sábado, 3 de dezembro de 2016

SONETO X


Passo o dia debaixo deste sol;
Meu ofício é plantar na terra dura; 
Fatigado, em meio a tanta agrura,
 Ouço o canto feliz do rouxinol. 

Quando chega dolente o arrebol,
Me assombra a grandeza da natura;
Peço a Deus outro tempo de fartura;
 Uma chuva que encharque este crisol. 

Sigo assim, resistindo à estiagem:
Tomo um gole de água na cabaça;
Tenho marcas da vida em minha mão.

Eu sou feito de sonho e de coragem;
 Num roçado com cheiro de fumaça,
Vou plantando sementes pelo chão.
 
Eliton Meneses

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

CEL. AURELIANO BUENDÍA


"El coronel Aureliano Buendía promovió treinta y dos levantamientos armados y los perdió todos. Tuvo diecisiete hijos varones de diecisiete mujeres distintas, que fueron exterminados uno tras otro en una sola noche, antes de que el mayor cumpliera treinta y cinco años. Escapó a catorce atentados, a setenta y tres emboscadas y a un pelotón de fusilamiento. Sobrevivió a una carga de estricnina en el café que habría bastado para matar un caballo. Rechazó la Orden del Mérito que le otorgó el presidente de la república. Llegó a ser comandante general de las fuerzas revolucionarias, con jurisdicción y mando de una frontera a la otra, y el hombre más temido por el gobierno, pero nunca permitió que le tomaran una fotografía. Declinó la pensión vitalicia que le ofrecieron después de la guerra y vivió hasta la vejez de los pescaditos de oro que fabricaba en su taller de Macondo. Aunque peleó siempre al frente de sus hombres, la única herida que recibió se la produjo él mismo después de firmar la capitulación de Neerlandia que puso término a casi veinte años de guerras civiles. Se disparó un tiro de pistola en el pecho y el proyectil le salió por la espalda sin lastimar ningún centro vital. Lo único que quedó de todo eso fue una calle con su nombre en Macondo. Sin embargo, según declaró pocos años antes de morir de viejo, ni siquiera eso esperaba la madrugada en que se fue con sus veintiún hombres a reunirse con las fuerzas del general Victorio Medina." (Cien años de soledad. Gabriel García Márquez)



