quarta-feira, 21 de outubro de 2015

QUERIAM-ME


Queriam-me um verme, pueril, apático;
Queriam-me qualquer coisa, solitário, anêmico;
Queriam-me um rato, fugidio, miúdo;
Queriam-me ridículo, previsível, um fardo;
Queriam-me conforme, meia-boca, escravo;
Queriam-me sofrido, servidor, dramático;
Queriam-me não mais que um bonus pater;
Queriam-me macambúzio, burocrata, atávico;
Queriam-me hipocondríaco, vendedor, um trauma;
Queriam-me tanta coisa, mas eu não concordei com nada.

Eliton Meneses

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

PT x PSDB


O PSDB e o PT possuem projetos inconciliáveis. O primeiro é liberal; o segundo é social-democrata. Aliás, se houvesse rigor terminológico, o PT deveria denominar-se PSDB e o PSDB, PL (Partido Liberal). No atual cenário (federal, pelo menos), PSDB e PT não se unem porque estariam traindo seus princípios ideológicos fundamentais. Se houvesse essa união, algo muito estranho estaria ocorrendo, decerto a um preço que não seria interessante pagar... Noutro passo, o PMDB não possui princípio ideológico algum; não é nem direita, nem esquerda, nem centro... É o aliado de quem está no poder! Se Hitler, Stalin ou Kim Jong-un fossem guindados a presidente do Brasil, no atual contexto político, seria inevitavelmente sob o beneplácito do PMDB, partido que, por incrível que pareça, com todo esse seu viés tosco, consegue eleger reiteradamente a maioria tanto da Câmara, quanto do Senado. Ou seja, melhor do que torcer pela improvável aliança entre PSDB e PT, deveríamos torcer pela evolução do nosso eleitor, que confere legitimidade a um partido espúrio para barganhar, com quem quer que seja, seus próprios interesses, beneficiando-se de situações, como a que vivemos, em que todos são seus reféns, situação, oposição e o próprio povo brasileiro...
Quando digo que o PMDB não tem ideologia, quero dizer que não possui ideologia política definida. Sua ideologia oscila conforme a ocasião e a conveniência, o que equivale a não ter ideologia alguma. Isso, inclusive, é um reflexo da falta de projeto de país do partido.
Lula e FHC não são, respectivamente, o PT e o PSDB. Não dá pra comparar os partidos apenas comparando os ex-presidentes, porque o legado de cada um não diz totalmente com a questão partidária. FHC, por exemplo, embora eleito por um partido liberal, adotou muitas políticas sociais, por influência de sua própria formação, por influência da sua mulher (Dona Ruth Cardoso), por influência da tradição social do Estado brasileiro... FHC, v.g., adotou uma política de aproximação com os países latino-americanos, inclusive com Cuba (sic), o que é algo absurdo para os (neo)liberais... Há de se considerar, porém, que, além das idiossincrasias do FHC, que contam muito, deve-se contar também que o PSDB nasceu com uma pretensão, ao menos formalmente, social-democrata, que ainda tinha resquícios na era FHC, mas que é algo que se foi perdendo ao longo do tempo e hoje praticamente desapareceu no PSDB, assumindo o partido cada vez mais o viés neoliberal (Aécio Neves é um retrato fiel desse perfil ideológico, e é o presidente do partido...).
A questão ideológica macroestrutural, no modelo vertical de federação que adotamos, torna difícil comparar a política de um governo federal (Dilma) com a de um governo estadual (Alckmin). Os nossos estados-membros não têm como fazer vingar um modelo (neo)liberal sem o beneplácito do centro (Governo Federal). Desse modo, mesmo o mais liberal dos governadores não tem como fugir das amarras sociais que a legislação federal impõe. Por conta disso, o governo Alckmin (estadual) em vários aspectos se assemelha ao governo Dilma (federal), porque é o modelo federal que, entre nós, acaba sempre predominando. Mas só daria pra comparar um governo Dilma com um governo Alckmin, se este um dia fosse presidente da República.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

