quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

NUMA TARDE DA DÉCADA DE 70



Duas e meia da tarde. O lugarejo pequeno do Ceará está paralisado. O sol é inclemente. De repente, uma cipoada de vento; lá vem o redemoinho! Folhas secas no ar, a poeira sobe e faz parafuso. Uma beata assusta-se: - Valha-me, São Reimundo! O comboieiro, que cochilava debaixo de uma das poucas árvores, pragueja, bodeja, valente! Seu peixe tinha se misturado ao vendaval. As mulheres, já velhas, repassam contas nas janelas. Os homens estão sentados nas calçadas, com a cabeça escorada na ponta da bengala. Alguns se atiram no fundo de umas fiangas surradas. De algumas casas vem o cheiro forte de café. Alguém grita do longe de uma cozinha fumacenta: - Zé, traz o pão! Oh, home sem esprito! Na ponta da rua surge uma meia dúzia de pessoas. Têm caras tristes. Trazem um caixãozinho branco. Nele há uma criança morta, vestida de azul. Mais uma que se vai, diante da frieza do governo. Todo dia passavam várias. Alguns dos acompanhantes já se repetiam nos cortejos incessantes. A vida se move devagar. Até que se abre a primeira bodega. Um homem que tremelicava debaixo do benjamim vira a primeira bicada. O comboieiro trepa a sacaria nos jegues cansados e já bicheirentos e some no poeiral! E grita e bate e canta, num gemido incompreensível. Homem valente. Viaja só. De companhia só sua macaca de relho e seus jegues. Vai pra Granja, Uruoca, Senador, Chaval, Camocim, Barroquinha,... De vez em quanto pensa na mulher nova que deixou em casa. Mulher nova... de saudade tão velha!
O homem valente pensa: quando chegar... e tempera a garganta, num riso besta...

João Teles de Aguiar

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DICAS DE CONCURSO



Um dos "concurseiros" mais eficientes que conheci costumava dizer que, para lograr êxito em concurso público, o sujeito precisa "emburrecer". Isso mesmo. "Emburrecer" no sentido de ser pragmático, objetivo, sem firula. Pessoas com inteligência rebuscada muitas vezes enfrentam sérios problemas nos concursos públicos, cujos limites estreitos não comportam teses, debates nem elucubrações. O concurso público é voltado para um perfil mediano de inteligência, de modo que, com algum esforço, organização e perseverança, qualquer um que não padeça de severa debilidade cognitiva pode ter acesso à maioria dos cargos públicos efetivos. 
Um dos grandes desafios do "concurseiro", depois de uma razoável base escolar, do acesso a material de estudo e da disponibilidade de tempo e espaço  adequado para umas doses diárias consideráveis de leitura, é focar estritamente no que pode ser cobrado pela banca examinadora. Quase sempre o candidato sozinho tende a perder-se no cipoal de matérias cobradas no edital. As apostilas e os cursinhos preparatórios, geralmente, são excelentes pontos de partida, conquanto se deva abeberar também em outras fontes. É importante conhecer o perfil da instituição examinadora, prestar concursos para áreas com que se tenha maior afinidade, começar por certames com grau de dificuldade menor, ter disciplina e encarar com resignação os infortúnios da preparação e, sobretudo, não desistir nunca; afinal, "concurso não se faz para passar, mas até passar." (William Douglas)
O concurso público é uma ferramenta democrática que decerto ainda precisa ser aperfeiçoada; de toda sorte, não há negar que se constitui num robusto anteparo à nefasta tradição de compadrismo enraizada na cultura política nacional.  
Numa época de incertezas econômicas, em que o cargo público é um dos últimos redutos de estabilidade, cujo ingrediente de acesso é o mérito, mais do que nunca, estudar é preciso. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

CURTAS DESCONEXAS


IMPERIALISMO EUROPEU

Com a vitória do socialista François Hollande, alguns, ingenuamente, esperaram mudanças na política externa da França. Ledo engano! O imperialismo francês segue com desembaraço suas aventuras bélicas, sob as cores da direita ou da esquerda. Entre a coerência ideológica e os interesses da burguesia nacional, voilà...! 