ABORTO


Eis um tema que seria preferível não ter que enfrentar. Um tema em que, ao fim e ao cabo, todos saem de alguma forma perdendo. Mas um tema que não pode deixar de ser enfrentado, muito embora talvez jamais se encontre uma solução ideal. 
Milhares de mães morrem em clínicas de aborto clandestino todo ano somente no Brasil. As causas que levam essas mães a abortarem são as mais diferentes. Entre nós, o aborto é crime, passível, em tese, de prisão, de toda sorte, a experiência revela ser bem raro uma mãe ser punida pelo aborto, sobretudo pela clandestinidade da ação. O crime de aborto acaba sendo praticamente letra morta. Diante disso, surge a questão: Não seria preferível legalizar logo o aborto? Assim, as mulheres que desejassem abortar teriam como recorrer a um hospital para realizar o procedimento de modo seguro...
Essa solução seria simples se não implicasse um outro interesse que a ordem jurídica também protege. Não se pode esquecer que o feto e o embrião são uma vida humana em desenvolvimento. Não sei se porque costumo desviar a pisada até para não atingir uma formiga, acho muito espantosa essa ideia de um aparato médico-hospitalar a postos para realizar um aborto, sem uma razão séria a justificar a medida, como nos casos de risco de vida da gestante e de gravidez resultante de estupro, já autorizados pela lei. 
Quando se fala em legalizar o aborto, qual seria o fundamento desse direito de abortar? A integridade do corpo da mãe? A liberdade da mãe? E o direito à vida do embrião? Ora, na ponderação do interesse mais relevante, considerando o embrião ou o feto uma vida, não haveria como a balança não pender em favor do nascituro. A não ser que não se considere o feto ou o embrião uma vida humana, algo absolutamente incompatível com o atual estágio da ciência, não haveria como não priorizar a vida do ser em formação. Na quarta semana de gestação, o pequeno coração do ser humano em desenvolvimento já começa a pulsar de maneira vibrante. A decisão do STF que, há poucos dias, não considerou crime o aborto antes do terceiro mês de gestação, prioriza interesses secundários da mãe e esquece um pequeno coração humano que bate com tanto anseio de viver. 
Espantam-me certas incoerências. Já testemunhei camaradas chorarem, por exemplo, pela prisão de um canário na gaiola e, logo em seguida, vibrarem pela legalização do aborto, sem aparentemente se importarem com os milhares de pequenas vidas humanas que seriam ceifadas nesse processo. A vida humana, mesmo embrionária, me interessa mais do que a liberdade de um canário. Se o conceito de justiça que mais prezo significa estar do lado do mais fraco, com Norberto Bobbio, pergunto: Na relação entre a mãe e o nascituro, quem é o mais fraco?
Digo isso, mas também considero que o aborto, especialmente para a mãe, é sempre um drama. Assim, pensar em prisão para a mãe que aborta é algo sobremodo despropositado. Decerto seria recomendável uma pena diversa da prisão, uma multa, uma prestação de serviço à comunidade, algo que, ainda que simbolicamente, representasse uma reprimenda pela atitude reprovável. Prisão, não. A prisão só se prestaria a agravar ainda mais o drama já existente. 
Também simplesmente descriminalizar seria reconhecer a licitude da conduta, dizer que o ato de abortar não merece qualquer reprovação social,  além de permitir que um hospital realizasse um aborto por um mero capricho da mãe, sem qualquer fundamento razoável. É possível que haja outros motivos para se realizar um aborto, para além dos atualmente previstos em lei. Também concordo em discutir a ampliação dessas hipóteses. O STF incluiu a hipótese dos anencéfalos. Acho isso possível. Mas simplesmente descriminalizar o aborto, o que na prática significaria legalizar o aborto imotivado, acho algo absurdo. Algo que significaria um convite à irresponsabilidade. Numa época com tantos métodos contraceptivos, engravidar e depois ter a liberdade de ceifar a vida do embrião ou do feto ao seu bel-prazer é algo que, para mim, beira o absurdo. Acho que o aborto para acontecer tem que ter ao mesmo um motivo convincente, um motivo que transcenda a ideia egoística de que a mulher é dona do seu corpo, afinal, o feto não é o corpo da mulher.  
Num tema tão espinhoso, não há alternativa melhor do que um meio termo, que não se prenda a argumentos estatísticos enviesados. De fato morrem muitas mulheres em clínicas clandestinas. É lamentável que morram milhares de mulheres em clínicas clandestinas. Mas será que a melhor solução para reduzir esse quadro tão dramático seria mesmo legalizar o aborto? Talvez para a mulher, sim. Sem dúvida para a vida humana em formação, não. Nesse dilema, não seria melhor construir uma cultura de gravidez responsável? Disseminar ainda mais os métodos contraceptivos? Quem sabe até com o pílula do dia seguinte?
Sou um entusiasta da causa feminina, toco nesse tema com bastante desconforto, mas tenho uma opinião que não posso esconder. Sou contra o aborto imotivado. Sou contra o aborto que não tenha uma razão séria a justificá-lo. Sem um motivo bem sério, a minha opção é pelo pequeno coração que pulsa, com muita vontade de viver. 
Nossa missão é salvar a todos, mães e filhos.

domingo, 27 de novembro de 2016

RÁPIDAS

I. 
O Golpe de 2016 é golpe não apenas por destituir, sem razão suficiente, uma presidenta da República legitimamente eleita, mas também por visar à instalação de um Estado liberal – prova disso é a PEC do Corte de Gastos –, com a indisfarçável pretensão de destruir o Estado social implantado pela Constituição de 1988.

II. 
O Congresso Nacional está prestes de anistiar o Caixa 2, uma verdadeira carta branca para a corrupção generalizada, e a indignação das panelas, por onde anda? Será que o problema era mesmo a corrupção?

III.
Interessante que os nossos neofascistas são defensores ardorosos dos direitos humanos, mas somente quando os direitos humanos são violados em Cuba! Quando os direitos humanos são violados no Brasil ou nos EUA não se importam, porque 'bandido bom é bandido morto'...

