domingo, 28 de setembro de 2014

OTÍLIA


Quando viu Gonçalo triste e envergonhado, sentado na cadeira de rodas, com a mão estendida pedindo esmola na feira de domingo, Otília sorriu com sarcasmo e pensou consigo:
– Vai, bicho ruim, humilhar um padecente de Deus! 
Gonçalo vivia próspero e saudável. Seu bar era bem frequentado e ele, aos sessenta anos, se gabava de nunca ter precisado ir a médico. Até que certa noite, ao tirar a calça depois de mais um dia de trabalho, percebeu uma ferida estranha na perda esquerda. Confiante, esperou que, com o tempo, a coisa sarasse, mas à medida que o tempo passava a ferida só crescia. Nem mesmo os medicamentos prescritos pelo dono da farmácia conseguiram conter o avanço da pereba. Finalmente, Gonçalo teve que ir a Sobral procurar ajuda médica. Depois de quatro meses de sofrimento, ele retornou à Palma, sem uma das pernas, prostrado numa cadeira de rodas e ainda sem nenhuma perspectiva financeira. Todo o dinheiro que economizara ao longo da vida despendera no tratamento; para agravar a situação, o bar não resistiu à sua ausência e os filhos tinham ganhado o mundo atrás de emprego. Dona Zilda ainda pediu que ele não fosse, mas, como a ajuda dos amigos era pouca, engoliu o orgulho e se dirigiu, empurrado por um pixote, para a entrada principal do Mercado Público, numa manhã de domingo. 
Pouco antes da doença de Gonçalo, Otília estivera em seu bar pedindo esmola aos fregueses. O dono do bar, irritado com a presença incômoda, mas sem coragem de expulsá-la, apenas soltou-lhe uma indireta:
– Boa essa sua profissão, não é, Otília?! Enquanto a gente trabalha, você fica só nessa vadiagem! 
Otília ficou possessa com a piada de Gonçalo, imediatamente recolheu a mão com que pedia os trocados e se retirou do estabelecimento, não sem antes responder à provocação:
– Pois tome cuidado, Seu Gonçalo, para você não morrer exercendo essa minha mesma profissão!   
Gonçalo realmente morreu pedindo esmola e essa praga era somente mais uma das tantas de que Otília se vangloriava de ter botado durante a sua vida.  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

BENEDICTUS EST



Eis a posse do novo psicólogo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), campus Tianguá: o camarada Benedito Gomes Rodrigues. Ele ainda estava no 7.º (sétimo) semestre do curso de Psicologia da UFC-Sobral, fez o concurso de maneira despretensiosa, chegou para a prova na iminência do fechamento dos portões, mas, aprovado em 2.º lugar, no seu primeiro concurso, antecipou, num único semestre, todo o restante do curso, colou grau um ano e meio antes do previsto, inscreveu-se no conselho profissional e obteve o diploma no último dia da entrega da documentação para a posse... Uma odisseia que findou numa sorridente assinatura de um termo de posse em um cargo público federal de nível superior. "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu." (Pessoa)

domingo, 21 de setembro de 2014

DILMA 13



         O PT adotou o pragmatismo político, não priorizou as reformas estruturais, se distanciou das bases populares..., cometeu, enfim, muitos erros, mas, apesar dos atropelos, o PT ainda traz consigo um projeto bem definido para o Brasil, traduzido como desenvolvimento econômico com redução das desigualdades sociais. O desenvolvimento econômico tem sido acanhado, possivelmente devido à crise internacional, mas o êxito da política de redução das desigualdades é algo público e notório, que incomoda a nossa velha elite conservadora e reacionária – e seus asseclas –, por representar, depois de quinhentos anos de estagnação, o começo do fim do nosso modelo tradicional de casa-grande e senzala. É, sobretudo, por esse compromisso com a igualdade que voto Dilma!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

