sexta-feira, 6 de abril de 2012

LEIAM A TROMBETA DE JAMBOM


Eis o nosso escriba-mor palmense, que há muito deixou de ser aspirante! E agora está com um pé na cadeira nº 1 da Academia Palmense de Letras - APL! Dono de um teclado mágico, onde vem talhando, sem parar, uma série de peças antológicas, uma atrás da outra! Diante dos grandes a gente tem que parar e apreciar, lendo e divulgando! Ó curso de datilografia bem feito! 

Manuel de Jesus: "Assim eu acabo ficando acanhado véi... Ou quiçá mais atrevido e acabe sentando de vez. Na cadeira número 1 da APL."

Fco Eliton A Meneses: "Decerto, depois de aboletar-se na cadeira nº 1 da APL, o escriba somente deixará de esquentá-la quanto for 'estudar a geologia dos campos-santos', dado o cunho vitalício do cargo de "imortal" ("Ad immortalitem")."

Manuel de Jesus: "Então assim sendo espero aquecê-la por bastante tempo... Sabe como é né, sou um fanático pelas letras, fanático, a ponto de me tornar um "aletrado". Então espero não adentrar à geologia tão cedo... Que Deus seja o provedor de meus desejos e sonhos." (via facebook)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Blog do Gilmar Paiva: DIÁRIO DE UM NAVEGANTE: PARA OS HERDEIROS DO ANCIE...: "Hence, salve Belchior e todos os poetas que de lá saíram, e os que ainda pervagam as vielas da terra primeva dos filhos do interior!
Então, salve a Palma!"
Gilmar Paiva

Fco Eliton A Meneses:
Meu amigo Gilmar Paiva, a definição da terra de origem do grande Belchior tende a se transformar numa daquelas questões caprichosamente insolucionáveis - tal como a disputa por Gardel entre Tacuarembó e Toulouse...
Como você é de Sobral e eu sou de Coreaú, mas dada a nossa grande amizade, um duelo entre nós seria impensável; por outro lado, também não poderíamos apostar a questão numa rinha de galos, porque a hercúlea luta animal foi erigida em contravenção penal; uma saída plausível, então, seria apostá-la (a questão) numa disputa entre os "gladiadores" do século XXI, numa transmissão da Rede Globo, que, patrocinando o espetáculo de ferocidade humana, revela se compadecer dos galos, mas olvidar por completo as pessoas humanas...
Sou solidário à sua saudade dos tempos em que havia "galos, noites e quintais..."
Abraço.

domingo, 1 de abril de 2012

PARA OS HERDEIROS DO ANCIEN RÉGIME UMA MENSAGEM DE UM GÊNIO DA PALMA



"Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"
"Haven never haven never haven."
Blackbird me responde:
Tudo já ficou atrás.
"Haven never haven never haven."
Assum-preto me responde:
O passado nunca mais!"

* Belchior foi criado em Sobral, antes de ganhar o mundo, mas nasceu mesmo foi em Coreaú (Palma)! Desde criança ouvi essa história, particularmente do amigo Rogério Boeiro, que dizia que sua mãe havia acalentado e trocado fraudas do grande poeta/cantor. 
* "Se non è vero, è ben trovato."

MUZZARELA OU MUÇARELA?



Qual a forma correta em Português para aquele famoso queijo napolitano de leite de búfala ou de vaca, que se prepara com uma espécie de fungo conhecido por mozze no dialeto napolitano?
A autoridade oficial para dizer quais vocábulos pertencem ou não ao vernáculo é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - VOLP, uma espécie de dicionário que lista as palavras reconhecidas oficialmente como pertencentes à língua portuguesa, bem como lhes fornece a grafia oficial, mas normalmente não lhes dá o significado.
O VOLP é elaborado pela Academia Brasileira de Letras, que tem a responsabilidade legal de editá-lo, em cumprimento à vetusta Lei Eduardo Ramos, de nº 726, de 08 de dezembro de 1900.
Assim, dizer que tal ou qual dicionarista registra ou não registra determinada forma - mesmo que seja o Aurélio ou o Houaiss - não resolve a questão no campo da ortografia, uma vez que a palavra oficial não está com eles, por mais respeitáveis que sejam, mas com o VOLP, que diz oficialmente qual a grafia correta das palavras.  
Demais disso, se uma palavra originária de língua estrangeira já sofreu aportuguesamento, sendo incorporada ao vernáculo, então não deve mais ser empregada como escrita no idioma original, a não ser que haja expressa permissão do próprio VOLP.
Postas tais considerações, uma consulta ao VOLP revela que NÃO existem as seguintes grafias para o famoso queijo napolitano: moçarela, morzarela, mossarela, mozzarela, murzarela, mussarela e muzzarela. Por outro lado, são apontadas pelo VOLP como formas corretas: mozarela, muçarela e muzarela.                                     
No campo da grafia das palavras, portanto, a questão é de ordem legal: a Academia Brasileira de Letras tem a delegação legal para elaborar o rol de vocábulos oficialmente existentes em nosso idioma e o faz por intermédio do VOLP, situando-se eventuais discussões acerca da grafia no campo científico  ou artístico.
* Para saber qual a grafia correta e oficial dos vocábulos em nosso idioma, consulte o "site"  www.academia.org.br.       

