segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

VICENZA


Vicenza não sabia mais a quem recorrer. Perdera a conta das mercearias que lhe cortaram o fornecimento. Depois de três meses de atraso, não havia comerciante que a suportasse. Não adiantavam novas promessas, nem a récua de meninos como apelo dramático. Estava fechada a conta e ponto final.   
O vendedor de peixe caiu na besteira de vender-lhe um cambo de cará fiado. Não adiantou. Na terceira cobrança, semanas depois da venda, Vicenza partiu para a ignorância: 
– Me respeite, menino sem vergonha! Sou uma mulher direita! Não me aperreie mais, senão chamo a polícia!   
Um galego recém-chegado na Palma surpreendeu-se com a solicitude da compradora. Vicenza resolveu ficar com três panelas, um espelho, duas redes, um quadro e um faqueiro, para serem pagos em três prestações mensais de duzentos mil cruzeiros. De tão eufórico, o galego nem seguiu mais a venda do dia. Com uma promissória assinada no bolso, regressou contente para o pequeno hotel na Praça da Matriz.
No mês seguinte, o vendedor reapareceu para a cobrança. Na primeira tentativa, bateu na porta por uns vinte minutos e, não tendo resposta, resolveu dar um giro para vender mais algum produto. Quase ao meio-dia, voltou à casa de Vicenza e ainda a encontrou fechada. Bateu mais um pouco na porta, espiou pela fresta da janela, esperou mais uns dez minutos e saiu já um tanto preocupado. No final do dia, depois de ficar meia hora de tocaia na esquina próxima, dirigiu-se, já aflito, à morada da cliente. Com a casa ainda fechada, sem resposta aos seus chamados, o galego resolveu socorrer-se de uma pixota que apareceu na janela da casa vizinha.        
– Você sabe me dizer por onde anda a Vera Lúcia, que mora nesta casa? 
– Olha, seu menino, nessa casa aí não mora nenhuma Vera Lúcia, não!  
– Como assim?! Se ainda no mês passado Dona Vera Lúcia me comprou uns produtos à prestação e até assinou uma promissória!
– O nome da pessoa que morava nessa casa era Vicenza, mas ela até já foi embora para Fortaleza, depois de ser despejada pelo dono da casa, com uns sete meses de aluguel atrasado.
O pobre galego ficou pálido e sem chão. Queria não acreditar no que estava escutando. Um calote de seiscentos mil cruzeiros arrebentaria de vez seu negócio. Desolado, ajuntou os poucos pertences que carregava e seguiu lentamente pela rua deserta, pensando em voltar no dia seguinte para sua terra natal.  
Dois dias depois, Vicenza reapareceu em casa, lépida e fagueira. Antes de entrar, foi falar com a vizinha Serafina sobre a cobrança do galego. Segura de que ele partira no ônibus daquela mesma tarde, agradeceu a cúmplice pela força e seguiu com os cinco filhos para preparar o jantar. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