IV. 
– E a ordem, pai?
– A ordem é dinâmica, filho! Agradeça aos loucos por não mais vivermos na Idade da Pedra!

V.
A grande dupla do Século XX da periferia do mundo!

sábado, 26 de novembro de 2016

FIDEL



"Os homens passam, os povos ficam; os homens passam, as ideias ficam." (Fidel Castro) (1926-2016)

domingo, 20 de novembro de 2016

ONEIDA



Meu nome é Oneida. Nasci na Palma em 1936, a primogênita do casal Maria do Carmo e Valdemar. Quando nasci, meu pai, cheio de alegria, tomou um trago e cantou bem alto:
– O pinto piou, seu Zé?! Piou no ovo?! É pinto novo!   
Tive uma infância feliz entre a Palma, as Pedrinhas e a Volta, cuidando dos irmãos mais novos e tomando banho no rio.
Quando dei por mim, já era uma adolescente e, na Volta, conheci José, rapaz bonito e elegante que me esperou ficar moça para nos casarmos. Fomos morar em Parnaíba. Tivemos Rita e Mauro, vivíamos felizes, até que José perdeu a vida num acidente de trânsito. Voltei para a Palma num caminhão de mudança com os meninos ainda pequenos. Comprei uma casa perto do meu irmão Oneon e procurei reunir forças para tocar a vida sozinha.    
Nunca esqueci José, ainda tenho no dedo a aliança dele junto da minha. Olho para a nossa foto na parede e acho que o tempo não passou; sonho com o retorno dele, sei que um dia nos reencontraremos.    
Quando a Rita e o Mauro já estavam criados, comecei a criar uma outra filha, Mariana Joyce. Pouco depois, a Rita casou, foi morar em Belém, o Mauro a acompanhou logo em seguida e a Mariana passou a ser minha única companhia. 
A Rita me deu três netos; o Mauro, três netas, mas, apesar dos muitos apelos, eu nunca quis largar a minha Palma. Tenho a minha casa, moro perto da igreja de Nossa Senhora da Piedade, assisto minhas novelas, conheço todo mundo... Papai e mamãe estão enterrados nesta terra; foi aqui que nasci, é aqui onde hei de morrer. 
Aos cinquenta anos começaram meus problemas de saúde. Assistia o Roque Santeiro quando tive a primeira crise. Hoje tenho oitenta anos. Nesses trinta anos passei por muita coisa. Estive entre a vida e a morte, fiz muitas cirurgias, não passo sem os remédios para isso e aquilo, mas estou aqui, resistindo, com fé em Deus e em Nossa Senhora. A Joyce já casou e teve dois filhos. Quando eles me visitam, fico em festa; quando vão embora, bate uma saudade!
No final do ano passado o Onezi veio me visitar. Ele mora em São Paulo e fazia muito tempo que não aparecia. Foi uma festa; Rita, Mauro, Joyce, os primos quase todos. Fazia tempo que eu não era tão feliz. 
Não ando bem de saúde. Nos últimos anos tenho piorado. Completei oitenta anos e sinto que, com a idade, fica cada vez mais difícil suportar as dores no corpo. Os remédios não fazem mais efeito. A cada despedida dos filhos e dos netos imagino que foi a última. 
O Oneon aparece à tarde para conversar comigo. Meu irmão tem muita história. Gosto de ouvir as histórias da família, de lembrar da mamãe, do papai, da Popô... A Onete morreu faz mais de dez anos. A Oneci está bem, mora perto e está sempre aqui por casa. Quero viver mais, quero viver até os cem anos.
Ano passado o Mauro me levou até a Parnaíba. Revemos a casa onde moramos, visitamos o túmulo do José, tomamos um banho na mesma praia, tive muitas recordações nessa viagem.  
Hoje já não posso mais me levantar. As pernas não respondem mais. Tenho dores por todo o corpo. Em setembro apareceram os meninos do Oneon. As meninas da Oneci e da Onete sempre me visitam. Depois da festa de setembro tive uma crise. Rita, Mauro e Joyce vieram às pressas. Achei que dessa não passaria. Com os três filhos por perto e os dedos cravados no rosário, tive uma melhora. Mauro pôde voltar para Beĺém. Com a ida dele, bateu-me uma saudade e as dores retornaram. Logo que peguei no sono, sonhei com o José vindo me buscar.

sábado, 19 de novembro de 2016

GOLPE LIBERAL


"Não resta dúvida que em determinados círculos das elites vinculadas a lideranças reacionárias está sendo programada a destruição do Estado social brasileiro. (...)
A Constituição de 1988 é basicamente em muitas de suas dimensões essenciais uma Constituição do Estado social. (...) Uma coisa é a Constituição do Estado liberal, outra a Constituição do Estado social." (Paulo Bonavides. Curso de Direito Constitucional. 5.ª edição. Malheiros. 1994. p. 336)

O Golpe de 2016 é golpe não apenas por destituir, sem razão suficiente, uma presidenta da República legitimamente eleita, mas também por visar à instalação de um Estado liberal – prova disso é a PEC do Corte de Gastos –, com a indisfarçável pretensão de destruir o Estado social implantado pela Constituição de 1988.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

SONETO IX


Meu amigo, não sei por onde andas;
Ando atrás já faz tempo de saber.
Há na vida da gente tais demandas,
Que nos trazem o amargo padecer.

