sábado, 19 de outubro de 2019

Ecce Homo : Nietzsche


"Fiz minha filosofia da minha vontade de ter saúde."

"Minhas experiências me dão um direito à desconfiança geral, em relação aos assim chamados 'impulsos' altruístas, o 'amor ao próximo', pronto a oferecer todo tipo de conselho."

"Deus é uma resposta grosseira, uma falta de delicadeza contra nós, pensadores, basicamente apenas uma proibição grosseira: vocês não devem pensar."

"Não somos um acaso, mas uma necessidade."

"Não quero, de jeito nenhum, que alguma coisa se torne diferente do que é; eu mesmo não quero tornar-me diferente."

"O que mais me lisonjeou até agora foi que velhas colhedoras de uvas não descansaram até terem escolhido os cachos mais doces para mim. É onde se deve chegar, como filósofo..."

"A Circe da humanidade, a moral, falsificou profundamente toda psicologia — desmoralizou-a a ponto de afirmar aquela terrível bobagem de que o amor deve ser algo 'não-egoísta'..."

"A mulher precisa de filhos, o homem é sempre apenas um meio."

"A perda de peso, a resistência contra os instintos naturais, em uma palavra, o 'altruísmo' — foi o que se chamou até agora de moral."

"A primeira coisa que levo em conta ao 'testar' uma pessoa é saber se ela possui uma percepção de distanciamento físico, se ela sempre enxerga uma hierarquia, um grau, uma ordem entre os seres humanos, se consegue distingui-los; é isso que a torna um gentilhomme. Em qualquer outro caso ela pertence, inexoravelmente, ao grupo dos que têm coração altruísta, uma definição bastante benevolente de canaille."

"O necessário não me ofende, o amor fati é a minha natureza mais íntima."

"Obedeço à minha natureza dionisíaca, que não separa o 'não-fazer' do 'dizer sim'. Sou o primeiro imoralista; e, assim, o destruidor par excellence."

(Friedrich Nietzsche. in Ecce Homo)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Soneto LXXXIII


Deixaste os devaneios para trás;
Não foste tudo aquilo que sonhavas;
Sabias muito menos que pensavas;
Nem mesmo esperavas algo mais.

O mundo se mostrou bem mais voraz;
Não deste um passo além de onde estavas;
Aquela fortaleza que ostentavas
Desfez-se num só sopro, tão fugaz.

O tempo derradeiro ainda escoa;
O corpo, que definha combalido,
Padece um desalento duradouro.

Um último vagido ainda ecoa;
A mente já no mar do desvalido
Navega sem nenhum ancoradouro.

Eliton Meneses

domingo, 6 de outubro de 2019

Soneto LXXXII

                                      Zu Nietzsche

Um bigode munido de um martelo,
Candidato loquaz a Anticristo,
Pretendeu derrubar tudo já visto,
Convidando a história a um duelo.

Desdenhava de tudo que é singelo:
Altruísmo, moral, razão e Cristo.
Pensador sob a aura de Mefisto,
Pregador do instinto como belo.

"Super-homem", vaidoso, prepotente,
Desferiu na cultura a verve insana,
Aturdido por ódios viscerais.

Não passou muito embora de um doente,
Ressentido da força mais humana:
O amor que nos faz mais que animais.

Eliton Meneses

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Crepúsculo dos ídolos : Nietzsche


"Somente como meio de defesa empregam a dialética os que não têm outra arma."

"(...) toda moral de aperfeiçoamento, inclusive a moral cristã, foi um erro."

"Ver-se obrigado a combater os instintos é a fórmula da decadência, enquanto que, na vida ascendente, felicidade e instinto são idênticos." 

"A razão é a causa de falsearmos o testemunho dos sentidos."

"(...) nos vingamos da vida com a fantasmagoria de uma vida distinta, de uma vida melhor."

"Em todas as épocas o peso da disciplina foi posto a serviço do extermínio (da sensualidade, do orgulho, do desejo de dominar, de possuir e de vingar-se). Mas atacar a paixão na sua raiz é atacar a raiz da vida; o processo da Igreja é nocivo à vida."

"Todo o bem procede do instinto e é por conseguinte leve, necessário, espontâneo."

"Os homens foram considerados livres para se poder julgá-los e castigá-los, para se poder declará-los culpados."

"O cristianismo é uma metafísica de verdugos."

"A ideia de Deus foi até agora a maior das objeções contra a existência." 

"O juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem."

"(...) na luta contra o animal, torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A Igreja compreendeu isso perfeitamente: corrompeu o homem, tornou débil e reivindica o mérito de tê-lo tornado melhor."