(adaptado do Manual de Redação Profissional. José Maria da Costa. 3ª ed. Millenium editora. p. 746/747. 

sábado, 31 de março de 2012

O MUNDO DE SOFIA - UMA LEITURA ESSENCIAL



DOIS CÍRCULOS CULTURAIS

PÓS-ESCRITO

        "O que estou tentando mostrar, cara Sofia, é que tudo está inter-relacionado. A entrada do cristianismo no mundo greco-romano significou o encontro dramático de dois universos culturais. Mas significou também uma grande transformação histórico-cultural.
         Estamos quase deixando para trás a Antiguidade. Quase mil anos são passados desde os primeiros filósofos gregos. À nossa frente se descortina agora a Idade Média. E ela também durou cerca de mil anos.
         O poeta alemão Johann Wolgang von Goethe escreveu:

         Wer nicht von dreitausend Jahren
         Sich weiß Rechenschaft zu geben,
         Bleib im Dunkeln unerfahren,
         Mag von Tag zu Tage leben.

         E uma possibilidade de tradução seria a seguinte:

         Quem, de três milênios,
         Não é capaz de se dar conta
         Vive na ignorância, na sombra,
         À mercê dos dias, do tempo.

      E eu não quero que você seja uma dessas pessoas. Estou me esforçando ao máximo para familiarizá-la com suas raízes históricas, pois só assim você se tornará uma pessoa de verdade. Só assim você será mais do que um macaco sem roupas. Só assim você não vai ficar flutuando no espaço vazio.
           
        "Só assim você se tornará uma pessoa de verdade. Só assim você será mais do que um macaco sem roupas..."
      Sofia ainda ficou algum tempo olhando o jardim por entre os galhos de sebe. Aos poucos ela ia entendendo o quando era importante conhecer suas raízes históricas. Pelo menos para o povo de Israel tinha sido importante.
       Ela própria não passava de uma pessoa comum. Mas se viesse a conhecer suas raízes históricas, ela passaria a ser alguém menos comum. Sofia sabia que viveria apenas alguns anos neste planeta. Mas se a história da humanidade era também a sua própria história, de certa forma ela, Sofia, já tinha alguns milhares de anos.
   Sofia reuniu todas as páginas e saiu engatinhando de seu esconderijo. Atravessou o jardim com passos firmes, entrou em casa e foi para o seu quarto."  

(O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, p. 180/181. Cia das Letras)

sexta-feira, 30 de março de 2012

SOLIDARIEDADE AOS BLOGUEIROS DA PALMA

Fco Eliton A Meneses Grande Romildo, é notório que seu blog prima pela imparcialidade, não promovendo propaganda antecipada de candidato algum; portanto, lamentamos bastante a decisão judicial. Noutro passo, é deveras doloroso prestar voluntária e graciosamente um serviço de utilidade pública de suma relevância para a população regional e ainda ser alvo de notificação judicial! Mas não é hora de desânimo; muito pelo contrário, se chegaram a tal ponto é porque reconhecem o potencial do blog como veículo formador de opinião! Assim, a caravana tem que continuar passando, com altivez e segurança, sem tocar claro em questões eleitorais, porque a imprensa é pública e pretensamente imparcial, e as eleições se avizinham. De todo modo, pensar em encerrar o blog é cair no canto da sereia, porque talvez seja o sonho acalentado por uma risível minoria, sedenta pelo retorno ao obscurantismo da desinformação. O seu RM no Foco, Romildo, é um grande patrimônio imaterial da nossa Palma e tem que continuar, porque as coisa grandes não detêm o passo diante de obstáculos pequenos! Mais uma vez nossa incondicional solidariedade!
P.S.: Tais palavras são extensivas, mutatis mutandis, ao companheiro Benedito Aguiar (Bob), do blog Coreaú Online (Notícias de Coreaú), a quem também prestamos nossa solidariedade. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