JÚLIO


O desprezo que Júlio nutria por seu país estava intimamente associado ao seu fascínio pelos Estados Unidos da América. Também admirava a Europa, pelas conquistas, pela revolução industrial, pelas monarquias ainda importantes..., mas o velho continente para ele vinha logo após os Estados Unidos. Em suas duas viagens internacionais tinha ido a Miami e New York, com os minguados recursos do ordenado municipal. Júlio não se afeiçoava à América Latina, para ele um bando de republiqueta indócil com regime populista. No Brasil, admirava a pujança econômica de São Paulo e a influência europeia do Sul, considerando todo o resto um atraso civilizatório. 
Na religião, Júlio era devoto de meia dúzia de santos e acreditava num deus com aparência de rei medieval, quase sempre sentado num trono suntuoso, com uma pesada coroa de ouro e um enorme cetro ricamente ornamentado. Esse deus dava ordens, punia severamente os pecados e resolvia, por meio da Igreja, os problemas materiais do seu rebanho. 
Júlio se achava um fosso de cultura; fizera precariamente o curso básico de inglês e posava com ares de poliglota. No português jamais acertava a crase e seus textos eram eivados de barbarismos e solecismos. Escutava música clássica e sucessos franceses e italianos, sem compreender nada. Era formado em Sociologia e ensinava em duas escolas de ensino médio. Durante a faculdade Júlio contestou fervorosamente o que considerava doutrinação marxista e recrudesceu sua ojeriza pelos esquerdistas, para ele uns parasitas alienados. No trabalho de conclusão de curso defendeu Israel, com unhas e dentes, em meio à morte de muitos palestinos.
Júlio acreditava piamente na meritocracia e no liberalismo econômico. Todos seriam iguais e poderiam, com esforço e perseverança, conquistar quaisquer objetivos na vida. O Estado não deveria se meter na economia nem fazer caridade com o dinheiro alheio; deveria basicamente cuidar da saúde e da educação e combater o crime. Os programas sociais eram assistencialismo eleitoreiro e as cotas no ensino superior uma violação à isonomia. Júlio também não era afeito aos movimentos sociais. Alguns deles não passariam de grupos criminosos. A única greve legítima era a dos professores. Professor Júlio considerava Che Guevara um facínora; Marx, um vagabundo incendiário; Evo Morales, um maconheiro... Seus ídolos eram Adam Smith e Ludwig von Mises e suas citações prediletas eram de ex-presidentes norte-americanos, de Margaret Thatcher e da imprensa conservadora nacional.
Júlio detestava o governo federal, conquanto, em seu pobre município, silenciasse quanto ao prefeito alinhado com aquele. Toda corrupção que carcomia a pátria estava no partido do governo federal. No Município, no Estado, na oposição ao governo federal, não havia corrupção ou era ela de somenos relevância... Urgia arrancar o mal pela raiz, restabelecer a ordem, banir os privilégios de pobres acomodados.
Não apoiava a intervenção militar, porque a achava contrária à doutrina do Estado mínimo, mas protestava nas ruas de mãos dadas com aqueles que a apoiavam. Júlio, mais que um neoliberal, era um reacionário; contrário à doutrina social da Igreja Católica, considerada comunista; ao casamento homoafetivo; aos direitos humanos, tidos como direito de bandido...
Júlio, professor satisfeito de uma decadente cidade sertaneja, é mais um militante da direita, que prega, na escola e na internet, que o sonho de mudar o mundo acabou e que as coisas devem permanecer como sempre foram... 

domingo, 4 de outubro de 2015

HAICAIS


i.
O leite materno  
Seiva verde de Mãe-Gaia  
Não é dom eterno.

ii.
Erga-se, algum,
Neste marasmo sem jeito,
Com canto incomum.

iii.
Perfil de estudante,
Mas, por pele e nascença,
Julgam: meliante!

iv.
Eterna alegria:
Sorrir como uma criança
Um instante por dia!

v.
Mundo divertido!
Que discursa honestidade...
E esquece, escondido.

vi.
O medo entretém
E enche os bolsos do que
Não ama a ninguém!

vii.
Que gente apressada!
Nem vê o irmão mendigo
Morto na calçada.

viii.
De fato, não sei
Se há mesmo liberdade
Na terra-sem-rei.

ix.
A dor lhe afligia.
Afogou-se em mágoa tola,
Morreu - covardia.

x.
Nasce o batalhão
De pessoas "informadas":
Gritam palavrão!

Benedito Gomes Robrigues

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

REFLEXÃO DO MÊS

"Não somos seus inimigos, de maneira nenhuma, e dizemos: sigam em frente, implantem o progresso, podem até abalar, isto é, abalar todo o velho que precisa ser refeito; mas quando for preciso, conteremos também os senhores nos limites necessários e assim os salvaremos de si próprios, porque sem nós os senhores apenas deixariam a Rússia fortemente abalada, privando-a da decência, e nossa tarefa é nos preocuparmos com a decência. Compenetrem-se de que somos indispensáveis uns aos outros. Na Inglaterra há os whigs e os tories, que também são indispensáveis uns aos outros. Então: nós somos os tories e os senhores, os whigs..." (Dostoiévski. in Os Demônios)   

AO MESTRE COM CARINHO: PROF. AGUIAR

EPISÓDIO CUMBE: CONTESTAÇÃO


terça-feira, 29 de setembro de 2015

ALTOS E BAIXOS


EM ALTA

A Festa de Setembro 2015 em Coreaú, que, depois de anos seguidos de decadência e marasmo, finalmente transcorreu como nos velhos tempos, tanto no aspecto religioso, quanto no social. 