As medidas decerto não são brandas,
Mas não tens coisa alguma a esconder. 
Aparece aqui por estas bandas,
 Que te digo de pronto o que fazer.   

Os problemas se encaram pela frente;
É preciso manter-se adimplente,
No afeto e também no de comer. 
   
 Talvez foste um pouco indiferente,
Quando a vida te espera diligente
 Para veres sem medo o amanhecer.

Eliton Meneses

domingo, 13 de novembro de 2016

CEM ANOS DE SOLIDÃO


Uns anos atrás, peguei-me lendo Cem anos de solidão, numa tradução que acompanhava um certo jornal, e, sinceramente, não entendi nada. Estava lendo outras coisas e, naquela leitura rastejante, cheguei a duas conclusões: ou Cem anos de solidão não era tudo aquilo que falavam ou o problema estava em mim, talvez a falta de maturidade literária, talvez a falta de tempo, de sensibilidade ou de compromisso com aquela leitura específica. Por volta da página 50, sem achar nenhuma graça em meninos com rabos de porco, parei a leitura.
Há poucos dias, vi, na livraria, uma edição comemorativa de Cien años de soledad, semelhante à edição comemorativa dos 400 anos de Dom Quixote, da Real Academia Española, e resolvi comprar.
Quando comecei a ler, não parei mais. Parei de ler Guerra e Paz, parei de ler o Código de Processo Penal comentado, parei de fazer um recurso, parei tudo, até terminar a estória mais fantástica já escrita na América Latina, talvez a estória mais fantástica sobre a América Latina, aquela que toca o homem universal a partir do cotidiano do homem latino-americano, encenada num povoado chamado Macondo, que poderia muito bem chamar-se Coreaú ou qualquer outro rincão longínquo da América Latina.
O problema decerto estava em mim. Cien años de soledad desbrava um território antes inexplorado, abre uma dimensão do nosso inconsciente latino esquecido em meio a superficialidades tão óbvias.
A impressão que tive é de, visitando Macondo, ter revisitado a minha Coreaú, de ter penetrado na minha própria história por um atalho que me trouxe de volta cores, cheiros e gostos de outros tempos, de um tempo que realmente dá voltas em torno de si.
Lendo Cem anos de solidão, não há como não se afeiçoar por essa Pátria Grande que se chama América Latina, por essa comarca do mundo tão explorada, mas ao mesmo tempo tão fértil na relevação de um homem novo, um homem mestiço e plural, misto de Aurelianos, José Arcadios e Úrsulas, louco e gênio a um só tempo, que de um quarto escuro de um povoado esquecido consegue sentir e entender a solidão do mundo.
Vendo, por curiosidade, a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos da Revista Bula, notei que Dom Quixote figurava na 1.ª posição e Cem anos de solidão na 5.ª. Não li muita coisa na vida, mas do que li, acho que Cem anos de solidão poderia subir facilmente para a 2.ª posição, e, quem sabe, a depender da perspectiva, desbancar o próprio Quixote.
Quem não leu Cem anos de solidão, ainda não teve o enorme prazer de mergulhar numa das maravilhas da literatura, numa maravilha que está plantada no nosso quintal, que está plantada dentro de nós mesmos e que retrata de maneira fiel o inconsciente coletivo de toda a América Latina.

