Depois de quase três anos, com o coração partido, eis que chegou a hora da partida. Saio de Aracati com uma mala carregada de saudade. Saio às pressas, sem tempo de me despedir. Melhor assim. Não sou afeito a despedidas. Devo muito a essa terra. Muitos amigos, a melhor fase da minha vida profissional, alguns lampejos (raros) de inspiração, o encontro com a luta social, o reencontro com a igreja de Cristo... Devo muito a Aracati. Não vou listar os amigos, seria injusto não mencionar todos. Sentirei falta do futebol da quarta na praça, do bate-papo do café entre uma audiência e outra, das muitas e muitas pessoas que tive o prazer de atender, com as quais mais aprendi do que ajudei, dos companheiros de trabalho, daqueles que tive a honra de visitar na prisão, daquela senhora que lacrimejou quando eu disse que era meu último dia na terra dos bons ventos... Em Aracati aprendi muito com a luta dos pescadores do Cumbe pela preservação do seu modo tradicional de vida contra as forças poderosas do capital, uma resistência heroica que transcende a força humana, aprendi que ainda existe uma igreja de Cristo comprometida com a causa do oprimido, aprendi que é só lutando, na luta organizada do povo, que se constrói um mundo novo, aprendi também que uma Defensoria Pública estruturada é uma poderosa ferramenta de transformação social. Ainda tinha muito a aprender, mas a vida é feita de mudanças e é chegada a hora de mais uma. É hora de voltar para perto de casa, depois de alguns anos dormindo solitário num quarto de hotel. É hora de voltar para perto da família, de vê-la todo dia e não mais só nos finais de semana. Meu filho está crescendo e não quero ficar muito tempo longe dele. Estou partindo, com o coração partido, mas ciente de que ficará em Aracati um pedaço de mim. Estou partindo para perto de casa, trocando 150 km por não mais que 25 km, para a região metropolitana de Fortaleza, para Pacatuba, podendo na prática dizer que voltei para casa. A saudade da partida só está sendo compensada pela alegria da chegada.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
O CAÇADOR DE CORRUPTOS?!
O sujeito apresenta cinquenta motivos, baseados em dados concretos, para se votar na Dilma e pede cinco (só cinco) para se votar em Aécio. E em resposta o que escuta?
– Petralhas! Corruptos! Petrolão! Fora Dilma! etc.
Ora, até onde se sabe, não pesa nenhuma denúncia (formal ou informal) contra a pessoa da Dilma! Partido por partido, no ranking da corrupção, o PT é o 9.º, enquanto o PSDB e o DEM ocupam, respectivamente, a 3.ª e 1.ª colocação. Isso mesmo, no dantesco pódio da corrupção partidária, ganharam a medalha de ouro e a medalha de bronze!
Então, o mérito do Aécio é só esse: a corrupção do PT?! Não tem uma só qualidade pessoal para se por numa balança comparativa entre ele e a Dilma? Estão querendo ganhar por W.O., é?
Acho que essa estória, mutatis mutandis, já contaram antes, no não tão longínquo ano de 1989, quando elegeram no embalo eufórico um sujeito "caçador de marajás", sem que a população, em geral, nem ao menos soubesse o que era um marajá! E tudo com o apoio de poderosos meios de comunicação, preocupados em exorcizar um fantasma "comunista" chamado Lula, que viria a ser, anos depois, o melhor presidente da história do Brasil...
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
DILMA x AÉCIO
Na primeira pesquisa para o segundo turno, tanto o Ibope quanto o Datafolha apontaram Aécio com 51% e Dilma com 49%. A situação é de empate técnico. A Revista Época, pertencente à Rede Globo, até que tentou forjar às pressas uma pesquisa fajuta em que um instituto desconhecido vinculado ao PSDB paranaense apontava uma diferença maior entre Aécio e Dilma, mas nem os próprios eleitores do tucano caíram nessa ardilosa "pegadinha"... Marina chegou a aparecer nas pesquisas com 34% das intenções de voto no primeiro turno. Depois de algumas semanas de debate eleitoral, em que o seu programa socialmente acanhado e o seu discurso contraditório foram devidamente descortinados, findou somente com 21% dos votos. No primeiro turno, Aécio foi poupado. Porém, com pouco mais de duas semanas para se evidenciar o seu projeto neoliberal e elitista, bem como para se fazer uma comparação entre o governo pífio de FHC e a era Lula/Dilma de muitos avanços sociais e econômicos, apostaria numa diferença final pró-Dilma entre 5% e 10%.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
PT X PSDB
Quem quiser criticar o PT pelo aspecto da corrupção, pode até criticá-lo, mas, por favor, por dever de coerência, vote, no 2.º turno, branco ou nulo, porque, no "ranking" da corrupção partidária, o PT ocupa apenas a 9.ª posição, ao passo que o PSDB é o 3.º partido com mais corruptos do Brasil!