DIREITA x ESQUERDA


A discussão ideológica entre a direita e a esquerda arrefeceu bastante, inclusive pela perda do seu antigo encanto. O paradoxo entre o discurso e a prática é tão crônico e recorrente que a ninguém mais surpreende, por exemplo, que o socialista francês François Hollande em quase nada se diferencie de ultraconservadores como o italiano Silvio Berlusconi. 
No Brasil, o descrédito do debate campeia com semelhante melancolia. A direita prefere, por estratégia, defender que o debate acabou, porque se assumir de direita ainda parece um tabu entre nós, embora ruído aos poucos com a ascensão de uma eufórica nova classe média, encantada com a primeira experiência consumista. Por outro lado, a esquerda está dividida e um tanto desnorteada. O Partido dos Trabalhadores está no poder há mais de uma década – e tende a se perpetuar por pelo menos mais uma –, tendo como base aliada uma coalizão de partidos das mais diversas e escusas tendências ideológicas, ao passo que partidos que se proclamam de esquerda autêntica fazem-lhe oposição, juntamente com PSDB e DEM.  
Em meio a todo esse cipoal, o sopro de esperança que ainda remanesce é a tímida mas notória inversão de prioridades que o governo petista tem promovido. O olhar diferenciado para a questão indígena e a racial de um modo geral, a distribuição de renda para as camadas mais pobres, o esforço pela universalização do ensino superior, a corajosa contração de médicos estrangeiros para o atendimento emergencial nos rincões mais afastados do país, a maior aproximação com os países subdesenvolvidos do mundo, especialmente os da América Latina, com uma postura mais altiva diante das potências econômicas, dentre tantas outras medidas, são sinais de que a perspectiva do Governo Federal já não é exatamente aquela mesma instalada há mais de cinco séculos.   
Convém ressaltar que, se não fosse a competência do PT no controle da economia, estável e segura, mesmo diante de um cenário de turbulência e incerteza global, possivelmente muitas conquistas sociais não teriam saído do papel e talvez o próprio partido teria perdido o protagonismo. 
Não é tempo, portanto, de purismo, porque as ideias (muitas vezes) não correspondem aos fatos. Mas engana-se quem pensa que a exaustão do debate sinaliza o fim da luta por um mundo mais justo, porque, como dizia o poeta Cazuza, "se você achar que eu estou derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados..."

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

TOMANDO CONHAQUE

(...)
– Acredito no que me dizes. Há tanta sinceridade nos teus olhos e nas tuas palavras! Não é o caso de Ivã. Ele é orgulhoso... Mas, apesar de tudo, eu gostaria de acabar com o teu mosteirozinho. Seria preciso expulsar da Rússia toda mística e devolver a razão a todos os imbecis. E quanta prata, quanto ouro não levaria à Casa da Moeda!
– Mas para que suprimir a mística? – perguntou Ivã.
– Para que a verdade resplandeça mais cedo.
– Mas, se ela resplandecer, em primeiro lugar, vão despojá-lo de tudo e depois... suprimi-lo-ão.
– Bah! É possível que tenhas razão. Eu sou uma jumenta – exclamou Fiódor Pávlovitch, batendo na testa com a mão. – Se é assim, vamos deixar o teu mosteirozinho no mesmo lugar, Alióschca. E nós, homens de espírito, vamos tomar o nosso conhaquezinho em paz. Sabes, Ivã? O próprio Deus devia ter arranjado isto de propósito... Ivã, dize uma cousa: Deus existe ou não? Espera; fala com sinceridade, seriamente! Por que estás a rir novamente?
– Rio porque me lembrei como, há pouco, o senhor fez aquela observação espirituosa sobre a crença de Smierdiákov na existência de dois anacoretas que podem remover montanhas.
– Mas o que eu disse ainda agora se parece com isto?
– Muito.
– Isto quer dizer que também sou homem russo e mesmo em ti, meu filósofo, pode ser surpreendido um destes traços característicos. Queres? Vou apanhar-te em flagrante. Posso apostar o que quiseres, mas amanhã chegará também a tua vez. Responde, porém, à minha pergunta: Deus existe ou não? Fala com sinceridade.
– Deus não existe.
– Alióschca, Deus existe?
– Sim.
– A imortalidade, porém, existe, Ivã? Pelo menos uma pequena, bem pequena imortalidade?
– Também não há imortalidade.
– Nenhuma?
– Nenhuma.
– Quer dizer que não há nada absolutamente? Nem uma partícula?
– Zero. Absolutamente zero.   
– Alióschca, existe a imortalidade?
– Existe.
– Deus é imortalidade?
– Sim. É em Deus que se funda a imortalidade.
– Hum... Provavelmente, Ivã é que está com a razão. Meu Deus! Quanta fé e energia o homem sacrificou por esta quimera! E isto há tantos milhares de anos! Quem se diverte, então, pondo em ridículo a humanidade? Ivã! Pela última vez e categoricamente, responde: existe Deus? É a última vez que o pergunto!
– E pela última vez, respondo: "Não".
– Quem, então, zomba do homem, Ivã?
– O diabo talvez – disse Ivã Fiódorovitch com um sorriso.
– E o diabo existe?
– Talvez não.
– É pena. O que não faria eu com aquele que inventou Deus! Enforcá-lo seria pouco.
– A civilização não existiria se não tivessem inventado Deus.
– Não?
– O conhaquezinho também não existiria. Estou vendo que preciso tirar-lhe o conhaque.
– Espera, espera, meu filho. Vou tomar mais um conhaquezinho apenas. Eu ofendi Aliócha. Tu não estás zangado, Alieksiéi? Meu querido Alieksiéitchic!
– Não me zango. Eu conheço os seus pensamentos. O seu coração é melhor que a sua cabeça.
– Sou eu que tenho o coração melhor que a cabeça! E quem diz isto, Senhor! Ivã, gostas de Alióschca?
– Sim, gosto.
– Deves gostar (Fiódor Pávlovitch estava ficando cada vez mais ébrio). – Ouve, Aliócha, eu hoje fui grosseiro com teu ancião, porque estava muito exaltado. Aquele ancião tem espírito – não achas, Ivã?
– É possível.
– Tem, sim. Il y a du Piron là dedans. É um jesuíta, um jesuíta russo. Sendo uma nobre criatura, ele sente ferver dentro de si uma indignação continuamente reprimida com todas estas falsidades.
– Mas ele crê em Deus.
– Nem um pouco. Tu não sabias? Ele próprio conta isto a todos ou, melhor, a todas as pessoas inteligentes que o visitam. Ao governador Schultz, ele disse simplesmente: "credo, mas não sei em quê".
– Deveras?
– Exatamente assim. Contudo, eu o respeito. Há nele algo de Mefistófeles ou, melhor, de "Herói contemporâneo"...