CIEN AÑOS DE SOLEDAD


"Muchos años después, frente ao pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo."
"El padre Nicanor, que jamás había visto de ese modo el juego de damas, no pudo volverlo a jugar. Cada vez más asombrado de la lucidez de José Arcadio Buendía, le preguntó cómo era posible que lo tuvieran amarrado en un árbol.
– Hoc est simplicisimum – contestó él –: porque estoy loco."
"Estaremos perdiendo el tiempo mientras los cabrones del partido estén mendigando un asiento en el congreso."
"La embriaguez del poder empezó a descomponerse en ráfagas de desazón."
"Extraviado en la soledad de su inmenso poder, empezó a perder el rumbo."
"En verdad, lo que interesaba a él no era el negocio sino el trabajo."
"– ¿Cómo está, coronel? – le dijo al pasar.
– Aquí – contestó él – . Esperando que pase mi entierro."
"'No estamos volviendo gente fina', protestaba. 'A este paso, terminaremos peleando otra vez contra el régimen conservador, pero ahora para poner un rey en su lugar'."
"Encerrado en el taller, el coronel Aureliano Buendía pensaba en estos cambios, y por primera vez en sus callados años de soledad lo atormentó la definida certidumbre de que había sido un error no proseguir la guerra hasta sus últimas consecuencias."
"– Lo mismo que Aureliano – exclamó Úrsula –. Es como si el mundo estuviera dando vueltas."
"Fue allí donde los ilusionistas del derecho demostraron que las reclamaciones carecían de toda validez, simplemente porque la compañía bananera no tenía, ni había tenido nunca ni tendría jamás trabajadores a su servicio, sino que los reclutaba ocasionalmente y con carácter temporal."
"Úrsula los oyó pasar desde su lecho de tinieblas y levantó la mano con los dedos en cruz."
"– Qué quería – murmuró –, el tiempo pasa.
– Así es – dijo Úrsula –, pero no tanto.
(...) y una vez más se estremeció con la comprobación de que el tiempo no pasa, como ella lo acababa de admitir, sino que daba vueltas en redondo."
"(...) escarbó tan profundamente en los sentimientos de ella, que buscando el interés encontró el amor, porque tratando de que ella lo quisiera terminó por quererla. (...) y fue así como en la plenitud del otoño volvió a creer en la superstición juvenil de que la pobreza era una servidumbre del amor."
"Su punto de vista, contrario a la interpretación general, era que Macondo fue un lugar próspero y bien encaminado hasta que lo desordenó y lo corrompió y lo exprimió la compañia bananera, cuyos ingenieros provocaron el diluvio como un pretexto para eludir compromisos con los trabajadores."
"(...) la verdad de que tambíen el tiempo sufría tropiezos y accidentes, y podían por tanto astillarse y dejar en un cuarto una fracción eternizada."
"(...) la historia de la familia era un engrenaje de repeticiones irreparables, una rueda giratoria que hubiera seguido dando vueltas hasta la eternidad, de no haber sido por el desgaste progresivo e irremediable del eje."
"Era lo último que iba quedando de un pasado cuyo aniquilamiento no se consumaba, porque seguía aniquilándose indefinidamente, consumiéndose dentro de sí mismo, acabándose a cada minuto pero sin acabar de acabarse jamás."
"– Ay, hijo – suspiró –. A mí me bastaría con estar seguro de que tú y yo existimos en este momento."
(Cien años de soledad. Gabriel García Márquez)

sábado, 5 de novembro de 2016

SONETO VIII


A riqueza existente neste mundo
Não se faz dividida por igual;
Um menino com fome, moribundo,
 Cata o lixo depois do Carnaval.

 Precisamos de corte mais profundo;
 Não somente migalha ocasional.
 Não podemos chamar de vagabundo
Esse órfão deitado num jornal.  

Vai fugindo tal qual um peregrino
Das trapaças da vida, sem ensino,
À espera das luzes do Natal.

Muitos sonhos povoam esse menino;
Ninguém sabe na vida o seu destino; 
Hoje um reles estorvo social.
 
Eliton Meneses

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

REFLEXÃO DO MÊS


Teve um tempo em que gente que hoje odeia o PT votava no PT. Teve um tempo até em que gente que hoje odeia o PT candidatava-se pelo PT... Era um tempo em que Lula estava na crista da onda. Um tempo em que o progressismo estava na moda. Nesse tempo, para ser ministro do STF, indicado pelo PT, ser progressista era uma condição indispensável. Nesse tempo, podem ter certeza, não passaria pela cabeça de certos ministros do STF – indicados pelo PT – votar, por exemplo, contra o direito de greve... Antes, era preciso ao menos simular progressismo para se chegar ao Supremo; hoje, no Brasil pós-golpe, pode-se agir com naturalidade, mesmo aqueles que deixaram um rastro de incoerência pelo caminho...

