segunda-feira, 30 de novembro de 2020

domingo, 29 de novembro de 2020

Memória de papel


A maior parte de todo o saber humano, em cada um dos seus gêneros, existe apenas no papel, nos livros, nessa memória de papel da humanidade. Apenas uma pequena parte está realmente viva, a cada momento dado, em algumas cabeças. Trata-se de uma conseqüência sobretudo da brevidade e da incerteza da vida, mas também da indolência e da busca de prazer por parte dos homens. Cada geração que passa rapidamente alcança, de todo o saber humano, somente aquilo de que ela precisa. Em seguida desaparece. A maioria dos eruditos é muito superficial. Segue-se, cheia de esperanças, uma nova geração que não sabe nada e tem de aprender tudo desde o início; de novo ela apanha aquilo que consegue ou aquilo de que pode precisar em sua curta viagem, depois desaparece igualmente. Assim, que desgraça seria para o saber humano se não houvesse escrita e imprensa! As bibliotecas são a única memória permanente e segura da espécie humana, cujos membros particulares só possuem uma memória muito limitada e imperfeita. É por isso que a maioria dos eruditos resiste tanto a deixar que seus conhecimentos sejam examinados, tendo o mesmo comportamento dos comerciantes em relação a seus registros de vendas. (A arte de escrever. Schopenhauer)

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

domingo, 22 de novembro de 2020

Drummond x Nietzsche

                        

                                                   A Ingaia Ciência

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 15 de novembro de 2020

Natureza humana


"L’une en effet complétait l’autre. L’instinct de Cosette cherchait un père comme l’instinct de Jean Valjean cherchait un enfant. Se rencontrer, ce fut se trouver. Au moment mystérieux où leurs deux mains se touchèrent, elles se soudèrent. Quand ces deux âmes s’aperçurent, elles se reconnurent comme étant le besoin l’une de l’autre et s’embrassèrent étroitement." (Les Misérables. Victor Hugo)

Empatia

domingo, 8 de novembro de 2020

A dúvida de Tomé




"Passados oito dias, achavam-se os discípulos outra vez portas adentro, e Tomé com eles. Eis senão quando entra Jesus, de portas fechadas, coloca-se no meio deles e lhes diz: 
– A paz seja convosco! 
Dessa vez não foi tão grande o terror dos discípulos; já estavam habituados a esse novo modo de vida do Mestre. Apenas um se conservou arredio, cheio de desconfiança. Era Tomé. 
Aproximou-se dele o ressuscitado e, sem mais preâmbulos, aludindo às palavras exigentes do cético, disse: 
– Introduze teu dedo aqui e vê os meus pulsos; vem com tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas descrente, mas crente. 
O discípulo incrédulo, vencido pela realidade, caiu de joelhos balbuciando: 
– Meu Senhor e meu Deus! 
Advertiu-lhe Jesus em tom suave e severo ao mesmo tempo: 
– Tens fé porque viste. Bem-aventurados os que não viram, e contudo têm fé." 

(Jesus Nazareno. Huberto Rohden. Ed. Martins Claret. São Paulo/SP. 2.ª edição. pgs. 398/399)