Fiódor Dostoiévski
(Os Irmãos Karamazov)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

CASTORINA PINTO



Certa feita, cheguei a pensar que, em matéria de apelidos, Coreaú fosse insuperável. Desde tempos remotos, passando pela alteração do nome da Palma, nos idos de 1943 – época em que o folclórico Alberto Carmo, veemente adversário do nome de Penanduba, que reputava horroroso, acabou recebendo para sempre a alcunha de (...) Penanduba! –, até os tempos modernos, com a média ainda de quase um apelido per capita, desde os suportáveis e levemente jocosos até os de extremado mau gosto, capazes de destroçar a própria dignidade das pessoas, não há negar que Coreaú seja pródigo em se tratando de epíteto. No entanto, a cidade que ostenta a fama internacional de "Terra dos Apelidos" é Aracati, graças sobretudo a Castorina Pinto, a mais célebre "botadeira de apelidos" que a história já registrou.   
Há mais de uma década, Franzé Gomes havia-me contado a história de um causídico que, numa visita a Aracati para uma audiência judicial, receoso da mulher dos apelidos, apesar de toda discrição e esquivança, não conseguira furtar-se da verve perspicaz de Castorina.   
Nas voltas que a vida dá, na reunião passada da Academia Aracatiense de Letras, no Museu Jaguaribano, descobri que naquele mesmo prédio havia funcionado o hotel de Teófilo Pinto, cuja administradora era sua irmã, ninguém menos que Castorina Pinto. Fora, enfim, aquele exato casarão o palco do episódio do advogado. 
Castorina não perdoava ninguém. A um juiz de cabeça grande apelidou de "Cabeça de Comarca"; a um rapaz difícil de casar chamou de "Cédula Falsa"; nem Dom Manuel, filho ilustre de Aracati, escapou, pois tantos eram os adereços com que se apresentava que ficou apelidado de "Bolo Confeitado"...
O advogado se hospedara no hotel de Teófilo Pinto, mas deu sorte de não topar com Castorina nos dois dias em que permaneceu na cidade. A "botadeira de apelidos" convalescia de um resfriado e resolvera não aparecer no hotel por uns dias. Como sabia da fama da mulher e de que ela morava na mesma Rua Grande, adotou o hóspede todo o cuidado possível para não ser avistado (e apelidado) por ela. Tentou se furtar o quanto pôde. Não andava pela rua, não conversava na calçada do hotel, não parava na portaria e se trancava todo o tempo que podia no quarto, com as janelas sempre fechadas. 
Depois que partiu no ônibus de volta para Fortaleza, o advogado ficou aliviado; afinal, talvez tivesse sido o único sujeito a andar pelo Aracati sem ter sido vítima dos apelidos de Castorina... 
Quando no dia seguinte, porém, ela apareceu no hotel, o recepcionista logo a interpelou:
– Finalmente alguém passou por esta terra sem levar um apelido seu, dona Castorina! 
Ao que ela, de pronto, respondeu:
– Quem? O "Rato de Gaveta"? 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

