domingo, 27 de novembro de 2016

RÁPIDAS

I. 
O Golpe de 2016 é golpe não apenas por destituir, sem razão suficiente, uma presidenta da República legitimamente eleita, mas também por visar à instalação de um Estado liberal – prova disso é a PEC do Corte de Gastos –, com a indisfarçável pretensão de destruir o Estado social implantado pela Constituição de 1988.

II. 
O Congresso Nacional está prestes de anistiar o Caixa 2, uma verdadeira carta branca para a corrupção generalizada, e a indignação das panelas, por onde anda? Será que o problema era mesmo a corrupção?

III.
Interessante que os nossos neofascistas são defensores ardorosos dos direitos humanos, mas somente quando os direitos humanos são violados em Cuba! Quando os direitos humanos são violados no Brasil ou nos EUA não se importam, porque 'bandido bom é bandido morto'...

IV. 
– E a ordem, pai?
– A ordem é dinâmica, filho! Agradeça aos loucos por não mais vivermos na Idade da Pedra!

V.
A grande dupla do Século XX da periferia do mundo!

sábado, 26 de novembro de 2016

FIDEL



"Os homens passam, os povos ficam; os homens passam, as ideias ficam." (Fidel Castro) (1926-2016)

domingo, 20 de novembro de 2016

ONEIDA



Meu nome é Oneida. Nasci na Palma em 1936, a primogênita do casal Maria do Carmo e Valdemar. Quando nasci, meu pai, cheio de alegria, tomou um trago e cantou bem alto:
– O pinto piou, seu Zé?! Piou no ovo?! É pinto novo!   
Tive uma infância feliz entre a Palma, as Pedrinhas e a Volta, cuidando dos irmãos mais novos e tomando banho no rio.
Quando dei por mim, já era uma adolescente e, na Volta, conheci José, rapaz bonito e elegante que me esperou ficar moça para nos casarmos. Fomos morar em Parnaíba. Tivemos Rita e Mauro, vivíamos felizes, até que José perdeu a vida num acidente de trânsito. Voltei para a Palma num caminhão de mudança com os meninos ainda pequenos. Comprei uma casa perto do meu irmão Oneon e procurei reunir forças para tocar a vida sozinha.    
Nunca esqueci José, ainda tenho no dedo a aliança dele junto da minha. Olho para a nossa foto na parede e acho que o tempo não passou; sonho com o retorno dele, sei que um dia nos reencontraremos.    
Quando a Rita e o Mauro já estavam criados, comecei a criar uma outra filha, Mariana Joyce. Pouco depois, a Rita casou, foi morar em Belém, o Mauro a acompanhou logo em seguida e a Mariana passou a ser minha única companhia. 
A Rita me deu três netos; o Mauro, três netas, mas, apesar dos muitos apelos, eu nunca quis largar a minha Palma. Tenho a minha casa, moro perto da igreja de Nossa Senhora da Piedade, assisto minhas novelas, conheço todo mundo... Papai e mamãe estão enterrados nesta terra; foi aqui que nasci, é aqui onde hei de morrer. 
Aos cinquenta anos começaram meus problemas de saúde. Assistia o Roque Santeiro quando tive a primeira crise. Hoje tenho oitenta anos. Nesses trinta anos passei por muita coisa. Estive entre a vida e a morte, fiz muitas cirurgias, não passo sem os remédios para isso e aquilo, mas estou aqui, resistindo, com fé em Deus e em Nossa Senhora. A Joyce já casou e teve dois filhos. Quando eles me visitam, fico em festa; quando vão embora, bate uma saudade!
No final do ano passado o Onezi veio me visitar. Ele mora em São Paulo e fazia muito tempo que não aparecia. Foi uma festa; Rita, Mauro, Joyce, os primos quase todos. Fazia tempo que eu não era tão feliz. 
Não ando bem de saúde. Nos últimos anos tenho piorado. Completei oitenta anos e sinto que, com a idade, fica cada vez mais difícil suportar as dores no corpo. Os remédios não fazem mais efeito. A cada despedida dos filhos e dos netos imagino que foi a última. 
O Oneon aparece à tarde para conversar comigo. Meu irmão tem muita história. Gosto de ouvir as histórias da família, de lembrar da mamãe, do papai, da Popô... A Onete morreu faz mais de dez anos. A Oneci está bem, mora perto e está sempre aqui por casa. Quero viver mais, quero viver até os cem anos.
Ano passado o Mauro me levou até a Parnaíba. Revemos a casa onde moramos, visitamos o túmulo do José, tomamos um banho na mesma praia, tive muitas recordações nessa viagem.  
Hoje já não posso mais me levantar. As pernas não respondem mais. Tenho dores por todo o corpo. Em setembro apareceram os meninos do Oneon. As meninas da Oneci e da Onete sempre me visitam. Depois da festa de setembro tive uma crise. Rita, Mauro e Joyce vieram às pressas. Achei que dessa não passaria. Com os três filhos por perto e os dedos cravados no rosário, tive uma melhora. Mauro pôde voltar para Beĺém. Com a ida dele, bateu-me uma saudade e as dores retornaram. Logo que peguei no sono, sonhei com o José vindo me buscar.