"(...) o aspecto geral da vida não é a indigência e a fome, mas, ao contrário, a riqueza, a opulência, até, caso se queira, uma absurda prodigalidade; onde há luta é pela dominação."

"(...) quando se sente de qualquer modo deprimido, o homem percebe a proximidade de algo feio. Seu sentimento de potência, sua vontade de potência, sua altivez, sua coragem, tudo isso diminui com a feiura e cresce com a beleza."

"A história dos desejos tem sido até agora a parte vergonhosa do homem."  

"As lamentações jamais valem algo, procedem sempre da debilidade. Não há diferença essencial entre atribuir nosso próprio mal-estar aos demais, como faz o socialista, ou atribuí-lo a nós mesmos, como faz o cristão."

"O homem que se torna altruísta é um homem acabado."

"A diminuição dos instintos hostis e que mantêm a desconfiança alerta — e esse seria em todo caso nosso progresso — não representa senão uma das consequências da diminuição geral da vitalidade."

"O homem livre, e muito mais o espírito livre, pisoteia essa espécie de bem-estar desprezível com que sonham os merceeiros, os cristãos, as vacas, as mulheres, os ingleses e demais democratas. O homem livre é guerreiro."

"A filosofia grega é a decadência do instinto grego." 

(Friedrich Nietzsche. in Crepúsculo dos ídolos) 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Frase do mês


"To be kind is more important than to be right. Many time, what people need is not a brilliant mind that speaks but a special heart that listens." (F. Scott Fitzgerald)

Deserto


Sem conversa
Sem encontro
Sem carinho
Sem poesia
Sem canto
Sem arte
Sem mar
Sem riso
Sem voz
Sem sol
Sem lua
Sem ela
Sem mim
Sem nada.

Eliton Meneses

domingo, 29 de setembro de 2019

Redes sociais






O primeiro print é do status do Instagram da Amélia Rocha; o segundo é de um comentário do Leonardo Pildas ao poema Trava-língua, no Facebook, e o terceiro é o da resposta da Aury à felicitação pelo seu aniversário, também no Facebook. Somente quem conhece Amélia, Pildas e Aury sabe o significado dessas alusões...

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Trava-língua


Mundo tépido, bicho lépido, homem intrépido;
Forma pálida, norma válida, chuva cálida;
Tempo tétrico, assimétrico, peixe elétrico;
Gosto ácido, vento plácido, peito flácido;
Olho míope, oh! Calíope! pobre etíope;
Quadro erótico, lábio exótico, bem neurótico;
Ar profético, voto ético, afonético;
Fosso quântico, vô romântico, vão semântico;
Mais um vândalo, cheiro sândalo, bofe escândalo;
Quanto cúmulo, mais acúmulo, foi pro túmulo.

Il Principe : Machiavelli


"(...) il tempo si caccia innazi ogni cosa, e può condurre seco bene come male e male come bene."

"(...) le iniurie si debbano fare tutte insieme, acciò che, assaporandosi meno, offendino meno; e benefizii si debbano fare a poco a poco, acciò si assaporino meglio."

"(...) il populo desidera non essere comandato nè oppresso da' grandi, e li grandi desiderano comandare e opprimere el populo."

"(...) a uno principe è necessario avere el populo amico; altrimenti non ha, nelle avversità, remedio."

"E la natura delli uomini è, così obligarsi per li benefizii che si fanno come per quelli che ricevano."

"E principale fondamenti che abbino tutti li stati, così nuovi come vecchi o misti, sono le buone legge e le buone arme."

"Nessuna cosa fa tanto stimare uno principe, quanto fanno le grandi imprese e dare di sè rari esempli."

"È ancora stimato uno principe, quando elli è vero amico e vero inimico; cioè quando, sanza alcuno respetto, si scuopre in favore di alcuno contro ad un altro."

"E la prima coniettura che si fa del cervello di uno signore, è vedere li uomini che lui ha d'intorno."

"(...) li uomini sono molto più presi dalle cose presente che dalle passate."

(Il Principe, Niccolò Machiavelli)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Soneto LXXXI


Muito antes de sermos o que somos,
Fomos bichos ferozes, primitivos;
Enredados em fluxos instintivos,
Procuramos não ser o que já fomos.

As entranhas dos nossos cromossomos
Guardam marcas de tempos aflitivos;
A despeito dos tantos lenitivos,
Somos muito mais fera que supomos.

Possuímos furtivos atavismos,
Uns desejos sublimes enlaçados
Com arroubos latentes destrutivos.