Em verdade, o que diferencia basicamente PT e PSDB é um certo viés ideológico, mais à esquerda de um, e mais à direita de outro. Dilma é adepta do Estado social, intervencionista, altivo nas relações externas e protagonista na promoção da justiça social. Aécio Neves é produto do recrudescimento do neoliberalismo, reedição da doutrina do Estado mínimo, não-intervencionista, subserviente nas relações internacionais e coadjuvante na promoção da justiça social.
A elite, sobretudo a paulistana, está ansiosa pelo retorno do liberalismo, bem mais simpático aos seus interesses de classe. Os mais humildes, sobretudo do Norte e Nordeste, estão, de modo geral, satisfeitos com os programas sociais do Governo.
Haverá, enfim, neste segundo turno, mais um "round" da velha luta entre ricos e pobres no Brasil, vencida entre 1500 e 2002 por um lado e entre 2002 e 2014 por outro.
Cabe a cada um decidir – livremente – de que lado estará.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
DICA DE LEITURA
Acabo de ler com entusiasmo o livro "Um oásis dos menos favorecidos da sorte: a experiência do Serviço de Promoção Humana, Camocim/CE. 1962-1979", das coreauenses Vera Lúcia Silva e Ana Selma Silva de Aguiar, ambas graduadas em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú.
O livro conta parte da trajetória do Serviço de Promoção Humana em Camocim, entre os anos 1962 e 1979, período de criação, auge e declínio dessa grande experiência nascida a partir da prática religiosa libertadora e ecumênica, cujo objetivo principal era o desenvolvimento integral do ser humano, através de ações sociais de caráter comunitário, na sede e na zona rural de Camocim. Nas palavras das autoras:
"O Serviço de Promoção Humana (SPH), em Camocim, surge dentro do contexto dos anos 1960, momento em que o mundo passava por grandes transformações políticas, sociais e econômicas. Período também em que a Igreja Católica repensava sua ação junto ao leigo e à sociedade. No Brasil a fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1952, abriu caminho para a inserção da Igreja Católica do Brasil no campo social de forma mais intensa e fertilizou o campo para receber as discussões que viriam com o Concílio Vaticano II (1962-1965) e com as conferências episcopais latino-americanas de Medellín (1962) e Puebla (1979).
Construído e constituidor de seu tempo, o SPH nasce com o objetivo de promover o desenvolvimento integral das populações pobres da cidade de Camocim, criando os serviços de: Educação e Cultura, Saúde e Higiene, Recreativos, Trabalho (Produção, Alimentação e Habitação), Jurídicos, Póstumos, Comunicação Social e Transporte. De todos os serviços desenvolvidos, o mais importante foi a educação." (Ed. EGUS, Sobral. 2014. p. 147).
P.S.: Um dos organizadores do livro foi o padre e professor, coreauense, Benedito Genésio Ferreira, cofundador, atual presidente e uma das maiores expressões e referências do Serviço de Promoção Humana.
domingo, 28 de setembro de 2014
OTÍLIA
Quando viu Gonçalo triste e envergonhado, sentado na cadeira de rodas, com a mão estendida pedindo esmola na feira de domingo, Otília sorriu com sarcasmo e pensou consigo:
– Vai, bicho ruim, humilhar um padecente de Deus!