sábado, 19 de novembro de 2016

GOLPE LIBERAL


"Não resta dúvida que em determinados círculos das elites vinculadas a lideranças reacionárias está sendo programada a destruição do Estado social brasileiro. (...)
A Constituição de 1988 é basicamente em muitas de suas dimensões essenciais uma Constituição do Estado social. (...) Uma coisa é a Constituição do Estado liberal, outra a Constituição do Estado social." (Paulo Bonavides. Curso de Direito Constitucional. 5.ª edição. Malheiros. 1994. p. 336)

O Golpe de 2016 é golpe não apenas por destituir, sem razão suficiente, uma presidenta da República legitimamente eleita, mas também por visar à instalação de um Estado liberal – prova disso é a PEC do Corte de Gastos –, com a indisfarçável pretensão de destruir o Estado social implantado pela Constituição de 1988.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

SONETO IX


Meu amigo, não sei por onde andas;
Ando atrás já faz tempo de saber.
Há na vida da gente tais demandas,
Que nos trazem o amargo padecer.

As medidas decerto não são brandas,
Mas não tens coisa alguma a esconder. 
Aparece aqui por estas bandas,
 Que te digo de pronto o que fazer.   

Os problemas se encaram pela frente;
É preciso manter-se adimplente,
No afeto e também no de comer. 
   
 Talvez foste um pouco indiferente,
Quando a vida te espera diligente
 Para veres sem medo o amanhecer.

Eliton Meneses

domingo, 13 de novembro de 2016

CEM ANOS DE SOLIDÃO


Uns anos atrás, peguei-me lendo Cem anos de solidão, numa tradução que acompanhava um certo jornal, e, sinceramente, não entendi nada. Estava lendo outras coisas e, naquela leitura rastejante, cheguei a duas conclusões: ou Cem anos de solidão não era tudo aquilo que falavam ou o problema estava em mim, talvez a falta de maturidade literária, talvez a falta de tempo, de sensibilidade ou de compromisso com aquela leitura específica. Por volta da página 50, sem achar nenhuma graça em meninos com rabos de porco, parei a leitura.
Há poucos dias, vi, na livraria, uma edição comemorativa de Cien años de soledad, semelhante à edição comemorativa dos 400 anos de Dom Quixote, da Real Academia Española, e resolvi comprar.
Quando comecei a ler, não parei mais. Parei de ler Guerra e Paz, parei de ler o Código de Processo Penal comentado, parei de fazer um recurso, parei tudo, até terminar a estória mais fantástica já escrita na América Latina, talvez a estória mais fantástica sobre a América Latina, aquela que toca o homem universal a partir do cotidiano do homem latino-americano, encenada num povoado chamado Macondo, que poderia muito bem chamar-se Coreaú ou qualquer outro rincão longínquo da América Latina.
O problema decerto estava em mim. Cien años de soledad desbrava um território antes inexplorado, abre uma dimensão do nosso inconsciente latino esquecido em meio a superficialidades tão óbvias.
A impressão que tive é de, visitando Macondo, ter revisitado a minha Coreaú, de ter penetrado na minha própria história por um atalho que me trouxe de volta cores, cheiros e gostos de outros tempos, de um tempo que realmente dá voltas em torno de si.
Lendo Cem anos de solidão, não há como não se afeiçoar por essa Pátria Grande que se chama América Latina, por essa comarca do mundo tão explorada, mas ao mesmo tempo tão fértil na relevação de um homem novo, um homem mestiço e plural, misto de Aurelianos, José Arcadios e Úrsulas, louco e gênio a um só tempo, que de um quarto escuro de um povoado esquecido consegue sentir e entender a solidão do mundo.
Vendo, por curiosidade, a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos da Revista Bula, notei que Dom Quixote figurava na 1.ª posição e Cem anos de solidão na 5.ª. Não li muita coisa na vida, mas do que li, acho que Cem anos de solidão poderia subir facilmente para a 2.ª posição, e, quem sabe, a depender da perspectiva, desbancar o próprio Quixote.
Quem não leu Cem anos de solidão, ainda não teve o enorme prazer de mergulhar numa das maravilhas da literatura, numa maravilha que está plantada no nosso quintal, que está plantada dentro de nós mesmos e que retrata de maneira fiel o inconsciente coletivo de toda a América Latina.