DEFENSORIA PÚBLICA. INTIMAÇÃO PESSOAL. ENVIO DOS AUTOS


"(...) a despeito da presença do defensor público na audiência de instrução e julgamento, a intimação pessoal da Defensoria Pública somente se concretiza com a respectiva entrega dos autos com vista, em homenagem ao princípio constitucional da ampla defesa." (STJ, 3ª Turma) cf. http://www.stj.jus.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=105198

sábado, 24 de março de 2012

CONFISSÕES DE UM POETA


"De como o poeta conheceu Drummond eu já sabia, desde os idos de 1998, na velha 1665; agora quero saber como conheceu Rimbaud, Poe, Borges, Rilke (...)" Fco. Eliton: 20.03.2012.
Blog do Gilmar Paiva: Fortaleza, 24 de março de 2012: Caro e dileto amigo Eliton, Poe foi herança de livros deixados pelo meu irmão que partia para metrópole. Rilke devo a cidadela 1665, poi...

ARTHUR RIMBAUD



Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (*20.10.1854 +10.11.1891) foi um gênio da poesia que produziu suas obras mais impressionantes quando ainda era adolescente, sendo descrito por Victor Hugo, à época, como "um jovem Shakespeare". Rimbaud viveu mais 18 anos, depois de abandonar a poesia aos 19 anos de idade. Não que ele tenha exaurido o demônio, mas o seu gênio, ou um outro eu, o deixara exasperado, forçando-o ao exílio, segundo Harold Bloom. 
Como parte do movimento decadente, Rimbaud influenciou a literatura, a música e a arte modernas. Era conhecido por sua fama de libertino e por uma alma inquieta, viajando de forma intensiva por três continentes antes de morrer de câncer aos 37 anos de idade.   
A poesia de Rimbaud, bem como sua vida, impressionou escritores, músicos e artistas do século XX. Pablo Picasso, Dylan Thomas, Allen Ginsberg, Vladimir Nabokov, Bob Dylan, Patti Smith, Giannina Braschi, Léo Ferré, Henry Miller, Van Morrison e Jim Morrison foram influenciados por sua poesia e por sua vida.
A vida de Rimbaud foi retratada em vários filmes. Em Una stagione all'inferno (Uma Temporada no Inferno), de 1970, do cineasta italiano Nelo Risi, o  poeta foi interpretado por Terence Stamp; em 1995, a cineasta polonesa Agnieszka Holland dirigiu Eclipse Total de uma Paixão, no qual Leonardo DiCaprio interpreta Rimbaud.  
Rimbaud tornou-se uma grande referência para a poesia do século XX, servindo de argumento à tese que nascia sobre a impossibilidade de ser considerada a dissociação entre o poeta e sua poesia. O poeta, assim, vive e é sua poesia  pensamento vigente ainda hoje, segundo algumas escolas. 


Un poème d'une simplicité apparente. D'un lyrisme contenu et efficace. Entre le corps et le sentiment. Rimbaud n'a que seize ans. Rupture avec l'ingénuité enfantine. Du paysage exterieur au paysage intérieur. Une ascension spirituelle et contemplative qui transcende l'espace et le temps. 

SENSAÇÃO 

Nas tardes azuis de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:,
A sonhar, sentirei um frescor sob os  pés,
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.

Em silêncio, eu não pensarei em nada:
Mas o amor infinito montará minh'alma,
E irei longe, muito longe, com o pé na estrada,
Pela natureza, feliz  na companhia da amada. 

Arthur Rimbaud

sexta-feira, 23 de março de 2012

SALVE O GÊNIO DO HUMOR!



