sábado, 15 de setembro de 2018

Ballade des dames du temps jadis


Dictes moy où, n'en quel pays,
Est Flora, la belle Romaine;
Archipiada, ne Thaïs,
Qui fut sa cousine germaine;
Echo, parlant quand bruyt on maine
Dessus rivière ou sus estan,
Qui beaulté ot trop plus qu'humaine?
Mais où sont les neiges d'antan?
Où est la très sage Helloïs,
Pour qui fut chastré et puis moyne
Pierre Esbaillart à Saint-Denis?
Pour son amour ot cest essoyne.
Semblablement, où est la royne
Qui commanda que Buridan
Fust gecté en ung sac en Saine?
Mais où sont les neiges d'antan?
La royne Blanche comme un lis,
Qui chantoit à voix de seraine;
Berte au grant pié, Bietris, Allis;
Harembourges qui tint le Maine,
Et Jehanne, la bonne Lorraine,
Qu'Englois brulerent à Rouan;
Où sont elles, Vierge souvraine?
Mais où sont les neiges d'antan?
Prince, n'enquerez de sepmaine
Où elles sont, ne de cest an,
Qu'à ce reffrain ne vous remaine:
Mais où sont les neiges d'antan?

(François Villon)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Soneto LX


Corre o sol pelo céu azul-marinho;
Varre a barca na praia a ventania;
Vem de longe, suave, a melodia;
Nem se escuta do mar o burburinho.

Bate as asas na tarde um passarinho;
Uma flor faz completa a harmonia;
No ameno esplendor do fim do dia,
Dois coqueiros se abraçam com carinho.

Da cabana suspira com saudade;
Não sacia a beleza o seu desejo,
Mais queria era tê-la em suas mãos.

Seja sonho, loucura ou realidade,
Cedo ou tarde haveria algum ensejo,
Pois desejos de amor nunca são vãos.

Eliton Meneses

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O NOVO SEMPRE VEM?


É muito estranho ver jovens, na flor da idade, flertando com o que há de pior e mais velho na política. Jovens que, naturalmente, ao menos por toda uma ebulição hormonal, deveriam estar pensando em mudar o mundo, estejam justamente pensando em resgatar o pior da experiência humana, encarando o outro com intolerância, tratando-o como inimigo, desejando destruí-lo pela força. Jovens – inclusive o sobrinho, o primo segundo, o estagiário de Direito (sic), todos com menos de vinte anos – que votam em Bolsonaro, uma excrescência política que incorpora como ninguém a intolerância, o preconceito, a violência como uma panaceia para todos os males, a ignorância travestida de senso comum, tudo isso em um sujeito (minha nossa!) que não emenda com coerência três frases de um discurso. Do Hitler pode-se dizer que era um gênio do mal, um orador, um estrategista político e militar habilidoso, mas o que dizer do Bolsonaro? Bolsonaro é apenas um idiota, um sujeito muito limitado intelectualmente, extremamente insensível, além de arrogante, truculento e desagregador; enfim, um ser humano ridículo. O que faria as pessoas se agarrarem a Bolsonaro como a uma tábua de salvação? Não precisa ser psicólogo para saber que há algo relacionado ao medo e à desilusão, mas o medo e a desilusão é até natural que façam de pessoas de mais idade sujeitos mais acomodados e distantes do outro; no entanto, o jovem, por natureza, mesmo com medo e desiludido, não deveria cair na desesperança e na tentação do ódio, não deveria abraçar o primeiro sem-noção que promete a solução fácil dos problemas complexos atuais com fórmulas já fracassadas sistematicamente ao longo da história. Os jovens tendem naturalmente à tolerância, à sensibilidade e à inteligência. É com essas forças que normalmente constroem o novo... Aliás, em que novidade está pensando a nossa juventude? Que norte pretende adotar? Quem são atualmente os seus referenciais e as suas fontes de inspiração? Houve épocas em que os jovens se inspiravam em Cristo, em Gandhi, num filósofo qualquer ou até mesmo num cantor de rock que pregava a paz... Em quem a juventude atual se espelha? Onde está sendo plantado o novo? Em quem se inspira o jovem que vota no Bolsonaro? Bolsonaro é o retorno à barbárie, à lei do mais forte, do olho por olho, da violência e da intolerância, o que há, enfim, de mais velho e tosco da experiência humana. Bolsonaro é o nosso inconsciente primitivo sem domesticação. Bolsonaro é uma caverna empoeirada e coberta de teia de aranha que deveria gerar repulsa no jovem. Bolsonaro é o velho (mais velho) e não o novo! O novo ainda não apareceu e cabe aos jovens construi-lo, mesmo com medo e desilusão! 