CIEN AÑOS DE SOLEDAD


"Muchos años después, frente ao pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo."
"El padre Nicanor, que jamás había visto de ese modo el juego de damas, no pudo volverlo a jugar. Cada vez más asombrado de la lucidez de José Arcadio Buendía, le preguntó cómo era posible que lo tuvieran amarrado en un árbol.
– Hoc est simplicisimum – contestó él –: porque estoy loco."
"Estaremos perdiendo el tiempo mientras los cabrones del partido estén mendigando un asiento en el congreso."
"La embriaguez del poder empezó a descomponerse en ráfagas de desazón."
"Extraviado en la soledad de su inmenso poder, empezó a perder el rumbo."
"En verdad, lo que interesaba a él no era el negocio sino el trabajo."
"– ¿Cómo está, coronel? – le dijo al pasar.
– Aquí – contestó él – . Esperando que pase mi entierro."
"'No estamos volviendo gente fina', protestaba. 'A este paso, terminaremos peleando otra vez contra el régimen conservador, pero ahora para poner un rey en su lugar'."
"Encerrado en el taller, el coronel Aureliano Buendía pensaba en estos cambios, y por primera vez en sus callados años de soledad lo atormentó la definida certidumbre de que había sido un error no proseguir la guerra hasta sus últimas consecuencias."
"– Lo mismo que Aureliano – exclamó Úrsula –. Es como si el mundo estuviera dando vueltas."
"Fue allí donde los ilusionistas del derecho demostraron que las reclamaciones carecían de toda validez, simplemente porque la compañía bananera no tenía, ni había tenido nunca ni tendría jamás trabajadores a su servicio, sino que los reclutaba ocasionalmente y con carácter temporal."
"Úrsula los oyó pasar desde su lecho de tinieblas y levantó la mano con los dedos en cruz."
"– Qué quería – murmuró –, el tiempo pasa.
– Así es – dijo Úrsula –, pero no tanto.
(...) y una vez más se estremeció con la comprobación de que el tiempo no pasa, como ella lo acababa de admitir, sino que daba vueltas en redondo."
"(...) escarbó tan profundamente en los sentimientos de ella, que buscando el interés encontró el amor, porque tratando de que ella lo quisiera terminó por quererla. (...) y fue así como en la plenitud del otoño volvió a creer en la superstición juvenil de que la pobreza era una servidumbre del amor."
"Su punto de vista, contrario a la interpretación general, era que Macondo fue un lugar próspero y bien encaminado hasta que lo desordenó y lo corrompió y lo exprimió la compañia bananera, cuyos ingenieros provocaron el diluvio como un pretexto para eludir compromisos con los trabajadores."
"(...) la verdad de que tambíen el tiempo sufría tropiezos y accidentes, y podían por tanto astillarse y dejar en un cuarto una fracción eternizada."
"(...) la historia de la familia era un engrenaje de repeticiones irreparables, una rueda giratoria que hubiera seguido dando vueltas hasta la eternidad, de no haber sido por el desgaste progresivo e irremediable del eje."
"Era lo último que iba quedando de un pasado cuyo aniquilamiento no se consumaba, porque seguía aniquilándose indefinidamente, consumiéndose dentro de sí mismo, acabándose a cada minuto pero sin acabar de acabarse jamás."
"– Ay, hijo – suspiró –. A mí me bastaría con estar seguro de que tú y yo existimos en este momento."
(Cien años de soledad. Gabriel García Márquez)

sábado, 5 de novembro de 2016

SONETO VIII


A riqueza existente neste mundo
Não se faz dividida por igual;
Um menino com fome, moribundo,
 Cata o lixo depois do Carnaval.

 Precisamos de corte mais profundo;
 Não somente migalha ocasional.
 Não podemos chamar de vagabundo
Esse órfão deitado num jornal.  

Vai fugindo tal qual um peregrino
Das trapaças da vida, sem ensino,
À espera das luzes do Natal.

Muitos sonhos povoam esse menino;
Ninguém sabe na vida o seu destino; 
Hoje um reles estorvo social.
 