CHICO ANYSIO - NOSSO GRANDE GÊNIO DO HUMOR
* 12.04.1931 + 23.03.2012



Chico Anysio não está mais entre nós. Um imenso vazio invadiu todo o País nesse 23.03.2012. Confesso que me emocionei bastante – e até marejei os olhos – com a partida do grande mestre do humor e com as tantas homenagens que lhe foram devotadas, na televisão, na internet, no futebol (...).
Chico Anysio não foi somente um grande artista, foi um gênio. Um gênio na mais plena acepção da genialidade. Chico Anysio, tal qual Shakespeare, multiplicou personagens, não somente os inventando – todos os 209 – com características semelhantes às conferidas pela própria natureza, mas dando-lhes vida própria, atuando com eles no palco, tal qual Charles Chaplin, magistralmente.
Sempre adorei o artista, como todos os seus personagens, especialmente o Professor Raimundo, que me acompanhou durante toda a infância e adolescência. Hei, porém, de ressaltar também o homem, a despeito de lamentavelmente nunca o ter encontrado pessoalmente. O Chico homem me despertou uma particular simpatia desde os idos de 1997, aos meus 19 anos, quando, em minha primeira visita ao Rio de Janeiro, tendo ficado hospedado próximo ao apartamento onde ele, à época, morava, tive excelentes impressões a seu respeito. As pessoas o veneravam, dos mais bastardos aos mais humildes, não apenas pelo grande talento que possuía, mas sobretudo pela sua especial simplicidade e simpatia. Chico tratava todos igualmente; os porteiros dos edifícios, quase todos nordestinos, o reverenciavam igualmente a Padre Cícero. Um deles me confidenciou que Chico era tão autêntico que no seu apartamento, na cobertura do prédio, resolveu, a contragosto do síndico, plantar um coqueiro, talvez para se sentir mais próximo do seu Ceará. E plantou... De longe ainda contemplei a copa da frondosa árvore.
O extraordinário talento de Chico não se prestou apenas ao humor, mas também à música, ao cinema, à literatura, ao rádio, às artes plásticas (...). Poderíamos dizer, talvez ainda sendo injustos, que Chico foi um gênio de mil faces, tamanho o número e a qualidade de suas personagens. Alguém disse, na onda de homenagens póstumas, que, se ele tivesse nascido na Europa ou nos Estados Unidos, teria sido reverenciado no mundo todo. Decerto nossas limitações de país dominado não permitiram projetar o talento do grande mestre para o mundo inteiro, mas, de todo modo, o gênio não obedece ao tempo nem ao espaço, tampouco depende de reconhecimento alheio. O gênio só depende do sopro divino que lhe confere a genialidade. Nisso decerto Chico Anysio foi soprado mais de 209 vezes.
Chico foi tão genial que resolveu ser genial inclusive na própria vida pessoal. Chico honrou como ninguém suas origens. Chico nunca esqueceu sua Maranguape, tornando o Ceará o maior celeiro do humor do Brasil. Com Chico, o viés do humor autodepreciativo do cearense ruiu por completo, pela sua elegância e inteligência. Com Chico o humor virou escola, permitindo-lhe, com sua generosidade e sensibilidade, desvendar e patrocinar tantos outros talentos pelo país inteiro, especialmente no Ceará, consolidado como a terra do humor. O Brasil aprendeu a sorrir não mais do cearense, historicamente vítima da seca, mas com o cearense, com sua inteligência, com sua irreverência, com a sua maneira de encarar o mundo. Marcou-me particularmente a emocionada homenagem que os humoristas cearenses prestaram ao grande mestre, uníssonos em admitir a orfandade com a partida do grande padrinho Chico Anysio, de quem sempre se despediam, em vida, tomando a sua bênção...  
Chico foi grande até ao morrer. Pediu que seu corpo fosse cremado e que metade de suas cinzas fossem lançadas na sede da emissora de televisão que considerava sua casa, no Rio de Janeiro, e a outra metade fosse lançada em Maranguape, sua terra natal, talvez para que suas cinzas fertilizem o solo cearense, fazendo nascer senão outros gênios iguais a ele, ao menos outros grandes talentos, que também elevem e dignifiquem o Ceará, como ele genialmente o fez. 
Salve Chico Anysio, o maior gênio do humor que o mundo conheceu!