LÓGICA PALMENSE

Conta-se que Manuel da Mundinha, numa época de prosperidade econômica de Roraima, no auge do garimpo do ouro, foi instado por um conterrâneo a tentar a sorte pelas bandas do Extremo Norte, onde o dinheiro estaria correndo solto.   
Manuel, porém, recusou prontamente a proposta:
– Vou não, primo! Se aqui, em Coreaú, com o dinheiro parado, não estou pegando nada; imagine lá, onde o bicho está correndo! 

GOOD GARDEN 

Do Bom Jardim, Zona Oeste de Fortaleza, recebemos um poema para postar no blog, de autoria de Evilândio Araújo, ei-lo: "O amor é um grande laço que nos prende; A um grande amor desesperado. Quando o amor é bom, transbordamos; Nas águas calmas do coração; Mas quando ele é ruim, Nos furamos com espinhos da solidão." 

domingo, 20 de janeiro de 2013

COMO OS NOSSOS PAIS



Em uma aula de pós-graduação, estávamos a divagar sobre a importância da escrita como ferramenta de comunicação entre uma geração e outra, que muitos povos ao longo da história, lamentavelmente, não utilizaram.
A bela e significativa letra da música "Como os Nossos Pais", de Belchior, na voz de Elis Regina, representa uma das relevantes missões da escrita: O despertar das inquietações humanas. Não fora ela (escrita), possivelmente novas gerações não tomariam conhecimento de tão bela e significativa canção.
Belchior vivenciava a ditadura dos anos 60 quando escreveu a letra dessa música; no entanto, sua mensagem ainda preserva uma enorme atualidade. Trata de consciência política, repensar de valores, além de reação, transformação e mudanças. Na canção, há uma frase que revela a importância da atitude: "Viver é melhor do que sonhar"; como também outras de fundamental valia: "(...) Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais", ou seja, não basta ensaiar arroubos críticos na juventude se depois se acaba, quase sempre, refém, na idade adulta, dos interesses pessoais e familiares, com o abandono de quaisquer ideais coletivos e sociais.
A atualidade da canção está no perfil da nossa sociedade: capitalista, autoritária, preconceituosa, com padrões estéticos e de consumo inconsequentes, pelos quais, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, nos deixamos guiar.
Infelizmente, em meio à crise de valores, a família e a escola parecem pouco preocupadas com a formação de jovens críticos e atuantes. As tendências pedagógicas adotadas nas escolas quase sempre são liberais tradicionais e tecnicistas, voltadas predominantemente a formar jovens preocupados tão somente com a realização de anseios individuais, no vir a ter em detrimento do ser, individual e coletivamente.
Enfim, como alertado pelo sociólogo português Boaventura Sousa Santos: "Temos formado conformistas incompetentes e precisamos de rebeldes competentes".

Auricélia Fontenele

CAMISA DA APL




A Academia Palmense de Letras  – APL ou "A casa literária de Coreaú" – é uma agremiação nascida no ano de 2012, que reúne coreauenses de verve contestadora, interessados na preservação da arte e da cultura de sua terra natal. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

HOSPITAL REGIONAL DE SOBRAL



É digna de elogio a construção de um hospital público de grande porte em Sobral, dada a notória precariedade do serviço de saúde da região; no entanto, com a notícia da festiva inauguração oficial do hospital, três ressalvas merecem ser feitas: 1) Inauguração, tecnicamente, é o marco inicial do funcionamento de uma obra. Nada obstante, o Hospital Regional Norte será inaugurado com a perspectiva de iniciar suas atividades somente daqui a três ou quatro meses, ou seja, não haverá propriamente inauguração, mas uma festa em derredor do hospital; 2) A festa será animada pela cantora Ivete Sangalo, cuja música carnavalesca não guarda qualquer pertinência com a sobriedade recomendada por um hospital. Além da vultosa quantia cobrada pelo show, soa, no mínimo, estranho uma multidão saltitante na inauguração de um hospital, palco do salvamento de muitas vidas, mas também do testemunho de muitas tragédias; 3) O hospital será batizado com o nome de José Euclides Ferreira Gomes Júnior, pai do Governador. Ora, a impessoalidade que deve nortear a Administração Pública não se afeiçoa com homenagens familiares ao agrado do governante de plantão. O advogado José Euclides Júnior foi prefeito de Sobral e já nomeia avenida, escola, a sede da  Defensoria Pública do Estado etc. Não seria, portanto, a ocasião de homenagear a memória de algum médico que tenha dedicado sua vida à saúde da região?              

