segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

FELIZ ANO NOVO!



Aos leitores deste despretensioso diário, àqueles que o acessam de perto ou de longe, aos que nos enviam e-mails, aos que permanecem silentes, conhecidos ou não, espalhados por alguns lugares mundo afora, aos colaboradores, especialmente à sobrinha Marinara Albuquerque e aos amigos Raphael Esmeraldo e Gilmar Paiva, a todos aqueles que compartilham conosco alguns momentos da vida e da arte, nossos votos de um 2013 de muita saúde, paz, felicidade, sabedoria e amor!  

UMA IMAGEM DO ANO



Defensores Públicos em greve, no Passeio Público, Centro de Fortaleza/CE, com apoio dos movimentos sociais e populares e de alguns políticos (setembro/2012).

Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
(...)
Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
(Gabriel O Pensador)

sábado, 29 de dezembro de 2012

DIA E NOITE



Anoitece ou amanhece?
São alvas ou negras as aves?
São as mesmas aves?
É a mesma cidade?
Quem reflete quem?
Quem deforma quem?
De onde parte o vértice que dilui em duo as cousas?
A delirante perspectiva do observador constrói a vigília e o sono;
A clarividência e o sonho;
O pão e a poesia!

Gilmar Paiva

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CHEGOU O DIA QUE EINSTEIN TEMIA!



                                              "Temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à nossa humanidade: o mundo terá apenas uma geração de idiotas." 
Albert Einstein

As novas gerações se encontram tendendo para uma completa alienação da vida. Até a eclosão da 2.ª Guerra Mundial, as pessoas se importavam mais em ler livros, jornais, revistas e apreciavam artes, o que de fato revelava algum esforço para a compreensão dos acontecimentos. No pós-guerra, porém, começou  o aumento do consumo, inicialmente com as propagandas de rádio; em seguida, veio o cinema e a televisão tomando conta da mente daqueles que não exerceram uma pressão em sentido contrário.
Com as novas tecnologias, foi-se perdendo o hábito de ler. As gerações passaram a ser divididas, reduzindo-se a busca pela compreensão atenta da vida e buscando-se refugiar em futilidades, sempre se deixando influenciar por propagandas enganosas.
A alienação produz seres humanos desatentos e desfocados de sua vida e de seu ambiente, o que hoje, em escolas, praias, shoppings, etc. está cada vez mais comum.

Marinara Albuquerque

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

COMUNIDADE QUILOMBOLA DA TIMBAÚBA




"(...) la lucha es cruel y es mucha
pero lucha y se desangra
por la fe que lo empecina."
(Uno, Discépolo)

Como diz a letra do velho tango, a luta popular pelo reconhecimento de seus direitos é cruel e é muita, mas é preciso não desistir, mantendo viva a esperança de vitória em cada batalha. Os remanescentes quilombolas da Timbaúba, no Ceará, retratam muito bem a perseverança na luta pela regularização do seu território. 
A comunidade da Timbaúba é formada atualmente por cerca de 160 famílias e ocupa um território de 2.033ha, entre os Municípios de Coreaú e Moraújo. A despeito de já ser reconhecida como remanescente quilombola pela Fundação Palmares, o processo de regularização do território, em trâmite perante o INCRA, caminha a passos lentos, inviabilizando a implementação de vários projetos sociais. O último percalço foi a oposição do DNOCS à inclusão da área às margens do Açude da Volta na demarcação. Assim, o processo, que se encontrava em Brasília, teve de retornar a Fortaleza, ofertando como alternativas a concordância  com a supressão da área do açude, como se não fosse preciso o acesso a uma fonte de água, ou o retorno  de todo o procedimento praticamente à estaca zero.  
A comunidade possui basicamente dois núcleos habitacionais: a Timbaúba de Baixo, onde reside a maioria das famílias, às margens do Açude da Volta, no território de Moraújo, e a Timbaúba de Cima, que reúne 16 famílias, já no território de Coreaú, no sopé da Serra da Meruoca, numa área de acesso relativamente difícil. A população sobrevive da agricultura de subsistência e do extrativismo vegetal, notadamente da carnaúba, além de benefícios sociais do Governo Federal. São preservadas tradições como o reisado e o leruá, a crença no curandeirismo e no Candomblé e hábitos como fumar no cacimbo e cozinhar em panela de barro.
A resistência quilombola da Timbaúba conta com poucos aliados e com bastante descaso do Poder Público. A indefinição do processo de regularização do território tem varrido de certo desânimo a comunidade e a tolerância aos apelos do consumo da civilização do homem branco é notória na vila. Ainda assim, a resistência dos Negros da Timbaúba permanece viva, mantendo acesa a chama libertária do velho Sabino, encontrado no alto da Meruoca, e de todos os escravos oriundos da fazenda do senhor Tito e adjacências.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