POETA ANDARILHO



Teu palco é a rua,
 És ébrio andante,
Percorres a noite
Na ponta dos pés.
Balanças inquieto,
Quase não bebeste
A fina aguardente;
Não sei onde estás.
Pediste um cigarro;
O corpo envergado
É duro, uma pedra,
Quase não suporta
Teu fardo de amor.
Nuvem de fumaça;
Hesitas canhestro,
Não moras na rua,
Mas dentro de ti.
Entraste na vida,
Deveras, fecunda,
Detrás da certeza
Da luz da manhã.
És tido por louco;
Mas sei que tu és:
Poesia que corre,
Com água serena,
Um sopro de vida,
Que rega e alumia
O imenso deserto
Do escuro existir.

Eliton Meneses

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SEMANA APL DE DEBATES



Finalmente, um evento cultural (discreto, mas bastante simbólico) foi realizado paralelamente à Festa de Setembro de Coreaú. A Academia Palmense de Letras (APL), em parceria com a Rádio Princesa do Vale FM, realizou a 1.ª Semana APL de Debates, entre os dias 08 e 12 de setembro de 2014. 
No dia 08, o tema foi formação social, com participação de Leonardo Pildas, Prof. Aguiar, Raimundo Marques e Manuel de Jesus. No dia 09, o tema foi economia local, com participação de Manuel de Jesus, João Alberto Teles e Mário Portela. No dia 10, o tema foi educação, com participação de Prof. José Mário, Manuel de Jesus e João Alberto Teles. No dia 11, o tema foi religiosidade, com participação de Leonardo Pildas, Prof. Aguiar e Fernando Deda. No dia 12, o tema foi juventude, com participação de Manuel de Jesus, Rantzal Frota, Benedito Rodrigues e Eliton Meneses.  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ANEL DE TUCUM



"O anel de tucum é um anel feito da semente de tucum, uma espécie de palmeira nativa da Amazônia. (...) 
O anel tem sua origem no Império do Brasil, quando jóias feitas de ouro e outros metais nobres eram utilizados em larga escala por membros da elite dominante para ostentarem sua riqueza e poder. Os negros e índios, não tendo acesso a tais metais, criaram o anel de tucum como um símbolo de pacto matrimonial, de amizade entre si e também de resistência na luta por libertação. Era um símbolo clandestino cuja linguagem somente eles compreendiam.
Mais recentemente, a utilização do anel de tucum foi resgatada por fiéis cristãos, especialmente adeptos da teologia da libertação, com o objetivo de simbolizar a 'opção preferencial pelos pobres', especialmente por fiéis católicos após as Conferências Episcopais de Medellín e de Puebla.
(...) Dom Pedro Casaldáliga (...) explica da seguinte maneira a utilização do anel:
'Este anel é feito a partir de uma palmeira da Amazônia. É sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas conseqüências. Você toparia usar o anel? Olha, isso compromete, viu? Muitos, por causa deste compromisso foram até a morte'."

Fonte: Wikipédia

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A LUTA PELO DIREITO



A Luta pelo Direito (no alemão: "Der Kampf ums Recht"), de Rodolf von Ihering, um dos maiores clássicos da literatura jurídica, defende a ideia de que o direito deve ser conquistado pela luta. Para Ihering, o Direito não é uma pura teoria, mas uma força viva, porquanto todos os direitos da humanidade foram conquistados na luta; uma luta permanente pelo direito, protagonizada por classes, instituições, indivíduos, etc. 
A paz, segundo o jurista alemão, é o objetivo do Direito e a luta é o meio de atingi-lo. Como nas outras lutas, na luta pelo direito, não é o peso das razões, mas o poder relativo das forças postas que faz pender a balança.  
Assim, é preciso saber que a conquista de direitos exige luta; luta que se faz com coragem e altivez, pois quem rasteja como um verme não pode se queixar de ser pisoteado (Ihering).  