SEGURO-DEFESO DA LAGOSTA 2014



No período de defeso da lagosta, entre 1.º de dezembro e 31 de maio, visando conciliar os interesses sociais, ambientais e econômicos, a lei assegura aos pescadores artesanais do crustáceo o seguro-desemprego, benefício pago pelo Governo Federal com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), por intermédio de uma parceria entre diversos órgãos e instituições.
Mercê de um termo de cooperação firmado pela Defensoria Pública do Estado do Ceará e pelo Ministério Público do Trabalho, fiquei, mais um ano, encarregado pelas habilitações no Município de Aracati.
A habilitação dos cerca de 500 (quinhentos) pescadores artesanais de lagosta da terra de Dragão do Mar e Adolfo Caminha é tarefa árdua, mas sobremaneira gratificante, pelo enorme alcance socioambiental do seguro-defeso, que garante, a um só tempo, o sustento de centenas de famílias humildes durante os 06 (seis) meses do defeso e, nesse mesmo período, a reprodução da lagosta, cada vez mais rara nos nossos verdes mares.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

HOMO CACTUS



Sou um cardeiro de asa,
Uma planta desfolhada,
Com raiz atada ao chão.
Tenho caule feito brasa,
De rama encarquilhada
E espinhos de proteção.
O meu leito é cova-rasa;
Sorvo seiva na alvorada;
Lanço flores na estação.
Fiz na pedra firme casa;
Cedo fruto à passarada;
Canto a vida sem refrão.
Na seca que tudo arrasa,
Sou criatura arretada:
Homem-cacto do sertão.

Eliton Meneses

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

RESENHA LITERÁRIA



Veredas Sinuosas é um livro mágico, encantador. À primeira vista, dá uma fome, dessas de devorá-lo por inteiro, mas é uma fome que, tendo sido saciada uma vez, volta a aparecer, porém, de maneira sutil. Assim, ao invés de devorá-lo, a vontade que se tem é de degustá-lo, devagar, pausadamente, numa segunda leitura. Esta pede outra e outra, porque Veredas Sinuosas tem este mistério: primeiro, percebe-se o diálogo entre dois autores nascidos em Coreaú, a 54 Km de Sobral/CE. Um faz prosa e verso com temas voltados para o lado cotidiano, o outro é mais voltado para o ímpeto natural da vida com seus dilemas.
Outro ponto interessante é que, quando um verseja, o outro proseia, enquanto um proseia, o outro verseja e eles seguem viagem por este caminho, mantendo uma harmonia reta, nivelada, pelas sinuosidades da caminhada.
Na segunda leitura, a vontade é de ler cada autor em particular, adentrando no universo de cada um, conhecendo, desta forma, o que cada um pensa de si mesmo, da sociedade, e até mesmo do amor. Impossível resistir e não se fazer companheiro(a) de viagem dos dois. Um livro muito bem elaborado que, pela sua complexidade de ideias, fica superficial demais relatar em poucas palavras as muitas impressões que causa.
Já estou na segunda leitura deste riquíssimo exemplar. A primeira leitura, eu a fiz vorazmente, e já percebi qual era a intenção dos dois caminhantes: o diálogo, a harmonia. Agora, percebo, individualmente, o que minha conversa com cada um me mostra: dois homens, sem sombra de dúvidas, que vieram de caminhos opostos, e que trouxeram para estas veredas, suas experiências de vida.
Ah que todo leitor tivesse o privilégio de fazer o que faço agora: ler não apenas um livro, mas dois autores em suas essências retas por caminhos sinuosos.
"Acaso andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?" (Livro do Profeta Amós, Capítulo 3, versículo 3)