ESTRADA DE CANINDÉ



Durante vários meses, rumo a Nova Russas e Tamboril, percorri a estrada que liga Fortaleza a Canindé, mas nunca havia visto tanta gente à esperada da solidariedade alheia quanto na véspera deste Natal. Não eram os tradicionais devotos pagadores de promessa a pé. Eram moradores da região, que se acomodavam em vigília à beira da estrada na véspera de Natal, na esperança de encontrar uma alma cristã solidária. Foram aquelas mãos estendidas que me fizeram sentir o espírito natalino. 
A mensagem de Jesus Cristo está naquelas mãos estendidas à beira da estrada de Canindé, muito distante da decoração luxuosa do "shopping center" da cidade. A mensagem que reforça nossa obrigação perante as outras pessoas, de partilhar o pão e de cuidar daqueles que necessitam. Na estrada de Canindé senti a força de Cristo e o rumo certeiro que Francisco de Assis conferiu à fé cristã. 
Assim como Galeano: "Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas."
De todo modo, com solidariedade ou com caridade, no Natal, e em todos os demais dias do ano, é preciso seguir a mensagem de Cristo e aprender com as muitas mãos estendidas à beira dos nossos caminhos.
Feliz natal para todos!  

domingo, 23 de dezembro de 2012

ELOGIO DA LOUCURA



"Ontem, ao meio dia, comi um prato de lagartas 
Passei a tarde defecando borboletas."
Mário Gomes

A loucura inteligente é muito mais criativa e atraente do que o saber enganoso. Prefiro os devaneios dos loucos às contradições da realidade humana. É preciso não reputar insanos aqueles que vemos dançando, quando não podemos escutar a música (Nietzsche). 
Mário Gomes é um poeta que desfruta sua loucura vagando bêbado e maltrapilho pelas ruas centrais de Fortaleza. 
Numa noite nos arredores do Dragão do Mar, presenciei espantado o poeta sendo arrancado rispidamente de sua mesa num restaurante. A sua irreverente elegância não era bem vista pelos garçons. Ofegante e agitado, o poeta cedeu aos meus apelos e sentou do meu lado, mirando de soslaio um garçom contrariado.
Travamos um breve diálogo confuso. Ele me ofereceu um cigarro, eu recusei; eu lhe ofereci um chope, ele recusou. Ao final, perguntei se eu podia ficar com algum pedaço do seu embrulho sujo de poesias, fotos e reportagens. 
Ele me disse que não. Precisava dos papéis para limpar o "boga". Ergueu-se, então, da cadeira, deu uma baforada no ar e se foi.
O poeta lembrou-me tio Valdemir, que entregava jornais em Coreaú e emprestava a mesma destinação às edições passadas do periódico. Tio Valdemir ficara fraco do juízo quando a mulher sumiu no mundo com seus 12 filhos.      
Foi com tio Valdemir que aprendi alguns rudimentos das ciências ocultas. Foi ele quem me despertou, numa madrugada de março de 1986, para testemunharmos a passagem acanhada do cometa Halley, enquanto os lúcidos da família dormiam um sono profundo. Era tio Valdemir quem, sensível à penúria de sua irmã Leda, volta e meia devassava o depósito do vô Raimundo da Barra, correndo pelos fundos com uma vasilha cheia de feijão para assegurar o jantar de 8 sobrinhos.
Na quadra final de sua vida, tio Valdemir padeceu de um tipo de diabetes que lhe rendeu uma fome canina. Certa feita, uns amigos da juventude, oriundos da capital, tentaram aplacar aquela fome insaciável. Querendo saber até onde o voraz apetite chegaria, liberaram na bodega todo o pão e refrigerante disponíveis. Depois de dois pacotes de pão hambúrguer e sete refrigerantes, no entanto, resolveram suspender o desafio, temendo pela saúde do camarada.        
Meu pai, que havia acompanhado o banquete, saudou ao final a proeza e perguntou ao cunhado se no seu estômago ainda haveria espaço para o jantar.
Tio Valdemir, com três leves palmadas na pança rija e saliente, piscou o olho com um risinho irônico e disse:
- Ó, ó! 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

CERRO DE POTOSÍ



“Soy el rico Potosí,
Del mundo soy el tesoro,
soy el rey de los montes,
y envidia soy de los reyes”.

