quarta-feira, 22 de maio de 2019

Opinião x Preconceito


Na era da pós-verdade, há um esgotamento dos conceitos e uma tendência à negação de todas as 'verdades' erigidas sob o velho mundo, de uma forma às vezes perigosa. Quando, por exemplo, se pretende desconstruir o que se chama de 'discurso politicamente correto', parece tender-se para a legitimação de um 'discurso politicamente incorreto', muitas vezes atravessando a fronteira do próprio preconceito. Se há excesso no 'discurso politicamente correto', deve-se combater o excesso, e não achar que o excesso de ontem justifica o abuso de hoje. Por mais que a ciência tenha fracassado em provar a Verdade, algumas verdades estão postas, são inquestionáveis e qualquer ideia de construção de um mundo novo que pretenda ignorá-las já começa mal, sem fundamento e está fadada ao fracasso.
Num regime democrático tende-se a considerar tudo um debate de opinião. No entanto, o debate deve acabar exatamente onde o preconceito começa, muito embora se reconheça que algumas vezes haja uma linha tênue entre uma coisa e outra. Sempre ouvi dizer que a música 'O teu cabelo não nega', do Lamartine Babo, dos anos 30, era um exemplo histórico de preconceito, assim como umas passagens da obra do Monteiro Lobato, dentre outras, enfim, obras que se tinham incorporado na cultura nacional, mas que eram um retrato de uma época em que o preconceito era naturalizado e que, embora reproduzidas, não eram um exemplo a ser seguido.
Atualmente, já há pessoas defendendo que a música não veicula preconceito, porque é um poema para uma mulata, que a interpretação autêntica (a intenção do Lamartine Babo) não era aquela, que, quando se diz: 'mas quando a cor não pega', está-se querendo pegar a cor da mulata, mas, como a cor não é transmissível, se quer o amor dela... O fato é que é difícil para essas pessoas reconhecerem que o preconceito é algo coletivo e não individual. O preconceito de que se trata não é o do poeta em face da musa inspiradora do poema, mas o preconceito em face da 'raça' dela, sendo plenamente possível que alguém não goste do gênero, mas goste de algo específico desse gênero, daí o mas, que é conjunção adversativa e significa apesar de, não obstante, ainda assim...
Noutro passo, não convém buscar uma interpretação do poeta autor da obra. Afinal, não se trata de julgar o Lamartine Babo, que, a propósito, fez os mais belos hinos do futebol brasileiro e já deve estar de osso branco... A questão é que 'O teu cabelo não nega' transcendeu em muito o seu autor e se tornou talvez a mais conhecida marchinha do Carnaval brasileiro, que é famoso no mundo todo, sendo executada todo ano exaustivamente. Não se trata também de censurar a própria marchinha, que já se incorporou na cultura e não tem por que ser proibida oitenta anos depois de ter sido feita. Agora, outra coisa é achar que ela não veicula preconceito e dessa forma tentar naturalizar o preconceito que ela realmente encerra. Embora, de fato, haja uma possibilidade interpretativa que possa sugerir o desejo de ser contagiado pela cor da mulata – aliás, palavra com forte conotação depreciativa, passível de uma discussão à parte –, a interpretação mais imediata é a que sugere a cor da mulata como algo que não se quer pegar, ou seja, quer-se o amor dela já que não há o risco de contrair a sua cor, que seria algo indesejável. Tal interpretação, mesmo não tendo sido o propósito consciente do Lamartine Babo, é algo que decorre da própria literalidade do texto – mas é adversativa – e a música, como qualquer outra arte, é produto cultural de um povo e não apenas de um autor. 'O teu cabelo não nega' não é produto apenas do Lamartine Babo, mas de um país que é eivado de preconceito, de um tempo recuado em que esse preconceito era ainda mais intenso e até naturalizado, inclusive porque a sombra da escravidão ainda era latente, escravidão que adotou um dos modelos mais perversos da história.
Quando se trata de preconceito, um vetor que deve nos orientar é a perspectiva da vítima do preconceito. O que acha o negro, especialmente a mulher negra, da machinha 'O teu cabelo não nega'? Sente-se ela bem ao ouvi-la ou se sente incomodada? Decerto, muitas se sentem incomodadas; logo, se há esse incômodo, há sim preconceito envolvido e, portanto, algo que não pode ser naturalizado.
A perspectiva do preconceito não é o da coisa em si, mas a do resultado danoso que ela pode produzir. Às vezes, constrói-se um brinquedo apenas para que uma criança se diverta, mas às vezes esse brinquedo causa danos à criança e, aí, passa a ser um exemplo de brinquedo que não deve ser seguido. Se há um potencial de dano em 'O teu cabelo não nega', não se trata de censurá-la, não se trata de condenar o Lamartine Babo, não se trata de tratar intolerância com intolerância, mas de deixar claro que se trata de uma peça do passado, incorporada ao patrimônio cultural brasileiro, que, de todo modo, veicula um potencial danoso e que, como tal, não é um exemplo a ser seguido.

domingo, 19 de maio de 2019

Eu já sabia!


