domingo, 23 de dezembro de 2012

ELOGIO DA LOUCURA



"Ontem, ao meio dia, comi um prato de lagartas 
Passei a tarde defecando borboletas."
Mário Gomes

A loucura inteligente é muito mais criativa e atraente do que o saber enganoso. Prefiro os devaneios dos loucos às contradições da realidade humana. É preciso não reputar insanos aqueles que vemos dançando, quando não podemos escutar a música (Nietzsche). 
Mário Gomes é um poeta que desfruta sua loucura vagando bêbado e maltrapilho pelas ruas centrais de Fortaleza. 
Numa noite nos arredores do Dragão do Mar, presenciei espantado o poeta sendo arrancado rispidamente de sua mesa num restaurante. A sua irreverente elegância não era bem vista pelos garçons. Ofegante e agitado, o poeta cedeu aos meus apelos e sentou do meu lado, mirando de soslaio um garçom contrariado.
Travamos um breve diálogo confuso. Ele me ofereceu um cigarro, eu recusei; eu lhe ofereci um chope, ele recusou. Ao final, perguntei se eu podia ficar com algum pedaço do seu embrulho sujo de poesias, fotos e reportagens. 
Ele me disse que não. Precisava dos papéis para limpar o "boga". Ergueu-se, então, da cadeira, deu uma baforada no ar e se foi.
O poeta lembrou-me tio Valdemir, que entregava jornais em Coreaú e emprestava a mesma destinação às edições passadas do periódico. Tio Valdemir ficara fraco do juízo quando a mulher sumiu no mundo com seus 12 filhos.      
Foi com tio Valdemir que aprendi alguns rudimentos das ciências ocultas. Foi ele quem me despertou, numa madrugada de março de 1986, para testemunharmos a passagem acanhada do cometa Halley, enquanto os lúcidos da família dormiam um sono profundo. Era tio Valdemir quem, sensível à penúria de sua irmã Leda, volta e meia devassava o depósito do vô Raimundo da Barra, correndo pelos fundos com uma vasilha cheia de feijão para assegurar o jantar de 8 sobrinhos.
Na quadra final de sua vida, tio Valdemir padeceu de um tipo de diabetes que lhe rendeu uma fome canina. Certa feita, uns amigos da juventude, oriundos da capital, tentaram aplacar aquela fome insaciável. Querendo saber até onde o voraz apetite chegaria, liberaram na bodega todo o pão e refrigerante disponíveis. Depois de dois pacotes de pão hambúrguer e sete refrigerantes, no entanto, resolveram suspender o desafio, temendo pela saúde do camarada.        
Meu pai, que havia acompanhado o banquete, saudou ao final a proeza e perguntou ao cunhado se no seu estômago ainda haveria espaço para o jantar.
Tio Valdemir, com três leves palmadas na pança rija e saliente, piscou o olho com um risinho irônico e disse:
- Ó, ó! 

Um comentário:

Galba Gomes disse...

Valdemir,"O Rei" no seu imaginário era e assim morreu pois "é preciso não reputar insanos aqueles que vemos dançando, quando não podemos escutar a música" (Nietzsche). Lembro do Valdemir com quem convivi na pequena Palma nos tempos de menino. Tinha um permanente sorriso doce que bem dizi de su sentimento.