Solange Guimarães
Vice-presidente da Academia Aracatiense de Letras

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

USUÁRIO x TRAFICANTE


A Lei n.º 11.343/2006 (Nova Lei de Drogas) trata de forma bastante diferente o usuário e o traficante de drogas. Ao passo que para o usuário são previstas apenas sanções suaves como advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo, não cabendo mais a prisão (art. 28); para o traficante é prevista a pena de 05 (cinco) a 15 (quinze) anos de reclusão, além do pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa (art. 33). 
Não obstante o fosso legal entre o usuário e o traficante, na prática, a fronteira que separa um do outro é bastante tênue. O art. 28, § 2.º, da Lei de Drogas dispõe que, para se determinar se a droga é para o uso próprio (ou para o tráfico), deve-se atender à natureza e à quantidade de substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. De todo modo, a vaguidade desses parâmetros legais torna a prática forense pródiga em incertezas e incoerências. O critério prevalecente tem sido a quantidade, seguido pela natureza da droga apreendida. Quando se apreende, v.g., uma vasta quantidade de pedras de crack, substância potencialmente devastadora, é inexorável o enquadramento no tráfico (art. 33); no entanto, encontrado o sujeito simplesmente com um ou dois cigarros de maconha, quase sempre será tratado como usuário (art. 28). Na ausência de critérios mais precisos para um discrímen, há uma tendência da Justiça em reservar a hipótese do usuário somente para os casos em que a quantidade da droga é quase insignificante, de modo que, se o sujeito compra e armazena, v.g., 50g de maconha para o seu consumo durante uma quinzena, corre ele sério risco, se for pego, de ser enquadrado como traficante.
É preciso muito cuidado, portanto, para que a voracidade do Estado em face do tráfico não acabe apanhando cegamente os meros dependentes químicos para arremessá-los na prisão, ao arrepio da política antidroga instalada pela própria Lei n.º 11.343/2006. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

SUCO DE UVA


O estômago rústico de Suco não estava afeito a iguarias refinadas. Depois da entrada com patê de fois gras, a namorada solicitou o prato principal, uma lagosta ao Thermidor, regada com novas taças de vinho Chianti.
Suco não se arriscou na pronúncia francesa da entrada, tampouco fazia ideia do que representara o Thermidor no calendário revolucionário francês. De toda sorte, comeu e bebeu tudo o quanto pôde, tentando debalde dissimular a surpresa de um primeiro almoço num restaurante sofisticado. 
Conhecera a pretendente há pouco mais de uma semana. Seduzido pelos dotes financeiros da moça, Suco, no auge dos seus dezenove anos, resolveu conquistá-la, a despeito das quatro décadas a mais na idade dela. 
Ao final do regabofe, pago no cartão de crédito da namorada, Suco pediu acanhado ao garçom que embalasse as sobras para levá-las para Thor, seu cachorrinho que estava em casa, louco por cauda de lagosta... 
Quando Suco chegou às três da tarde na Casa do Estudante, onde morava, encontrou Alex, seu companheiro de quarto, já pálido e esguio, deitado no beliche, arquejando de fome.   
– Fala, macho véi! Já almoçou?!
– Almoçar o quê, macho? Não tem nada! 
– Então arrocha esta quentinha, cachorro mortafome!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