Percorremos complexos silogismos,
Cultivamos amores elevados,
Vez em quando sem freios efetivos.

Eliton Meneses

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Soneto LXXX


Foi um sismo que nunca havia visto;
Uma flor que de tudo o mais destoa;
Uma voz que distante ainda ecoa;
O encontro mais terno e imprevisto.

Sinuoso, complexo, mas benquisto;
Faz um mundo de cores meio à toa;
É mais livre uma ave quando voa,
Mesmo quando o universo se faz misto.

Todavia, voara céu adentro,
Muito afoito, ciente do perigo,
Cada vez mais distante de algum centro.

À procura quiçá de algum abrigo,
Divisou por encanto fora e dentro
A lanterna de um sábio bem antigo.

Eliton Meneses

sábado, 14 de setembro de 2019

Soneto LXXIX


Andei por muita légua e já não vi floresta;
Somente cerca, gado e árvores cortadas;
O céu, um fosco gris, as nuvens deformadas;
Fumaça a encobrir as ambições funestas.

Os animais corriam em busca do que resta;
Os índios lamentavam as tabas devastadas;
Um parvo inda nutria as ilusões passadas;
A Terra consumida em chamas indigestas.

O sol se apagava a milhas de distância;
Um grito de socorro ecoa pelo mundo;
Ninguém pode negar um tal paroxismo.

A Amazônia tem tamanha importância;
Não pode sucumbir a sopro moribundo,
Nem fazendeiro rir à beira do abismo.

Eliton Meneses

domingo, 8 de setembro de 2019

Elegia


Eu me pego voltando na história,
Recordando de tudo que passou;
Tenho tudo guardado na memória,
Desde quando o cupido nos flechou.
Não é fácil o caminho da razão,
Quando a corda nos ata o coração.

Lembro ainda a primeira ligação,
De manhã a caminho do trabalho;
O bom dia discreto, a emoção,
Certo filme, o sorriso, o ato falho...
Foi aquele o primeiro carnaval
Da mudança que nunca vira igual.

Uma foto surgiu meio do nada,
Numas férias sem quase algum contato,
A primeira semente foi plantada,
Quando tudo inda era abstrato.
Foi decerto um arroubo inconsciente,
Que tornou toda a vida diferente.

Logo após veio o seu aniversário;
Um convite indiscreto, um encontro;
Desenhamos qual era o cenário,
O princípio do amor em seu confronto.
Foi um misto de susto e de alegria,
Julieta e Romeu, quem sabe um dia.

A saudade apertava a toda hora;
Sol a pino no fim de um outubro;
Não dá mais, era tempo de ir embora,
De repente o sinal tornou-se rubro.
Todo o mundo em volta tão opaco;
Coração destroçado, só o caco.

O amor foi guardado nas caixinhas,
No silêncio esquivo de um bloqueio;
Apagara o canal, sem entrelinhas,
O real converteu-se em devaneio.
Nem o tempo comprido apagou
A saudade ardente que ficou.

Veio então um estranho fim de ano;
Um céu gris, todo quadro desbotado;
A certeza do duro desengano;
Uma noite inteirinha acordado.
A canção argentina recordava
Quem não mais o percurso acompanhava.

Eis que surge do acaso um convite;
Falta um dia apenas para vê-la;
A saudade passara do limite,
Não havia recurso pra contê-la.
Encontrei-a rápido, mas tão linda
Que a angústia que havia dei por finda.

Logo à noite já veio o desbloqueio;
Num instante a noite se fez dia;
Uma moça sentada num passeio,
À espera de alguém na fantasia,
Acendeu todas luzes do Natal;
Me senti muito mais que especial.

Uma frase saudou o novo ano;
Bem distante e ainda afastado;
Uma flor de metal me fez humano,
Caminito me viu apaixonado.
Dois coqueiros enfim em frente ao mar
Conjugaram pra sempre o verbo amar.

Eliton Meneses

sábado, 7 de setembro de 2019

Il Gattopardo : Tomasi di Lampedusa


"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi."

"Ho capito benissimo: voi non volete distruggere noi, i vostri 'padre'. Volete soltanto prendere il nostro posto."

"L'efficacia della confessione non sta solo nel raccontare i fatti, ma nel pentirsi di quanto si sia commesso di male."

"E no rimase che l'oscurità come ogni altra sera, da sempre."

"L'amore, Eccellenza, l'amore è tutto, ed io lo posso sapere."

(Il Gattopardo. Tomasi di Lampedusa)