Ai de ti, Potosí!
Outrora do mundo o tesouro,
Tangeram os incas e depois se foram.
Levaram a prata e esqueceram o ouro.

Como andas, ó "Cerro Rico" boliviano?
Nascente de rio de prata por longos anos!
Toldado em sangue, em suor e desengano! 

Como anda a formosa urbe do teu sopé, 
Que com Paris naquele tempo rivalizava,
Esculpindo em prata o cálice da nova fé?

Nas ruas estreitas do casario colonial,
 Há mero murmúrio na solidão do altiplano;
Herança de séculos de exploração material;
Sobrevidas míseras na extração do estanho.

Secaram tuas minas de prata,
Nas lágrimas de tuas meninas.
Com poesia se escreve a errata,
Da história tosca de certas sinas.

Eliton Meneses

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A TRAGÉDIA DE NEWTOWN



Numa sociedade que cultua a arma de fogo qual uma panaceia para todos os males, muitas tragédias decorrem, como efeito colateral, do próprio culto desvairado. Nos Estados Unidos, a poderosa indústria de armas de fogo dita os rumos das políticas públicas internas e externas, enquanto a maioria da população acredita que a posse de arma é um direito fundamental à segurança, praticamente uma cláusula pétrea. 
No cinema americano, as armas de fogo não protagonizam somente filmes de ação, mas também de drama, suspense, terror e até romance. Não há nada que resista a uma chuva de balas, nem mesmo zumbis, fantasmas, demônios e quejandos.
Nancy Lanza, mãe de Adam Lanza, o atirador da tragédia de Newtown, colecionava armas e se divertia levando o filho, portador de distúrbios mentais, para atirar.  
Adam Lanza utilizou na matança uma Glock 10mm, uma Sig Sauer 9mm e um fuzil Bushmaster, armas a que somente grupos de elite da polícia brasileira têm acesso.
As causas da violência humana decerto possuem muitas faces, em todos os rincões; no entanto, numa peça em que todas as personagens dispõem de uma arma de fogo ao alcança da mão, como uma solução prática para quase todos os seus problemas, a pertubação mental de um jovem é apenas a feição secundária de um drama maior.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

DIREITO DE RECORRER EM LIBERDADE


A orientação jurisprudencial mais recente dos Tribunais Superiores tem acenado no sentido de que o mero fato de o acusado ter permanecido preso durante toda instrução criminal não é motivo suficiente para se lhe negar o direito de aguardar o recurso de apelação em liberdade, salvo se existirem reais motivos que ensejem a manutenção de sua prisão cautelar, devendo o juiz, em sendo o caso, fundamentar a prisão cautelar do apenado, com lastro numa das hipóteses do art. 312 do CPP.
Há necessidade, portanto, de fundamentação específica, na sentença condenatória, para a manutenção do réu na prisão, não bastando simples menção à permanência do acusado preso durante o processo. Nesse sentido, eis um precedente do STJ: "A simples indicação de que o Réu esteve preso durante toda a instrução, bem assim de que os requisitos do art. 594 estariam presentes, não é motivação hábil a manter o Réu em cárcere, ainda mais quando o caderno processual consagra-lhe situação bastante favorável a ponto de garantir-lhe uma apenação e um regime menos gravosos." (RHC 22.696⁄RJ, 6ª Turma, rel.ª. Min.ª. Maria Thereza de Assis Moura, DJe de 16.6.2008)

REGIME INICIAL DE CUMPRIMENTO DA PENA


As penas privativas de liberdade deverão ser executadas de forma progressiva, observando-se, em princípio, os seguintes critérios: a) o condenado a pena superior a 8 (oito) anos deverá começar a cumpri-la em regime fechado; b) o condenado não reincidente, cuja pena seja superior a 4 (quatro) anos e não exceda a 8 (oito), poderá, desde o princípio, cumpri-la em regime semi-aberto; c) o condenado não reincidente, cuja pena seja igual ou inferior a 4 (quatro) anos, poderá, desde o início, cumpri-la em regime aberto (art. 33, § 2.º, do Código Penal).
Outro parâmetro para o estabelecimento do regime inicial de cumprimento da pena diz com o mérito do condenado, aferido a partir dos critérios previstos do art. 59 do Código Penal, possibilitando-se a fixação de regime mais gravoso, sem atenção estrita aos limites quantitativos referidos (art. 33, § 3.º, c/c art. 59, III, do Código Penal), dês que a medida seja adotada com fundamentação adequada, em face do que dispõem as alíneas b, c e d do § 2.º do art. 33 do Código Penal e também o § 3.º c/c art. 59 do mesmo diploma, ou seja, com olhos postos na culpabilidade, nos antecedentes, na conduta social, na personalidade do agente etc. (STF, HC 72.589-9, 1.ª Turma, rel. Min. Sydney Sanches, DJU 18.08.1995, p. 24.898).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

END OF THE WORLD?



