava da vida, a despeito
Da receita de anti-depressivos.

Eliton Meneses

Anormal


Sob um certo aspecto, é a anormalidade que nos torna humanos. Somente o ser humano sobe o Everest, arriscando a vida pelo simples prazer de estar no ponto mais alto do mundo. É graças à anormalidade que o mundo se move. A normalidade é a zona de conforto dos bichos. 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Frase do mês


"Jeder, der sich die Fähigkeit erhält, Schönes zu erkennen, wird nie alt werden" (Kafka)

Gato


O menino precisava de um animal de estimação. Andava solitário, filho único. Os pais não podiam ter outro filho. As condições não davam. Vida de professor não é fácil. O psicólogo aconselhou uma forma alternativa de afeto. Um cachorro, um gato... Um cachorro de raça não cabia no orçamento já apertado. Ração, veterinário, banho e tosa... Impensável. 
O filho suplicava por um animalzinho, o tempo passava. O pai teve uma ideia. No departamento onde ensinava havia muitos gatos. Gatos de rua, sem dono. Alguns tinham tanto tempo de campus que já eram quase doutores... Os alunos estranharam quando viram o professor levando um gato. Era aquele, manso e cinza. Levou com cuidado a surpresa para o filho. O menino ficou em êxtase. Era o amiguinho com que tanto sonhara. A mãe deu um banho no bichano, pôs uma fita vermelha no seu pescoço e serviu leite fresco. A casa estava completa. Sem custo extra, gato de rua come qualquer coisa.   
O menino acordava cedo, brincava com o Panis, ia disposto para a aula. A casa estava mais alegre, o menino mais sociável, fazia sozinho a tarefa de casa. O psicólogo parabenizou a aquisição. Dormiam do lado, menino e gato. Tudo tinha mudado. Duas semanas de puro enlevo, até que Panis amanheceu indisposto. O menino fez de tudo para animá-lo. Deu água, leite, o levou para a rua. Nada adiantou. O gatinho só ficava deitado, sem disposição para nada. Em desespero, a criança pediu que fossem ao veterinário. Calma, menino. Veterinário é caro. Esperaram mais um dia, o gato amanheceu ainda mais desanimado e não teve jeito. Foram todos ao veterinário. Consulta cara, alguns exames e eis o terrível diagnóstico. Esporotricose! A cura era possível, mas o tratamento caro e demorado. Quanto era? Entre quatro e cinco mil. Impensável. 
O gato, os pais e o menino voltaram igualmente macambúzios. 
Na manhã seguinte, o pai resolveu adotar a solução mais drástica. Levou o gato de volta para o departamento onde ensinava...