ALTOS E BAIXOS


EM ALTA


Apesar de todos os pesares, o ser humano, cuja natureza é "capaz de reunir todos os contrastes e de contemplar ao mesmo tempo dois abismos, o do alto, o abismo dos sublimes ideais, e o de baixo, o abismo da mais ignóbil degradação." (Dostoiévski)

EM BAIXA

O preconceito contra os "rolezinhos" da juventude da periferia nos shopping centers do Rio e de São Paulo. Interessante que contra o "rolezinho" dos alunos de classe média da USP, há muito tempo realizado em certo shopping paulistano, nunca ninguém reclamou... Não custa lembrar que vivemos num Estado Democrático, cuja Constituição dispõe que: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se (...) a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, (...)" (Art. 5.º, caput, CF/88), sendo ressaltada, aliás, a liberdade de locomoção no território nacional, ou seja, o direito de ir e vir e permanecer (Art. 5.º, inciso XVCF/88). 

EM ALTA

Os defensores dos direitos humanos, que encaram estoicamente o desafio de um tempo sem coração e sobrenadam indiferentes as correntes turvas da incompreensão, com um toque de graça, doçura e esperança. Afinal, "O mal não pode vencer o mal. Só o bem pode fazê-lo." (Tolstoi)

EM BAIXA 

Os presunçosos censores da moral alheia, que reparam no cisco que está no olho do seu irmão e não se dão conta da trave que está no seu próprio olho. "Não julgueis, para não serdes julgados", porque, no irreprochável italiano do prof. Gomes, "con la stessa misura con cui misurerete sarete misurati." (Mateus 7:1-5)

domingo, 19 de janeiro de 2014

A MESMA DE SEMPRE


Estive recentemente na nossa velha e querida Palma (Coreaú/CE), e, então, mais uma vez, notei que praticamente tudo continua como antes na terra de Abrantes, desde os idos do princípio do ano de 1975, quando saí para estudar fora na capital do sol (alencarina), mas com algumas observações nada agradáveis.
Logo cedo da manhã do dia 07 de janeiro, precisando da net para atualização profissional e de notícias nesse nosso mundo globalizado, fui à sede do SINDPROC procurando tal serviço de TI, quando sou surpreendido pelo funcionário que ali estava (desolado e perplexo), em face da visita do amigo do alheio naquela noite ou madrugada, surripiando vários equipamentos eletrônicos, elétricos, digitais, caixa de som etc., impossibilitando a prestação do serviço solicitado pelo consumidor, pois a bagunça estava instalada. A violência não poupa nem o órgão de representação e defesa dos professores. Tive que atravessar a cidade e usar o serviço da "net dos Irineus". Funciona bem e o preço é camarada.
Há alguns anos Coreaú está sem seu matadouro. Isso é fato e já foi denunciado por vários blogues. Isso é muito sério, porque é uma questão de saúde pública. Uma pergunta é inevitável: Que carnes (bovina, suína, caprina etc.) os coreauenses estão comendo? Será clandestina e sem qualquer inspeção sanitária ou vem de outro lugar própria para o consumo humano? O que dizem os órgãos responsáveis (Secretarias Municipal e Estadual de Saúde, MP, Vigilância Sanitária etc.)?
Outra vergonha e até desperdício do dinheiro público é a rodoviária municipal que o Estado nunca acaba e que há anos está com suas obras paralisadas e sem serventia alguma, abandonada, salvo para encontros amorosos etc., segundo foi dito.
Notei o comércio um pouco parado, com pouco movimento. Dizem que é a falta de dinheiro, que teria diminuído muito a sua circulação na cidade, não só pelo aperto do principal banco local (Brasil) após os assaltos, como também da concorrência do município vizinho (Sobral). Isso não é bom. A geração de emprego e renda para os coreauenses, que é bom, parece que ainda não chegou à Palma.
No retorno da net dos Irineus, passei pela Coluna da Hora (localizada na Praça da Matriz da Igreja Nossa Senhora da Piedade – padroeira da cidade), estando pichada e o relógio literalmente fazendo hora (parado há muito tempo, sem manutenção). Se um monumento histórico da principal e mais importante praça da cidade de Coreaú é tratado assim, que dirá o resto?! Será?!
Mas enquanto o comércio reclama, não há crise no setor de transporte (mobilidade urbana) e de comunicação, pois a população circula pela cidade até "altas horas", sobretudo com seus carros, motos e celulares. Ciclistas são poucos.
Mas tive uma grande alegria quando na manhã do dia 08 de janeiro, ao visitar o Ginásio Nossa Senhora da Piedade, vi que após quase 40 (quarenta) anos e algumas reformas, estava ali suspenso, amarelado pelo tempo, mas preservado, o quadro da turma da 8.ª Série (ano de 1974), na parede da sala de entrada do educandário fundado por Dom Benedito.
Espero que nas próximas visitas Coreaú esteja melhor e mais bem cuidado, para a alegria e satisfação dos seus filhos, moradores e visitantes, pois só quem tem a ganhar é a cidade e seu povo.