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DO TEMPO DA "DISCOTECA DO LALAU"



Lembrei-me de minha adolescência na década de 80, em Coreaú.
Lá pelos idos de 1985 e 1986, contava eu com tenros 16 e 17 anos, respectivamente. Havia em mim uma timidez só, horrenda, que me atrapalhava os flertes e os namoros. Tempo de inocência ainda. Nunca havia namorado, de forma alguma. À noite, saia para a pracinha da matriz com alguns colegas, no afã de me desvencilhar, desprender-me do "fantasma" da introversão. Durante o mês de julho, nas férias, circulávamos na sobredita praça, num vai e vem, buscando aproximação com alguma moçoila sem, no entanto, lograr êxito, porquanto não sabia abordar aquela que era a preferida.
Nos dias de "discoteca", de propriedade do Leonardo Albuquerque, o "Lalau do seu Quico", sábado à noite, em frente ao Centro Comunitário, era a ocasião ideal para driblar a timidez e dançar coladinho com algumas meninas as inesquecíveis "músicas lentas" (nacionais e internacionais), momento em que as pernas ficavam tremendo, o coração batia acelerado, pois um cheiro no "cangote" era o suficiente para que a gente fosse às nuvens.
O tempo foi passando, consegui alguns namoricos adolescentes e, somente depois dos vinte anos de idade, superei o trauma da inibição, despertando para relacionamentos mais ousados. O resto da história fica para outra oportunidade.

Fernando Machado Albuquerque
Professor/Membro da APL
Coreaú/CE

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA



A Lei n.º 11.343/2006, conhecida como Lei de Drogas, foi severa com o traficante, mas resolveu abolir, sabiamente, a pena de prisão para o mero usuário de drogas. As medidas aplicáveis aos usuários passaram a ser: I) advertência sobre os efeitos das drogas; II) prestação de serviços à comunidade e III) medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo (art. 28). Houve, portanto, uma "despenalização" do consumo, a partir da orientação de que o dependente químico é um doente e não um criminoso.
Com a epidemia de "crack" que assola o país e a impossibilidade de prisão do mero usuário, veio à tona a discussão sobre a internação compulsória para tratamento do dependente químico. Com a proliferação de áreas conhecidas como "cracolândias", nas grandes cidades do país, repletas de dependentes livres da pena de prisão, eis que o Estado de repente resolve despertar o interesse pelo dependente químico, precisamente para interná-lo compulsoriamente, promovendo uma higiene social flagrantemente atentatória das liberdades das pessoas humanas, via de regra, já vitimadas por um crônico desrespeito de direitos sociais básicos, como moradia, emprego, educação e saúde. 
Interessante que, quando o dependente químico podia ser preso pelo uso de droga, sequer se cogitava na internação compulsória. A prisão "resolvia" o problema. Tirar o sujeito de circulação dava a impressão de que tudo andava nos conformes. Em verdade, o Estado não demonstrava preocupação com a dependência química do viciado. Largava-o simplesmente na cadeia e a família é que depois cuidasse de interná-lo, se houvesse família e existisse vaga nos estabelecimentos de internação.
Ademais, a experiência tem revelado que a internação compulsória é uma medida absolutamente ineficaz no enfrentamento da dependência química. O professor Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, relata, por exemplo, que 98% dos pacientes internados compulsoriamente sofrem recaídas pouco tempo depois do fim da internação.
A internação compulsória do viciado em droga – semelhante à política manicomial outrora adotada no país, marcada pela truculência e exclusão – possui o particular propósito de acabar com as famigeradas "cracolândias", de maneira autoritária e policialesca, nada tendo a ver com o enfrentamento sincero do complexo problema das drogas, dependente de iniciativas e investimentos de outro jaez. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

FIÓDOR DOSTOIÉVSKI



"Se Deus não existe, tudo é permitido." 