sábado, 1 de setembro de 2018

RERUM NOVARUM

"Todo o conjunto de representações, conceitos e elos que mantinham unido o nosso mundo estão se dissolvendo e entrando em colapso como um quadro de sonho. Prepara-se uma nova fase do espírito. Especialmente a filosofia deve dar as boas-vindas a essa nova fase e reconhecê-la, enquanto outros, que inutilmente se opõem a ela, agarram-se ao passado." (Hegel)

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

FRASE DO MÊS


"Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis." (Drummond)

AMISTAD x AMOR


"Es que la amistad no necesita frecuencia. El amor sí. (...) El amor está lleno de ansiedades, un día ausente puede ser terrible, pero yo tengo tres o cuatro amigos a los que veo una o dos veces al año. (...) La amistad puede prescindir de la confidencia, pero el amor no. Si en el amor no hay confidencia, uno ya lo siente como una traición." (Borges)

ELEIÇÕES 2018


Haddad Presidente 13
Camilo Governador 13
Anna Karina Senadora 505
Pastor Simões Senador 500
Luizianne Deputada Federal 1313
Renato Roseno Deputado Estadual 50500

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Soneto LIX


Era ainda carente de amparo;
Relutava fitar além do muro;
Persistia com medo do escuro,
Apesar de julgar-se muito raro.

Confundia desdém com despreparo;
Espantava no sonho o falso auguro,
Quase nunca sentia-se seguro;
Precisava era mesmo de reparo.

Sua fala loquaz era canhestra;
Lucubrava a esmo pela destra,
Desatando a pior das suas feras.

Preferia espojar-se em plena lama;
Ruminar noite e dia amarga grama,
À espera quicá do fim das eras.

Eliton Meneses

sábado, 25 de agosto de 2018

PULCRO



– Que linda criancinha! 
– Ontem postei um belo pôr-do-sol e você não deu a mínima...
– O que é o sol diante de uma criança?
– Sem o sol não haveria nenhuma criança...
– A beleza não precisa criar; a beleza precisa simplesmente estar...

domingo, 19 de agosto de 2018

JANDAÍRA


Quando estava sóbrio, Jandaíra era tímido e acabrunhado. Andava calado, esquivo, um tanto sisudo. O difícil era encontrá-lo sóbrio... Seu último porre durou dois meses ininterruptos. Era torcedor do Botafogo, um dos únicos torcedores do alvinegro carioca na pacata vila da Palma; o Botafogo havia se sagrado campeão depois de vinte anos de jejum e não haveria pretexto melhor para cair na cachaça! Rodou então todos os bares da cidade numa euforia contagiante. 
– Dá-lhe, dá-lhe, Fogão!! É Botafogo ou num é??
Com a mesma roupa, a camisa alvinegra desbotada, o calção rasgado, a chinela com um prego, seguia pelas ruas feito um louco para desespero de sua pobre mãe idosa. Dona Hilda procurava em vão acompanhá-lo. Pedia aos bodegueiros para não vender cachaça para o filho; nada obstante, nunca faltava cana no mercado.
Às vezes o alcançava e tentava convencê-lo a ir para casa, mas ele a cobria de ofensas.
–  Sai daqui, Caninana! Vai-te embora, Satanás! 
Dona Hilda voltava triste e preocupada para casa. O que faria com a pequena mercearia do filho? Fechada, as coisas vencendo, sem receber e sem pagar... O filho estava perdido no alcoolismo. 
No final da segunda semana de embriaguez, Dona Hilda conseguiu finalmente levar o filho para casa. Ao chegar em casa, porém, Jandaíra foi recepcionado pela irmã na janela: 
– Vai dormir, Papudim!!
Ferido nos seus brios etílicos, Jandaíra retrucou a ofensa: 
– Vai-te embora, Santanás! Da fruta que eu gosto tu chupa até o caroço!!
A irmã não se conteve e bateu-lhe a porta na cara. Diante disso, Jandaíra deu meia volta e encontrou mais uma motivação para seguir sua cruzada etílica. 
Jandaíra estava decrépito, magro, pálido, não dizia coisa com coisa. Dona Hilda continuava atrás dele, não desistia do filho, mesmo com as ofensas que sofria.
– Vai-te embora, Caninana! Tu quer é frescar! 
Era tempo de eleição e um dos candidatos a prefeito viu em Jandaíra o entusiasmo que faltava ao seu eleitorado e fez dele um dos símbolos da sua campanha vitoriosa.
– Dá-lhe, dá-lhe Chico Bão!! É Chico Bão ou num é??  
Passada a eleição, sem mais um tostão furado no bolso, Jandaíra começou a recobrar a sobriedade, não porque o quisesse, mas porque o político sumiu e os bares já não mais lhe vendiam fiado. Dona Hilda então o convenceu a voltar para casa e, como a irmã não estava, conseguiu entrar sem problema e deitar na rede já previamente armada para um sono profundo sem prazo determinado para despertar.