Gonçalo vivia próspero e saudável. Seu bar era bem frequentado e ele, aos sessenta anos, se gabava de nunca ter precisado ir a médico. Até que certa noite, ao tirar a calça depois de mais um dia de trabalho, percebeu uma ferida estranha na perda esquerda. Confiante, esperou que, com o tempo, a coisa sarasse, mas à medida que o tempo passava a ferida só crescia. Nem mesmo os medicamentos prescritos pelo dono da farmácia conseguiram conter o avanço da pereba. Finalmente, Gonçalo teve que ir a Sobral procurar ajuda médica. Depois de quatro meses de sofrimento, ele retornou à Palma, sem uma das pernas, prostrado numa cadeira de rodas e ainda sem nenhuma perspectiva financeira. Todo o dinheiro que economizara ao longo da vida despendera no tratamento; para agravar a situação, o bar não resistiu à sua ausência e os filhos tinham ganhado o mundo atrás de emprego. Dona Zilda ainda pediu que ele não fosse, mas, como a ajuda dos amigos era pouca, engoliu o orgulho e se dirigiu, empurrado por um pixote, para a entrada principal do Mercado Público, numa manhã de domingo.
Pouco antes da doença de Gonçalo, Otília estivera em seu bar pedindo esmola aos fregueses. O dono do bar, irritado com a presença incômoda, mas sem coragem de expulsá-la, apenas soltou-lhe uma indireta:
– Boa essa sua profissão, não é, Otília?! Enquanto a gente trabalha, você fica só nessa vadiagem!
Otília ficou possessa com a piada de Gonçalo, imediatamente recolheu a mão com que pedia os trocados e se retirou do estabelecimento, não sem antes responder à provocação:
– Pois tome cuidado, Seu Gonçalo, para você não morrer exercendo essa minha mesma profissão!
Gonçalo realmente morreu pedindo esmola e essa praga era somente mais uma das tantas de que Otília se vangloriava de ter botado durante a sua vida.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
BENEDICTUS EST
Eis a posse do novo psicólogo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), campus Tianguá: o camarada Benedito Gomes Rodrigues. Ele ainda estava no 7.º (sétimo) semestre do curso de Psicologia da UFC-Sobral, fez o concurso de maneira despretensiosa, chegou para a prova na iminência do fechamento dos portões, mas, aprovado em 2.º lugar, no seu primeiro concurso, antecipou, num único semestre, todo o restante do curso, colou grau um ano e meio antes do previsto, inscreveu-se no conselho profissional e obteve o diploma no último dia da entrega da documentação para a posse... Uma odisseia que findou numa sorridente assinatura de um termo de posse em um cargo público federal de nível superior. "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu." (Pessoa)
domingo, 21 de setembro de 2014
DILMA 13
O PT adotou o pragmatismo político, não priorizou as reformas estruturais, se distanciou das bases populares..., cometeu, enfim, muitos erros, mas, apesar dos atropelos, o PT ainda traz consigo um projeto bem definido para o Brasil, traduzido como desenvolvimento econômico com redução das desigualdades sociais. O desenvolvimento econômico tem sido acanhado, possivelmente devido à crise internacional, mas o êxito da política de redução das desigualdades é algo público e notório, que incomoda a nossa velha elite conservadora e reacionária – e seus asseclas –, por representar, depois de quinhentos anos de estagnação, o começo do fim do nosso modelo tradicional de casa-grande e senzala. É, sobretudo, por esse compromisso com a igualdade que voto Dilma!
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
POETA ANDARILHO
Teu palco é a rua,
És ébrio andante,
Percorres a noite
Na ponta dos pés.
Balanças inquieto,
Quase não bebeste
És ébrio andante,
Percorres a noite
Na ponta dos pés.
Balanças inquieto,
Quase não bebeste
A fina aguardente;
Não sei onde estás.
Pediste um cigarro;
O corpo envergado
É duro, uma pedra,
Quase não suporta
Teu fardo de amor.
Nuvem de fumaça;
Hesitas canhestro,
Não moras na rua,
Mas dentro de ti.
Entraste na vida,
Deveras, fecunda,
Detrás da certeza
Da luz da manhã.
És tido por louco;
Mas sei que tu és:
Poesia que corre,
Com água serena,
Um sopro de vida,
Que rega e alumia
O imenso deserto
Do escuro existir.
Eliton Meneses
Não sei onde estás.
Pediste um cigarro;
O corpo envergado
É duro, uma pedra,
Quase não suporta
Teu fardo de amor.
Nuvem de fumaça;
Hesitas canhestro,
Não moras na rua,
Mas dentro de ti.