VIDA DE REPÚBLICA X



Os novatos que chegaram da Casa do Estudante pareciam ter saltado do inferno para o paraíso, sem escala no purgatório. Chegaram quando a casa já estava pacificada, sem Cabeça, Pedro Henrique e Bittencourt, e com mantimentos de sobra na geladeira. Mesmo assim, a dupla novata achou a casa o cúmulo da desorganização e ensaiou a imposição de uma nova ordem. Depois de provocarem a retirada de  Dona Marta e a filha, sugeriram a proibição da visita do T.A. e até certas restrições às visitas íntimas. O plano aparentemente era dominar a casa; no entanto, como a maioria estava coesa e incomodada com a ousadia deles, foi realizada uma reunião extraordinária e, após um debate renhido, eles passaram a compreender o significado de uma democracia. 
Finda a reunião, seguimos todos, até os novatos, na caravana do Chicão rumo à Mansão do Forró. Como ainda era cedo, mesmo sem dinheiro, paramos na Central para o esquenta. Sentar não podíamos, era cobrado couvert. O jeito foi ficar em pé, no aguardo de algum convite. Depois de alguns minutos, Caçador atendeu aos apelos de uma sorridente senhora. Ela deveria ter uns sessenta anos, mais de cem quilos e uma chapa que escorregava na boca. Ele sentou-se à mesa e, em seguida, me convidou para fazer companhia à amiga de Matilde, igualmente simpática. Em pouco tempo, todos estavam à mesa, tomando com desembaraço tudo o que era servido.
Matilde transbordava de felicidade. Enquanto dançava com o Caçador, mandou que nos servíssemos à vontade. A partir daí, o garçom não teve mais tempo de atender às outras mesas. Tudo corria bem, já havíamos até desistido de ir ao forró, quando, num deslize, Caçador jogou a noite da turma fora. Matilde tentou beijá-lo e ele, esquivando-se, pronunciou um audível: – Calma, tia!
Ela estancou prontamente, mudou de cor, olhou nos olhos dele e, com o dedo em riste, esbravejou:
– Tia? Você falou tia? Tia é o caralho, seu filho de uma puta! Dê o fora imediatamente daqui, seu veado! Você e todos esses vagabundos!
Ainda havia tempo, só não havia mais ânimo para ir ao forró. Voltamos para casa ainda cedo. Chicão e eu lamentando o ocorrido, os novatos se abrindo do Caçador.
Na segunda, uma nova greve foi deflagrada e a maioria dos residentes viajou para os seus interiores. Ficaram somente os novatos. Dois meses depois, finda a greve, encontramos um deles saboreando o que restara dos mantimentos. Uma xícara de café amargo acompanhada de chuchu.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

VIDA DE REPÚBLICA IX



Dona Lúcia morava quatro casas depois da Réu. Fazia quentinha para sustentar as filhas e o ex-marido alcoólatra. Na semana tínhamos o RU, nos finais de semana e feriados, ou fazíamos a comida ou recorríamos à Dona Lúcia, que sempre nos acolhia com um sorriso largo. Comíamos com dinheiro ou sem dinheiro. A qualquer hora do dia ou da noite tinha sempre algo para saciar a fome dos residentes. Quando Caçador chegou embriagado de uma farra e desmaiou antes de chegar em casa, foi Dona Lúcia quem foi acudi-lo. Certa feita, o ex-marido tentou agredi-la, mas bastou a chegada de quinze residentes para o sujeito por o rabo entre as pernas e pegar o beco. 
As escavações do metrô já haviam começado e, apesar das rachaduras nas paredes de muitas casas, ninguém arredava pé da Carapinima. O comércio em frente não vendia fiado. O Minha Joia era simpático, mas não confundia amizade com negócio. A vizinha Rosa, enquanto esteve com o Cabeça, esbanjava simpatia, depois do fim do caso, virava o rosto sempre que nos via. Cabeça saía esporadicamente com ela até à festa do septuagésimo aniversário dela, depois se esquivou por completo até ela desistir de procurá-lo.  
Silvana, outra vizinha, não escondia o preconceito contra os residentes. Em toda conversa recomendava enfática aos demais moradores que não se misturassem com essa gente. Um bando de vagabundos. Até esses que se fingiam de estudiosos.  
Também próximo morava Seu Mário, cujos filhos adolescentes tinham aula de reforço na Réu duas vezes por semana. Seu Mário receava a má influência nos filhos da ala inconsequente da Réu, mas desejava a boa influência da ala estudiosa. Resolveu correr o risco. Poucos anos depois, um dos filhos se tornou médico, como o professor de reforço, e o outro, procurador federal. 
Com a interdição da rua pela obra do metrô, Minha Joia teve que mudar de endereço para não falir. Ninguém mais soube do seu paradeiro. Rosa foi acometida de Alzheimer e entregue a um abrigo. Soube-se de Silvana pela última vez suplicando um emprego a um ex-residente que se meteu na política. Seu Mário ganhou um apartamento dos filhos e também se mudou. Dona Lúcia, aos quarenta e dois anos, morreu de câncer. No seu velório, havia mais de cinquenta ex-residentes, todos com lágrimas nos olhos.