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (Moscou, 11.11.1821 — São Petersburgo, 9.02.1881) foi um escritor russo, considerado um dos maiores gênios da literatura de todos os tempos. É tido como o fundador do existencialismo, especialmente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para o existencialismo já escrita."
A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: seus escritos são chamados de "romances de ideias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e da psicologia foram influenciadas por suas ideias.
Dostoiévski conseguiu atingir algum sucesso com seu primeiro romance, Pobre Gente, que foi imediatamente elogiado pelo poeta Aleksandr Nekrassov e por um dos mais importantes críticos da primeira metade do século XIX, Vladimir Belinski. No entanto, o escritor não conseguiu repetir o sucesso até o retorno da Sibéria, quando escreveu o semibiográfico Recordações da Casa dos Mortos, sobre a prisão que sofrera. Posteriormente sua fama aumentaria, principalmente graças a Crime e Castigo, romance que narra os dramas do jovem estudante Raskólnikov, depois de matar uma anciã usurária a machadadas, com a intenção de usar o seu dinheiro para boas causas, baseado numa teoria que ele mesmo desenvolveu.
Seu último romance, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Sigmund Freud como o melhor romance já escrito, uma obra-prima em que os dilemas pessoais de uma família retratam os principais problemas políticos, religiosos e filosóficos de toda a Rússia do século XIX, e quiçá do homem em todos os tempos.
Segundo o biógrafo Nicholas Berdiaiev, a obra dostoievskiana vem atingindo grande popularidade no Brasil por causa de "[…][suas] características muito próximas do brasileiro", e salienta que "[a obra de Fiódor] é marcada pelo anticapitalismo, por uma reação ao capitalismo selvagem, algo que parece tocar o leitor brasileiro hoje." Fenômenos até então desconhecidos na ética ocidental, como o dinheiro gerando a destruição da psique humana, são retratados com muita profundidade na obra de Dostoievski. (Paulo Bezerra)   

sábado, 12 de janeiro de 2013

MENINA DO MANGUE



Corre menina, na areia da praia,
Descalça, risonha, saltando os corais; 
Co'o vento varrendo a tez bem corada,
As madeixas exalam fragrâncias florais.

Ao longe a jangada exausta chegando,
Depois do embate em cruéis temporais.
Alheia a menina aperta o seu passo,
Na tarde vazia rumo ao porto sem cais.

O mundo não espia o andar da menina,
Sequer se apieda dessa filha sem pais;
Que anda faceira, seguindo a sua sina;
De cuja morada são frios manguezais.

Menina do mangue, sedenta de vida,
De brilho nos olhos, de alguns ideais;
Que a terra jamais lhe negue guarida;
Não hei de algum dia ouvir os seus ais!

Eliton Meneses

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

RECLASSIFICAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA



A Lei n.º 14.407, de 15 de julho de 2009, reclassificou as Comarcas do Estado do Ceará em três entrâncias, denominadas: entrância inicial, entrância intermediária e entrância final. A Lei Complementar n.º 80, de 06 de agosto de 2009 – menos de um mês depois, portanto –, reorganizou as Promotorias de Justiça do Estado do Ceará em entrância inicial, entrância intermediária e entrância final. No entanto, a Defensoria Pública do Estado permaneceu, por quase três anos e meio, com seus cargos pautados na antiga divisão das entrâncias, até que a LC n.º 116, de 27 de dezembro de 2012, reparando a incongruência, finalmente reorganizou a carreira em: a) Defensor Público de Entrância Inicial; b) Defensor Público de Entrância Intermediária; c) Defensor Público de Entrância Final e d) Defensor Público de 2.º Grau, que atua perante o Tribunal de Justiça e os Tribunais Superiores.
Entre nós, quase sempre o Estado-julgador e o Estado-acusador são tradados com prioridade frente ao Estado-defensor, aquele que defende juridicamente o cidadão. Ora, mas se vivemos sob a égide justamente da Constituição cidadã, por que não resguardar a igualdade de tratamento entre as instituições do sistema de Justiça?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MILITÂNCIA EDUCACIONAL - PROF. JOÃO TELES



Sejamos céticos com os arroubos ufanistas decorrentes de uma eleição política. Deixemos de besteira, com voto não se faz revolução. A eleição não é mais do que uma via de autopreservação de um sistema forjado para semear iniquidades. De cima para baixo não esperemos muito mais do que conservadorismo autoritário. As mudanças necessárias para um mundo mais justo nascem é de baixo para cima, nas lutas do próprio povo pelo reconhecimento dos seus direitos, na militância de cada um para o despertar da consciência e dignidade de todos. É nessa luta que devemos acreditar. É na luta de beija-flores como o Prof. João Teles que devemos depositar a esperança de que o incêndio da floresta um dia terá fim. É diante da militância educacional voluntária do Prof. João Teles –  e de outras iniciativas semelhantes – que a lanterna de Diógenes acende sua luz. É essa luta que merece nossa atenção, nosso aplauso e, sobretudo, nossa participação. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O RENASCIMENTO DO PALMA