Francisco Eliton A Meneses

quarta-feira, 21 de março de 2012

GRANDES ENCONTROS




"Se eu tivesse 3 mil páginas, não seriam suficientes para falar da importância de Noite Ilustrada. Mas como tenho só duas frases, só vou dizer que é mais um grande sambista que desfalca a nossa música popular brasileira. Fiz dois shows com ele no ano passado, e foi ótimo. Era um cantor de voz maravilhosa e uma divisão espetacular, mas, como dizia Zé Keti, a gente morre sem querer morrer." (Nelson Sargento, sambista mangueirense) (julho/2003)

"Noite Ilustrada foi um dos maiores intérpretes de samba que tivemos. É o que está faltando hoje, e a garotada que está chegando tem de ouvir seus discos para aprender com ele. Fiquei fã dele quando o vi cantar na Rádio Tupi, há muitos anos, e desde então virou meu ídolo. No ano passado, quando fui a Recife, fiquei feliz porque ele fazia sucesso lá. Estava arrebentando a boca do balão, embora tivesse fora da mídia aqui." (Noca da Portela, sambista) (julho/2003)

"Sempre fui um grande admirador não só de suas obras, como de sua pessoa. Fechei contrato com a gravadora Philips no mesmo ano em que Noite Ilustrada estourava com Volta por Cima. Nos tornamos muito amigos. Ele tinha um bar no Largo do Arouche, como eu morava perto estava sempre ali. Ele era um monstro, um baluarte da música." (Jair Rodrigues, cantor) (julho/2003)

Obs.: A caçamba é um balde preso a uma corda para tirar água dos poços, muito comuns nos morros cariocas d'outrora. Quando se joga a corda, o balde só alcança até o comprimento da corda, além de não ter serventia sem a corda; portanto, ser corda e caçamba é estar sempre junto, unido, como carne e unha...


segunda-feira, 19 de março de 2012

OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA


É preciso humor para não morrer de realidade.
É preciso destemor para prosseguir o caminhar.
É preciso ignorância para ofender a liberdade.
É preciso inteligência para poder incomodar.

É preciso precaver a censura.
É preciso um lampejo de luz.
É preciso agir com candura.
É preciso ler Manuel de Jesus.

É preciso tanger o pássaro negro,
Que teima em dizer: "- Never more!" 
É preciso não se apiedar do degredo, 
De forasteiro aspirante a capitão-mor.
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É preciso não viver de esquivança.
É preciso calar quando o silêncio convém.
É preciso reinventar a esperança.
É preciso saber que o novo sempre vem.

Francisco Eliton A Meneses


P.S.: Nossa solidária homenagem – enlutada  – ao dia sem blog de Coreaú - 20.03.2012. 

sábado, 17 de março de 2012

LEON TOLSTOI


 Ah, que sujeito extraordinário!  exclamou o chefe. – Foi agraciado com muita terra!
O empregado de Pahóm chegou, correndo, e tentou erguê-lo, mas viu que o sangue lhe jorrava da boca. Pahóm estava morto!
Os Bashkir estalaram a língua, demonstrando compaixão.
O criado pegou a pá e cavou uma sepultura suficientemente longa para conter o corpo de Pahóm, e ali o enterrou. Um metro e oitenta e cinco, dos pés à cabeça, era tudo o que ele precisava. 
(De quanta terra precisa um homem? Tolstoi)


"Definir o gênio de Tolstoi é empreendimento absurdo; o escritor russo possuía a exuberância e a criatividade de Balzac e Hugo, mas quase nada da inibição e do atrevimento dos colegas franceses. A avaliação que Tolstoi faz da grande literatura é mais enigmática do que afrontosa. Ele censura Shakespeare, especialmente Rei Lear, mas aceita Falstaff, porque o mestre da espiritualidade "não fala como um ator". De certa forma, Tolstoi percebia que Shakespeare era o seu grande rival, como ficcionista. (...) Tudo o que Tolstoi escreveu, inclusive os tratados morais e teológicos mais desvairados, constitui leitura sumamente interessante. À semelhança de Shakespeare, tem-se, em Tolstoi, a ilusão de que a natureza é quem escreve. (...)" (Harold Bloom)      

VIDAS SECAS - A MORTE DA BALEIA



"A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginava que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. (...) Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. (...) Pobre Baleia. Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia. Os meninos começaram a gritar e espernear (...) Como o animal estivesse de frente e não apresenta-se bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente. (...) E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de rosna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos. Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda. Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitando as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar esta nova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis. (...) Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido. Esqueceu-os e de novo veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas. O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. (...) Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. (...) Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado. Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito. (...) A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se esponjariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes." (Graciliano Ramos)