Eliton Meneses

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

REFLEXÃO DO MÊS


Teve um tempo em que gente que hoje odeia o PT votava no PT. Teve um tempo até em que gente que hoje odeia o PT candidatava-se pelo PT... Era um tempo em que Lula estava na crista da onda. Um tempo em que o progressismo estava na moda. Nesse tempo, para ser ministro do STF, indicado pelo PT, ser progressista era uma condição indispensável. Nesse tempo, podem ter certeza, não passaria pela cabeça de certos ministros do STF – indicados pelo PT – votar, por exemplo, contra o direito de greve... Antes, era preciso ao menos simular progressismo para se chegar ao Supremo; hoje, no Brasil pós-golpe, pode-se agir com naturalidade, mesmo aqueles que deixaram um rastro de incoerência pelo caminho...

VIDA DE REPÚBLICA X



Os novatos que chegaram da Casa do Estudante pareciam ter saltado do inferno para o paraíso, sem escala no purgatório. Chegaram quando a casa já estava pacificada, sem Cabeça, Pedro Henrique e Bittencourt, e com mantimentos de sobra na geladeira. Mesmo assim, a dupla novata achou a casa o cúmulo da desorganização e ensaiou a imposição de uma nova ordem. Depois de provocarem a retirada de  Dona Marta e a filha, sugeriram a proibição da visita do T.A. e até certas restrições às visitas íntimas. O plano aparentemente era dominar a casa; no entanto, como a maioria estava coesa e incomodada com a ousadia deles, foi realizada uma reunião extraordinária e, após um debate renhido, eles passaram a compreender o significado de uma democracia. 
Finda a reunião, seguimos todos, até os novatos, na caravana do Chicão rumo à Mansão do Forró. Como ainda era cedo, mesmo sem dinheiro, paramos na Central para o esquenta. Sentar não podíamos, era cobrado couvert. O jeito foi ficar em pé, no aguardo de algum convite. Depois de alguns minutos, Caçador atendeu aos apelos de uma sorridente senhora. Ela deveria ter uns sessenta anos, mais de cem quilos e uma chapa que escorregava na boca. Ele sentou-se à mesa e, em seguida, me convidou para fazer companhia à amiga de Matilde, igualmente simpática. Em pouco tempo, todos estavam à mesa, tomando com desembaraço tudo o que era servido.
Matilde transbordava de felicidade. Enquanto dançava com o Caçador, mandou que nos servíssemos à vontade. A partir daí, o garçom não teve mais tempo de atender às outras mesas. Tudo corria bem, já havíamos até desistido de ir ao forró, quando, num deslize, Caçador jogou a noite da turma fora. Matilde tentou beijá-lo e ele, esquivando-se, pronunciou um audível: – Calma, tia!
Ela estancou prontamente, mudou de cor, olhou nos olhos dele e, com o dedo em riste, esbravejou:
– Tia? Você falou tia? Tia é o caralho, seu filho de uma puta! Dê o fora imediatamente daqui, seu veado! Você e todos esses vagabundos!
Ainda havia tempo, só não havia mais ânimo para ir ao forró. Voltamos para casa ainda cedo. Chicão e eu lamentando o ocorrido, os novatos se abrindo do Caçador.
Na segunda, uma nova greve foi deflagrada e a maioria dos residentes viajou para os seus interiores. Ficaram somente os novatos. Dois meses depois, finda a greve, encontramos um deles saboreando o que restara dos mantimentos. Uma xícara de café amargo acompanhada de chuchu.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