Quando o avião pega uma turbulência, espera-se do piloto experiência, equilíbrio e conhecimento. Entre nós, num país em crise, apostou-se num sujeito desequilibrado e estulto, que, após ser expulso do exército precocemente por indisciplina e deslealdade, agarrou-se na carreira política como um meio de vida – para si e para uma récua de filhos –, nada mais tendo feito, em mais de vinte anos como deputado do baixo clero, do que colecionar bate-bocas, destilar ódio e levar uma cuspida... Deu no que deu! Eu já sabia!

terça-feira, 14 de maio de 2019

Soneto LXXI


Eu também percorri o meu deserto;
Mergulhei no vazio da existência;
Já provei da amarga experiência,
Quando nem minha sombra dei por perto.

Sem coragem, sentei a céu aberto;
Entre pedras, exausto, sem decência;
Com sinais da mais rude incoerência,
Sob um sol sem calor me vi desperto.

Lobriguei entre a névoa alguém que chora,
Um espectro perdido que me implora,
Acossado de peso sobre os ombros.

Uma luz me surgiu na noite escura;
De inopino saí dessa tortura,
Ressurgi quase ileso dos escombros.

Eliton Meneses

domingo, 12 de maio de 2019

terça-feira, 30 de abril de 2019

Frase do mês


Ilusões da vida

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano

Fluxo de consciência


Penso em partir. Partir para onde? Há muitos lugares aonde se pode ir. Talvez Florença, Varanasi ou mesmo Coreaú. Melhor é não ir a lugar algum. Andar só pelo gosto de andar. Dizem que o máximo do prazer está no percurso e não no destino final. Andar só não convém. É preciso compartilhar as coisas. Sentir acompanhado o sol brilhar. A linha do mar distante. Dois coqueiros que deitam abraçados. Essas coisas essenciais. Tomar um café. Rir de qualquer coisa. Como o mundo assume novos tons quando se está acompanhado! Na companhia de quem sente o que sentimos. Companhia visceral. A vida é cheia de mistérios. Quando menos se espera: Ei-la, diante dos seus olhos. E o mundo assume um novo significado. Não precisa ir longe. Pode-se até parar. O importante é estar sempre junto...

Apelação : extinção sem intimação pessoal



segunda-feira, 29 de abril de 2019

Soneto LXX

                                                (...)

O amor inerente ao ser humano
Aparece das mais diversas formas,
Subverte as mais austeras normas,
Faz da luz da manhã um novo plano.

Como um barco que corta o oceano,
O amor é uma força que transforma,
A saudade presente que conforma,
A verdade que afasta o desengano.

O amor é o que há de mais primevo,
O enlevo pulsante mais longevo,
O remédio da angústia mais sentida.

Quem não ama padece na caverna,
Não sentiu despertar a flor eterna,
Não conhece a razão maior da vida.

Eliton Meneses

Varanasi



"Benares is older than history, older than tradition, older even than legend, and looks twice as old as all of them put together." (Mark Twain)

Benarés

Falsa y tupida
como un jardín calcado en un espejo,
la imaginada urbe
que no han visto nunca mis ojos
entreteje distancias
y repite sus casas inalcanzables.

El brusco sol
desgarra la completa oscuridad
de templos, muladares, cárceles, patios
y escalará los muros
y resplandecerá en un río sagrado.

Jadeante
la ciudad que oprimió un follaje de estrellas
desborda el horizonte
y en la mañana llena
de pasos y de sueño
la luz va abriendo como ramas las calles.

Juntamente amanece
en todas las persianas que miran al oriente
y la voz de un almuédano
apesadumbra desde su alta torre
el aire de este día
y anuncia a la ciudad de los muchos dioses
la soledad de Dios.

(Y pensar
que mientras juego con dudosas imágenes,
la ciudad que canto persiste
en un lugar predestinado del mundo,
con su topografía precisa,
poblada como un sueño,
con hospitales y cuarteles
y lentas alamedas
y hombres de labios podridos
que sienten frío en los dientes.)