De Boa Vista/RR para Coreaú/CE, 18 de janeiro de 2014.

Cosmo Carvalho
Engenheiro e advogado

sábado, 18 de janeiro de 2014

VIDA DE REPÚBLICA II


Na segunda semana de febre, cefaleia e fadiga, não suportei ir para a aula. Havia na cidade um surto de dengue que me acometera impiedosamente. Estava na república há menos de um mês e já sentia na pele os desafios da vida coletiva.
Bernaldo concluíra o curso, mas, sem ter para onde ir, com a anuência dos colegas, permaneceu nos fundos da casa, numa cama improvisada, quase ao relento, dando aula particular na residência de alguns poucos alunos e estudando desesperado para a aprovação num concurso público qualquer.
Afinara-me com aquele sujeito experiente, oriundo de um sítio isolado da distante Várzea Alegre, mas a falta de perspectiva estava pondo Bernaldo à beira do desequilíbrio emocional. Quando me viu acamado, pálido e sem ânimo, pela porta entreaberta, deu uma gargalhada confusa e arrematou: 
 Aguenta, fi duma égua! Aqui é cada um por si e Deus contra todos!
À noite, febril e insone, incomodara-me um barulho estranho vindo do quarto do lado. Curioso, dei uma espiada pela fresta da porta trancada que separava os quartos e vi surpreso, a poucos palmos do nariz, Neilson, ofegante, agarrado com outro homem.  
Não ousei interromper as acrobacias eróticas do vizinho. Quando peguei no sono, o dia já começava a clarear.
No meio da manhã, Cabeça chegou, assobiando e estalando os dedos, de mais uma noite de farra e, antes de deitar-se na sua rede armada na sala, ofereceu-me uma cartela de comprimido contra a febre.
Três dias depois consegui, finalmente, restabelecer-me.  