EM BAIXO

A revoada da oligarquia Ferreira Gomes, com seu séquito fiel, para mais uma sigla partidária. A vítima da vez foi o PDT, do admirável caudilho Brizola, que deve estar inconsolável no túmulo... O PSTU que se cuide...

EM ALTA 

A Região Metropolitana de Fortaleza, que, na estimativa 2015 do IBGE, aparece como a mais populosa região metropolitana do Norte/Nordeste do Brasil, com 3.985.297 habitantes, ultrapassando as RMs de Salvador e Recife. 

EM BAIXA

A decadência do futebol cearense. O Ceará, com estrutura e orçamento de Série A, prestes a ser rebaixado para a Série C; o Fortaleza, no sexto ano consecutivo de Série C, coberto de traumas, roendo as unhas com medo de mais um vexame, agora diante de um famigerado Brasil... de Pelotas; o Icasa rebaixado, numa campanha bisonha, para a Série D; o Guarani de Juazeiro do Norte, na Série D, eliminado na primeira fase... O último que cair apague a luz... 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

HAICAIS


i.
Saia do inferno
De olhar a vida alheia
Sem amor fraterno.

ii.
Todos somos um.
No final desta história,
Sobrará nenhum.

iii.
Grilo saltitante
Foi na relva assassinado
Pelo caminhante.

iv.
Salve a utopia!
Inda que a alma humana
Sofra de miopia.

v.
Moço pervertido
Diz que é Deus e que agora
Tudo é permitido!

vi.
Vem descendo o trem
A encosta da montanha,
Cheio de desdém.

vii.
Gente indignada:
Mais um pobre torturado,
Sem ter feito nada.

viii.
Onde foi que errei?
Se pergunta o sábio mestre
Diante da grei.

ix.

Quando raia o dia?
Esta noite sufocante
Me dá agonia.

x.
Ouço uma canção:
Tanto sangue derramado
No meu coração.

Eliton Meneses

sábado, 26 de setembro de 2015

OS MACACOS DE KIPLING


"Os macacos haviam ocupado uma cidade, abandonada, libertando-se da inferioridade da floresta. 'Entretanto, não sabiam para que haviam sido destinados aqueles edifícios, nem como se servirem deles. Sentavam-se, às vezes, todos, em círculo, no vestíbulo que dava para a Câmara do Conselho Real; coçavam-se e catavam pulgas do pelo – e tinham a pretensão de ser homens... Como os macacos de Kipling, imitamos: eles – os homens; nós: os super-homens. Isto é, os que julgamos superiores a nós, os criadores, os requintados, os progressistas, os que estão, lá do outro lado do mundo, fazendo civilização. Cada vez que um desses fazedores de civilização se mexe para fazer uma revolução ou para fazer a barba, nós, cá do outro lado, ficamos mais assanhados do que a macacaria dos junglais. De uns copiamos a forma de governo e os modos de vestir, os princípios da política e os padrões das casimiras – os figurinos, os alfaiates e as instituições. De outros copiamos outras cousas: as filosofias, mais em voga, as modas literárias, as escolas de arte, os requintes e mesmo as suas taras de civilizados. De nós é que não copiamos nada. E temos assim com a bicharia do apólogo kiplinguiano esses pontos comuns: a inconsciência, a volubilidade e... o ridículo'." (Apud Raymundo Faoro. Os Donos do Poder. Vol. 2. 7.ª edição. Ed. Globo. p. 672)

domingo, 20 de setembro de 2015

FESTA DE SETEMBRO 2015



DECISÃO HISTÓRICA


O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira (17), por 8 votos a 3, declarar inconstitucionais normas que permitem a empresas doar para campanhas eleitorais.
Com isso, perdem validade regras da atual legislação que permitem essas contribuições empresariais em eleições.
A decisão do STF não proíbe que pessoas físicas doem às campanhas. Pela lei, cada indivíduo pode contribuir com até 10% de seu rendimento no anterior ao pleito.

N.B.: Aquele sujeito, arauto da moralidade, que ontem vociferava contra a corrupção específica de um partido, mas que hoje deplora a decisão do STF que proibiu doações de empresas para campanhas eleitorais, sem sequer perscrutar os fundamentos da decisão histórica, revela mais uma vez que a sua revolta nada tem a ver com o problema geral corrupção...