domingo, 12 de agosto de 2018

DIÁLOGO


Eleumar Vaz: Doutor, o comunismo para que funcione é necessário que todos pensem de forma igual, ou sejam forçados a aceitar a vontade estatal, e isso só se consegue com forte repressão, cerceamento das vontades individuais, da liberdade de pensamento e associação, e com muita violência simbólica e em alguns casos, física. Diga me se não é assim, e se assim sendo, seria esse um sistema que pode viabilizar a felicidade e ser considerado justo?

Eliton Meneses: O comunismo é uma utopia, amigo! As utopias não são feitas para que as alcancemos, mas para que continuemos a caminhar. Não considero que vivamos no melhor dos mundos possíveis nem que a história tenha terminado. A busca por um mundo melhor continua, seja para alcançar a utopia do comunismo, para aqueles que acreditam na natureza humana, seja para alcançar uma outra possibilidade, para aqueles que não acreditam na bondade natural. Só espero que o amigo não esteja conformado e satisfeito com o capitalismo avançado mercadológico dos nossos tempos, crente de que ele é a página final da história... Tudo bem que vc não concorde com o caminho do comunismo, mas nesse caso teria duas opções: ou achar que já vivemos no melhor dos mundos ou pensar numa alternativa um pouco melhor e colaborar para a construção dela... Abraço!

Eleumar Vaz: Doutor. Obrigado pela resposta esclarecedora de seu pensamento e pela consideração em responder me. Quando vier a Coreaú, gostaria de ter um dedo de prosa com você, sem dúvida será esclarecedor para mim. Pessoalmente acredito ser mais fácil corrigir os erros do capitalismo do que os do consumismo, mas de fato o que acho que seria o mais próximo do ideal é o estado de bem estar social, ideia vigorante até a década de 80 e destruída por Regan e Thatcher, quando propuseram o neoliberalismo. O estado de bem estar social é o capitalismo com medidas compensatórias, é a ideia bem sucedida aplicada em alguns países europeus e asiáticos. É isso que eu almejo para o Brasil.

Eliton Meneses Ótimo, amigo! Em setembro vamos combinar uma prosa!!

Via Facebook

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

FIM DA HISTÓRIA?


"A mim parece que as democracias perderam, e perderam muito. Não obstante todos os excessos e os horrores, o comunismo sempre representa uma espera. Espera de poder corrigir os equívocos e as injustiças cometidas contra os mais fracos, espera de uma sociedade mais justa. Não digo que os comunistas tivessem pronta a solução, nem que a estivessem preparando. Longe disso. Mas havia a ideia de que a história teria um certo sentido. Que viver não seria um viver insensato. É uma ideia que os ocidentais tiveram no século XVIII e que Marx enraizou no pensamento do século XX. Não creio que perder essa ideia para sempre seja uma grande conquista espiritual. Até ontem, pelo menos, sabíamos para onde ia a história e que valor dar ao tempo. Agora vagamos perdidos, perguntando-nos a todo instante: 'Que horas são?'. Fatalistamente, um pouco como costumam perguntar os russos. Que horas são? Ninguém sabe." (Emmanuel Levinas, filósofo francês)   

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

LVIII


O vento frio adentra na janela;
A hora é tarda mas não vem o sono;
De nada importa estarmos no outono,
Se dentro em mim habita uma procela.

Os pensamentos inda seguem nela;
Quisera ser na vida um cão sem dono;
Poder curar pra sempre o abandono;
Compor com ela a dois uma novela.

A vida às vezes prega cada peça; 
Sutil nos embriaga em puro vinho,
Deixando-nos em meio à encruzilhada.

Devemos ser austeros na promessa;
Voltar de corpo e alma ao nosso ninho,
Enquanto ainda há luz no fim da estrada.

Eliton Meneses