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

TENDÊNCIA IDEOLÓGICA



Numa era em que reacionários e conservadores exultam com o estertor do "socialismo real", fingindo olvidar que, enquanto não superadas as causas que lhe deram origem, o socialismo científico será sempre um desafio vivo e recorrente; numa era em que esquerdistas e progressistas, cônscios dos mecanismos da odiosa exploração capitalista, ainda tateiam no escuro no afã de um projeto prático alternativo ao "socialismo real", de preferência que não propenda para o tentador e paradoxal totalitarismo; numa era, enfim, de transição e de muitas dúvidas e incertezas sobre os próximos passos da humanidade, é preciso nos definirmos ideologicamente, porque, se ninguém é obrigado a ser de esquerda, de centro-esquerda, de centro, de centro-direita ou de direita, todos temos o dever de adotar ideias que sejam coerentes entre si e, sobretudo, de termos uma prática coerente com nossas ideias.
No plano das ideias, não somos obrigados a concordar com a pauta inteira da tendência ideológica que mais se afina conosco, desde que tenhamos justificativas plausíveis para as pontuais discordâncias. O jornal Folha de São Paulo disponibiliza na internet um teste do perfil ideológico que adota como parâmetro dez questões polêmicas, cujas respostas, em conjunto, indicariam a tendência de cada um. As questões dizem respeito a posse de armas, migração, homossexualismo, pobreza, pena de morte, sindicatos, criminalidade, adolescentes, drogas e religião.   
Das dez questões, votei em 09 (nove) que seriam da pauta da esquerda e, mesmo sendo favorável à proibição do uso de drogas (pauta da direita [sic]), fui classificado dentre os que se definem de esquerda no Brasil.  
Considero que a questão de liberar ou proibir o uso de drogas, de modo genérico, transcende o debate ideológico entre esquerda e direita. Liberar o uso do "crack", a droga mais devastadora da atual geração, por exemplo, seria algo absurdo, pela direita e pela esquerda. A propósito da maconha, se não fosse ela porta de entrada para outras drogas mais pesadas, como a prática tem revelado, poder-se-ia até pensar em liberação, mas sendo, quase sempre, o primeiro passo rumo ao abismo infernal, é preferível que permaneça proibida como está, entre nós.      
Uma questão que melhor retrataria o perfil ideológico seria a referente às cotas para negros nas universidades e em concursos públicos, com a qual concordo plenamente, como medida temporária – por algumas gerações – para a correção de uma distorção histórica, com respaldo no princípio constitucional da igualdade material, tratando-se igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades. Em regra, quem nutre tendência de direita tem assombrosos pesadelos com as cotas. 
Outra questão polêmica, não referida no teste, diz respeito ao aborto. A opinião favorável ao direito da mulher de interromper a gravidez é tida, em regra, como uma pauta da esquerda. No entanto, penso que o aborto é outro tema que transcende o debate ideológico entre esquerda e direita. Se considerarmos que a criança é uma pessoa humana não somente a partir do momento em que é retirada do útero, mas desde os primeiros meses de formação intrauterina, teremos que concluir que, na colidência entre o direito à integridade física da mulher e à vida do feto, há de prevalecer a vida do ser humano indefeso e a vedação ao aborto, ressalvados os casos excepcionais, como gravidez resultante de estupro e risco de vida da mãe, em que o aborto já é autorizado por lei. 
Há pessoas que não se dão conta do paradoxo de adotarem, por exemplo, uma dieta vegetariana, por piedade aos porcos e galinhas, e, ao mesmo tempo, por fidelidade a uma pauta ideológica, lutarem pela legalização do aborto de uma criança...    
A opinião sobre o aborto, no final das contas, diz mais com o valor que se atribui à vida humana, a partir da concepção do seu início, no confronto com a inviolabilidade do corpo da mulher, do que propriamente com esta ou aquela tendência ideológica. 

sábado, 11 de janeiro de 2014

CIDADE MARAVILHOSA



Não há no mundo uma cidade que reúna uma simbiose tão perfeita entre a obra humana e a paisagem natural quanto o Rio de Janeiro. Soerguida entre o mar azul pontilhado de ilhas e um emaranhado de montanhas com vegetação nativa surpreendentemente preservada, a "cidade maravilhosa", malgrado as disparidades sociais gritantes, continua repleta de encantos; uma pintura para encher os olhos de qualquer um. Não é à toa que, no dia 1.º de julho de 2012, tornou-se a primeira cidade do mundo a receber da Unesco o título de patrimônio cultural da humanidade. 



Um momento mágico da nossa recente visita à cidade do Rio de Janeiro: a subida do Corcovado, de trem, ao som do autêntico samba carioca.