Jorge Luis Borges

Leruá




Semana Santa! Leruá!
Eu vou cantar! Leruá!
Vicente Chico! Leruá!
No meu lugar! Leruá!
Já fui menino! Leruá!
Eu quis entrar! Leruá!
Na brincadeira! Leruá!
Do leruá! Leruá!
Agora grande! Leruá!
Já sei rimar! Leruá!
Já tenho a tora! Leruá!
Que é de jucá! Leruá!
Arrocha, arrocha! Leruá!
Pode arrochar! Leruá!
Entra na roda! Leruá!
Pra nós brincar! Leruá!
É tradição! Leruá!
Que vai ficar! Leruá!
E o Caxica! Leruá!
Já foi pra lá! Leruá!
Nonato Preto! Leruá!
Foi acolá! Leruá!
E tem cachaça! Leruá!
Para tomar! Leruá!
Lá no Serrote! Leruá!
Vamos buscar! Leruá!
O pau do Juda! Leruá!
Para malhar! Leruá!
No fim da tarde! Leruá!
Vamos chegar! Leruá!
Da Sexta-feira! Leruá!
Do lagamar! Leruá!
Tem o sereno! Leruá!
Pra se banhar! Leruá!
E as pessoas! Leruá!
Pra nos olhar! Leruá!
Um festival! Leruá!
Pra nós ganhar! Leruá!
Um dinheirim! Leruá!
Se alegrar! Leruá!
Cadê o Toba? Leruá!
Pra eu passar! Leruá!
A rima agora! Leruá!
Pra descansar! Leruá!
Já tá na hora! Leruá!
Deu terminar! Leruá!
Maneiro-pau! Leruá!
Vamos torar! Leruá!
E tora tora! Leruá!
No leruá! Leruá!

Eliton Meneses

sábado, 27 de abril de 2019

Sensível x Inteligível




Platão entende que há dois mundos diferentes: 1) o mundo sensível, dos fenômenos, acessível aos sentidos; e 2) o mundo inteligível, das ideias gerais, das essências imutáveis, que se atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos. 
Na alegoria da caverna, as pessoas estão acorrentadas desde sempre numa caverna, de costas para a entrada, sem poderem ver umas às outras ou a si próprias, avistando apenas uma parede ao fundo, onde são projetadas as sombras das coisas que acontecem fora da caverna. Quem consegue se libertar das correntes e contemplar os verdadeiros objetos fora da caverna, ao voltar e revelar a descoberta para os prisioneiros, é considerado um louco.
O mito da caverna (Livro VII da República) busca exemplificar como o homem pode-se libertar do obscurantismo que o aprisiona por meio da luz do conhecimento.


If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;
If you can dream – and not make dreams your master,
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings – nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man, my son.

– Rudyard Kipling

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!

– Rudyard Kipling [tradução Guilherme de Almeida]                           

domingo, 21 de abril de 2019

Semana Santa


Dois períodos são especialmente relevantes no calendário coreauense: a Semana Santa e a Festa de Setembro. A Semana Santa acontece no auge do inverno. Neste ano, com chuva em abundância, a Palma fez lembrar a Palma de outrora, renascida depois de um longo período de estiagem. As casas brejadas, o rio correndo, os açudes sangrando, a chuva da tarde já esperada, a garoa da noite. O serrote verde oliva, as nuvens sempre no céu anil, as campinas inundadas, a sinfonia de pássaros no ar. Nas ruas poucos pedintes e a melodia ancestral do leruá. Vicente Chico, leruá... O sino da igreja anuncia o Sábado de Aleluia. Não procure entre os mortos aquele que está vivo. Cristo ressuscitou. E com ele a vida no semiárido. Coreaú não será deserto. Há água em abundância. Há vida em profusão. Uma nova geração desfila nas ruas. Filhos de fulano, netos de sicrano. Ainda ontem, todos... São as voltas da vida, fugaz e bela, na chegada e na partida. As mesmas ruas, a mesma cheia, o mesmo menino. O banco da praça, a Coluna da Hora, o casal de namorado... As pessoas passam, a Palma fica, na lembrança dos que ficam, no sangue dos que ficam... A Palma renasce depois da longa estiagem, com as flores que aparecem em toda parte, com o canto do passarinho que reaparece depois de muitos anos, com o cheiro de inverno que rescende no ar. A Palma é a mesma Palma. As borboletas voltaram ao oitão...

domingo, 7 de abril de 2019

Soneto LXIX

                                      To Bauman

Nossa era nascida do fracasso,
Da ruína de todas as promessas;
Com verdades viradas às avessas,
Novo mundo do tédio e do cansaço. 

Pós-moderna razão sem nenhum laço;
Desdenhosa das musas já pregressas;
Como água que corre sempre às pressas;
Tantos egos sem tempo e sem espaço.

Utopia embotada pelo medo;
Tudo volta repleto de segredo;
Das ideias resulta má lembrança.

Derrotado no fim da própria história;
Não é Deus, já não tem nenhuma glória;
Solitário no mar sem esperança.

Eliton Meneses