VIDA DE REPÚBLICA IX



Dona Lúcia morava quatro casas depois da Réu. Fazia quentinha para sustentar as filhas e o ex-marido alcoólatra. Na semana tínhamos o RU, nos finais de semana e feriados, ou fazíamos a comida ou recorríamos à Dona Lúcia, que sempre nos acolhia com um sorriso largo. Comíamos com dinheiro ou sem dinheiro. A qualquer hora do dia ou da noite tinha sempre algo para saciar a fome dos residentes. Quando Caçador chegou embriagado de uma farra e desmaiou antes de chegar em casa, foi Dona Lúcia quem foi acudi-lo. Certa feita, o ex-marido tentou agredi-la, mas bastou a chegada de quinze residentes para o sujeito por o rabo entre as pernas e pegar o beco. 
As escavações do metrô já haviam começado e, apesar das rachaduras nas paredes de muitas casas, ninguém arredava pé da Carapinima. O comércio em frente não vendia fiado. O Minha Joia era simpático, mas não confundia amizade com negócio. A vizinha Rosa, enquanto esteve com o Cabeça, esbanjava simpatia, depois do fim do caso, virava o rosto sempre que nos via. Cabeça saía esporadicamente com ela até à festa do septuagésimo aniversário dela, depois se esquivou por completo até ela desistir de procurá-lo.  
Silvana, outra vizinha, não escondia o preconceito contra os residentes. Em toda conversa recomendava enfática aos demais moradores que não se misturassem com essa gente. Um bando de vagabundos. Até esses que se fingiam de estudiosos.  
Também próximo morava Seu Mário, cujos filhos adolescentes tinham aula de reforço na Réu duas vezes por semana. Seu Mário receava a má influência nos filhos da ala inconsequente da Réu, mas desejava a boa influência da ala estudiosa. Resolveu correr o risco. Poucos anos depois, um dos filhos se tornou médico, como o professor de reforço, e o outro, procurador federal. 
Com a interdição da rua pela obra do metrô, Minha Joia teve que mudar de endereço para não falir. Ninguém mais soube do seu paradeiro. Rosa foi acometida de Alzheimer e entregue a um abrigo. Soube-se de Silvana pela última vez suplicando um emprego a um ex-residente que se meteu na política. Seu Mário ganhou um apartamento dos filhos e também se mudou. Dona Lúcia, aos quarenta e dois anos, morreu de câncer. No seu velório, havia mais de cinquenta ex-residentes, todos com lágrimas nos olhos.

sábado, 22 de outubro de 2016

VIDA


O Carlos se foi 
O José se foi
Maria se foi...
Todos inda ontem
Com prata no bolso
Na flor da idade
Plantados no chão.

Ficou Dona Chica
Na praça, doente
Sorrindo sem dente
Velhinha, coitada
Me dando bom dia
De pires vazio  
Pedindo um tostão.

domingo, 16 de outubro de 2016

SONETO VII



Não sabemos o passo dessa dança,
Importada de terras bem distantes;
Nossos pares se lançam confiantes,
 Mas não acham a justa semelhança.

Não importa criar a nossa herança;
 Nossos passos são pouco relevantes;
Os insultos lançados nos rompantes
  Serão marcas perdidas na lembrança.

Somos feitos de bailes redundantes;
Um deserto de almas hesitantes,
Volta e meia tratadas qual criança.

Nesta terra de sonhos abundantes,
 Apesar dessas chagas lancinantes,
 Não podemos perder a esperança.

Eliton Meneses

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

NOBEL DE LITERATURA


Para Harold Bloom, um dos maiores críticos literários da atualidade, o mexicano Octavio Paz e o português José Saramago são os dois únicos ganhadores recentes do Prêmio Nobel de Literatura que emprestaram dignidade ao prêmio.  
Neste ano de 2016, o laureado foi Bob Dylan, cantor e compositor célebre por clássicos como Like a Rolling Stone, Just Like a Woman e Blowin' in the Wind. Não tenho dúvida de que todas as homenagens prestadas a Mr. Bob Dylan no campo musical são mais que merecidas; não tenho dúvida de que, se houvesse um Prêmio Nobel de Música, ele estaria numa fila preferencial; não tenho dúvida até de que Mr. Bob Dylan poderia ser laureado sem contestação com um Prêmio Nobel da Paz, pelo teor pacifista de toda sua admirável obra musical... Mas Prêmio Nobel de Literatura? 
É preciso lembrar que esse prêmio foi negado a gênios como Jorge Luis Borges, Ernesto Sabato, Mario Benedetti, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Só para ficar em escritores regionais que há pouco estavam entre nós. Os dois primeiros, argentinos; o segundo, uruguaio e os dois últimos, brasileiros.  
Não há dúvida de que a poesia de Bob Dylan contém literatura, mas uma literatura, digamos, convencional, muito distante, do ponto de vista literário, de algo fora de série como os contos de Borges ou a poesia de Drummond. 
Borges, Sabato, Benedetti, Drummond e João Cabral de Melo Neto não ganharam o Nobel de Literatura mesmo tendo escrito, cada um deles, o que há de melhor na literatura do seu tempo. A premiação de Bob Dylan confirma a tese de Harold Bloom. Octavio Paz e Saramago são apenas duas exceções, num prêmio cuja regra tem sido esquecer os melhores.
Não sei se compor na periferia do mundo traz alguma desvantagem na premiação, mas a impressão que se tem é que, ainda que fossem vivos, Cazuza e Renato Russo dificilmente seriam lembrados pela Academia Sueca... Belchior ainda não foi lembrado, talvez só porque meteu o pé na estrada... Like a Rolling Stone. Mas enquanto há vida, há esperança...