O jornal inglês The Sun tratou como fim do mundo a derrota do Chelsea para o Corinthians na final do Mundial de Clubes da FIFA. A pretensão dos europeus, seguidores crédulos da lógica do capital, inclusive no futebol, está beirando às raias do delírio insano.  
No histórico do Mundial de Clubes da FIFA, há um rigoroso empate no número de conquistas: 26 troféus para os europeus e 26 para os sul-americanos. No confronto direto entre brasileiros e ingleses na final, o placar aponta 3x0 para os brasileiros: Flamengo 3x0 no Liverpool, em 1981; Internacional 1x0 no Liverpool, em 2006, e Corinthians 1x0 no Chelsea, em 2012. Não há, portanto, motivo algum para perplexidade na vitória de um clube sul-americano sobre um europeu, a despeito da enorme disparidade da folha salarial entre um e outro.  
Os europeus não escondem um certo desdém pelo Mundial de Clubes, numa postura desrespeitosa, notadamente em face da escola sul-americana de futebol. De toda sorte, a superioridade que eles tentam traduzir em empáfia não se reflete nem nos fatos, nem nos números. 
O Corinthians venceu a partida porque possui um elenco com qualidade técnica semelhante ao do Chelsea e, sobretudo, por ter jogado melhor, com disciplina tática irrepreensível e muito mais entrega em campo.
Sou torcedor do Ceará Sporting Club e não nutro simpatia específica por nenhum time do Centro-Sul, mas, como brasileiro, no Mundial de Clubes, torço sempre pela vitória do time sul-americano, inclusive quando é  argentino.   

sábado, 15 de dezembro de 2012

REUNIÃO DE FIM DE ANO DA APL



Reunião da APL na EMEIF Maria Bezerra Quevedo, em Fortaleza. O encontro foi recepcionado por uma emocionante apresentação dos alunos do Projeto Confraria de Leitura. Na foto: João Teles, Manuel de Jesus, Eliton Meneses, Galba Gomes, Benedito Gomes e Fernando Machado. O poeta sobralense Gilmar Paiva participou, como convidado, da reunião.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

COMO AVALIAR AS PRODUÇÕES TEXTUAIS?



Os estudos psicolinguísticos lançam questionamentos sobre como os professores podem melhor avaliar as produções textuais dos educandos, dando mais relevância à organização das ideias e à criatividade do que à pontuação e à ortografia.
Segundo o psicolinguista Frank Smith (1982), o ato de escrever envolve um conflito entre a composição e a transcrição. A primeira refere-se à seleção e organização das ideias e a segunda ao registro das palavras, grafia e pontuação. Segundo Smith, quando o professor avalia as produções dos alunos, imprimindo muita ênfase à estrutura textual, paragrafação, pontuação e ortografia, ele poderá desmotivá-los a compor textos, dado que os educandos, ansiosos com a transcrição daquilo que está sendo escrito, prestarão mais atenção a aspectos como a ortografia e a pontuação, tentando alcançar uma escrita "limpa", em prejuízo da composição. Talvez esse seja o grande temor dos pré-vestibulandos em relação à redação nos vestibulares, tendo em vista a má-paragrafação, a pontuação e a ortografia serem apontadas tradicionalmente como erros bastante relevantes pela banca examinadora.
Para resolução desse conflito entre composição e transcrição, Smith propõe que os profissionais em educação separem esses dois aspectos e tomem em consideração primeiro a composição e, em seguida, a transcrição. Desse modo, o aluno poderá compor transcrevendo sem preocupação. Assim sendo, para melhor conduzir o ensino da ortografia, o professor poderá fazer um trabalho de análise com os próprios textos dos educandos, selecionando os erros ortográficos de maior incidência em sua turma, propondo atividades apropriadas às necessidades dos alunos.

Auricélia Fontenele
Prof.ª de Português