Há notícia dando conta de que o Palma Esporte Clube, depois de um longo período de hibernação, estaria retomando suas atividades neste começo de ano, com o sonho de reviver o seu passado vitorioso.
Sem demérito às demais equipes de futebol amador da cidade, o Palma sempre foi o time mais popular de Coreaú. Talvez por estampar no peito a antiga denominação da cidade (Palma); talvez por preservar a tradição de selecionar seus jogadores pelo mérito, independentemente de procedência geográfica; talvez por ter conquistado, representando o Município de Coreaú, o título mais importante do esporte local – a Copa Zona Norte de 1986...      
O alvianil coreauense renasce das cinzas sem o palco da maioria de suas conquistas – o Estádio Municipal, ora já destruído –, sem a profusão de talentos d'outrora, sem muitos admiradores folclóricos – falecidos ou sem paradeiro –, possivelmente sem recursos e num cenário de descrédito do futebol local, mas, ainda assim, com o apoio de uma esperançosa torcida batizada de Palmamor, formada por alguns remanescentes das gerações passadas e por muitos representantes das gerações mais recentes da cidade.
Ficamos na torcida para que o Palma, o time mais tradicional de Coreaú, celeiro das principais estrelas do nosso futebol, nessa nova fase, conquiste ainda maiores glórias, sirva de exemplo para a juventude e renove as esperanças do esporte local.

domingo, 6 de janeiro de 2013

GUARDA COMPARTILHADA



"(...) 
Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar...
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais (...)"
(Legião Urbana – Pais e Filhos
Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

Até pouco tempo atrás, com a separação dos pais, a guarda do filho menor costumava ser atribuída exclusivamente a um dos genitores, cabendo ao outro simplesmente o direito de visitas, com o pagamento de uma pensão alimentícia. 
A partir da percepção de que a falta do referencial da figura paterna ou materna provoca lacunas psíquicas e possível conflito de lealdade no filho, resultando amiúde em problemas emocionais, comportamentais e de baixa autoestima, desenvolveu-se o instituto da guarda compartilhada, no afã de se priorizar o princípio do melhor interesse da criança, possibilitando que ambos os pais, mesmo separados, sejam protagonistas na criação do filho.     
A guarda compartilhada atribui aos pais separados a igualdade de participação e de decisão na educação e na formação dos filhos. A Lei n.º 11.698/2008 a define como "a responsabilização conjunta e o exercício de direitos e deveres do pai e da mãe que não vivam sob o mesmo teto, concernentes ao poder familiar dos filhos comuns." (Art. 1.º, § 1.º) 
O exercício da guarda compartilhada é possível mesmo que os pais morem em cidades diferentes, haja vista que as decisões podem ser tomadas à distância, máxime no atual estágio da tecnologia da informação, que permite a comunicação em tempo real a partir de quaisquer lugares do mundo. 
Na guarda compartilhada é definida a residência de um dos pais para que o filho possa ter a referência de um lar fixo, para as suas relações de vida, ainda que tenha a liberdade de frequentar a casa do outro. Diante dos maiores encargos financeiros que o genitor com quem o filho residir terá, a guarda compartilhada não elimina o dever de o outro pagar pensão alimentícia, atendendo-se ao binômio necessidade de quem recebe e possibilidade de quem paga.   
O art. 1.º, § 2.º, da Lei n.º 11.698/2008 permite a guarda compartilhada, sempre que possível, mesmo não havendo consenso entre os pais. Alguns doutrinadores criticam o dispositivo legal, aduzindo que, se há conflito, não há falar em guarda conjunta, sob pena de violação do princípio do melhor interesse do filho. Outros sustentam, no entanto, que não é o filho que deve se adequar às possibilidades e às viabilidades dos pais, mas exatamente o contrário, de modo que, havendo litígio entre os pais, deve-se lhes submeter previamente à mediação do conflito, até como medida para inibir a alienação parental, e somente de forma excepcional recorrer-se à guarda unilateral.  
A guarda compartilhada, sobretudo a partir do advento Lei n.º 11.698/2008, tende a se tornar a regra e a guarda unilateral a exceção, esperando-se que os benefícios sociais alcançados pela adoção da medida noutros países sejam também produzidos no Brasil.