Entraste na vida,
Deveras, fecunda,
Detrás da certeza
Da luz da manhã.
És tido por louco;
Mas sei que tu és:
Poesia que corre,
Com água serena,
Um sopro de vida,
Que rega e alumia
O imenso deserto
Do escuro existir.
Eliton Meneses
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
SEMANA APL DE DEBATES
Finalmente, um evento cultural (discreto, mas bastante simbólico) foi realizado paralelamente à Festa de Setembro de Coreaú. A Academia Palmense de Letras (APL), em parceria com a Rádio Princesa do Vale FM, realizou a 1.ª Semana APL de Debates, entre os dias 08 e 12 de setembro de 2014.
No dia 08, o tema foi formação social, com participação de Leonardo Pildas, Prof. Aguiar, Raimundo Marques e Manuel de Jesus. No dia 09, o tema foi economia local, com participação de Manuel de Jesus, João Alberto Teles e Mário Portela. No dia 10, o tema foi educação, com participação de Prof. José Mário, Manuel de Jesus e João Alberto Teles. No dia 11, o tema foi religiosidade, com participação de Leonardo Pildas, Prof. Aguiar e Fernando Deda. No dia 12, o tema foi juventude, com participação de Manuel de Jesus, Rantzal Frota, Benedito Rodrigues e Eliton Meneses.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
ANEL DE TUCUM
"O anel de tucum é um anel feito da semente de tucum, uma espécie de palmeira nativa da Amazônia. (...)
O anel tem sua origem no Império do Brasil, quando jóias feitas de ouro e outros metais nobres eram utilizados em larga escala por membros da elite dominante para ostentarem sua riqueza e poder. Os negros e índios, não tendo acesso a tais metais, criaram o anel de tucum como um símbolo de pacto matrimonial, de amizade entre si e também de resistência na luta por libertação. Era um símbolo clandestino cuja linguagem somente eles compreendiam.
Mais recentemente, a utilização do anel de tucum foi resgatada por fiéis cristãos, especialmente adeptos da teologia da libertação, com o objetivo de simbolizar a 'opção preferencial pelos pobres', especialmente por fiéis católicos após as Conferências Episcopais de Medellín e de Puebla.
(...) Dom Pedro Casaldáliga (...) explica da seguinte maneira a utilização do anel:
'Este anel é feito a partir de uma palmeira da Amazônia. É sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas conseqüências. Você toparia usar o anel? Olha, isso compromete, viu? Muitos, por causa deste compromisso foram até a morte'."
Fonte: Wikipédia
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
A LUTA PELO DIREITO
A Luta pelo Direito (no alemão: "Der Kampf ums Recht"), de Rodolf von Ihering, um dos maiores clássicos da literatura jurídica, defende a ideia de que o direito deve ser conquistado pela luta. Para Ihering, o Direito não é uma pura teoria, mas uma força viva, porquanto todos os direitos da humanidade foram conquistados na luta; uma luta permanente pelo direito, protagonizada por classes, instituições, indivíduos, etc.
A paz, segundo o jurista alemão, é o objetivo do Direito e a luta é o meio de atingi-lo. Como nas outras lutas, na luta pelo direito, não é o peso das razões, mas o poder relativo das forças postas que faz pender a balança.
Assim, é preciso saber que a conquista de direitos exige luta; luta que se faz com coragem e altivez, pois quem rasteja como um verme não pode se queixar de ser pisoteado (Ihering).
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
FESTA DE SETEMBRO
Vou andar légua tirana,
Gastar chinelo no chão,
No meio da caravana;
Irei para o meu rincão.
Minha terra pequenina,
No meio da caravana;
Irei para o meu rincão.
Minha terra pequenina,
Tu tens cara de menina,
Palma do meu coração.
Vale d'água cristalina,
No teu leito eu escorro,
Morena do pé-do-morro,
De feição tão feminina;
Na festa da padroeira,
Da virgem da Piedade,
Quero matar a saudade,
Dos parentes e da feira;
Nobre Coluna da Hora,
Bem diante da Matriz,
Tanto mais se fica fora,
Mais invade a cicatriz.
Minha velha cajarana,
Onde jaz o meu cordão,
No dulçor da tua cana,
Eu forjei meu coração.
Eliton Meneses
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