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

FESTA DE SETEMBRO




Vou andar légua tirana,
Gastar chinelo no chão,
No meio da caravana;
Irei para o meu rincão.
Minha terra pequenina,
Tu tens cara de menina,
Palma do meu coração.
Vale d'água cristalina,
No teu leito eu escorro,
Morena do pé-do-morro,
De feição tão feminina;
Na festa da padroeira,
Da virgem da Piedade,
Quero matar a saudade,
Dos parentes e da feira;
Nobre Coluna da Hora,
Bem diante da Matriz,
Tanto mais se fica fora,
Mais invade a cicatriz.
Minha velha cajarana,
Onde jaz o meu cordão,
No dulçor da tua cana, 
Eu forjei meu coração.

Eliton Meneses

*****

domingo, 31 de agosto de 2014

FRASE DO MÊS



"Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. (...) Deus existe mesmo quando não há. (...) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo." (Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa)

sábado, 30 de agosto de 2014

GILMAR PAIVA NO CONFRARIA DE LEITURA




Gilmar Paiva é um anjo torto que resolveu ser gauche na vida. Amigo que tive a fortuna de conhecer há mais de quinze anos numa república de estudantes, Gilmar Paiva é um paradigma de intelectual orgânico, poeta de refinada sensibilidade, economista de inteligência privilegiada, militante da causa dos oprimidos, pensador autodidata, grande leitor... São incontáveis os predicados desse amigo dileto!
Gilmar Paiva foi ao Projeto Confraria de Leitura, do poeta e educador João Teles, ministrar uma palestra sobre a leitura. Com maestria, expôs para os jovens confrades o itinerário fascinante que começa no espanto, passa pela busca e finda com o encontro com a literatura.
No vídeo, Gilmar declama o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade, o seu primeiro espanto em face da arte literária!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

IMAGENS DO CEARÁ - BICA DO IPU



"Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.
A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.
O guerreiro falou:
— Quebras comigo a flecha da paz?
— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?
— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.
— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema."

José de Alencar (Iracema)

domingo, 24 de agosto de 2014

CAMINHO DA PRAIA



O dia ainda nem havia raiado quando Edmundo deu a partida da tropa. O comboio de oito burros e dois homens começava cedo sua jornada com destino à praia. Nos fardos e caçuás levavam rapadura, beiju e bolo manzape. Zé Bezerra estava com a saúde frágil. Depois de muitos anos de estrada, pensava em largar a lida do comboio. O terceiro ano seguido de seca castigava o sertão. Não fosse o verde da Ibiapaba, tudo estaria perdido. A mercadoria que descia da Serra Grande tinha um preço alto.
O caminho era longo. Dois dias de caminhada lenta. Da Palma seguiam pela Volta, Padre Linhares, Massapê, Santana do Acaraú, Marco, Bela Cruz, Cruz, até chegar no Acaraú. Era o caminho da praia.
No começo da jornada passaram por uma frente de emergência perto do Breguedof, mais à frente avistaram a pouca água do Açude da Volta, almoçaram sob a copa frondosa de um pé de umbu em Padre Linhares e, depois de um rápido cochilo, seguiram no sol a pino da tarde pela vereda estreita, escutando o canto estridente da cigarra.
Com a noite escura, arrancharam na fazenda de Seu Romualdo, entre Santana e o Marco. Seu Romualdo mantinha a hospitalidade, embora, desde a morte de Dona Maria e a ida dos filhos para Sobral, andasse meio desgostoso da vida. Na fazenda do velho amigo, os comboieiros ainda desfrutavam do jantar farto, cujo arremate era sempre um prato de coalhada com um pouco de farinha e açúcar. Não havia pagamento. Edmundo deixava umas rapaduras e uns beijus só como agrado.
Os comboieiros dormiam no alpendre até o cantar dos galos. Tomavam, então, um café quente e seguiam pela estrada silenciosa. No final do dia alcançariam a praia. No Acaraú, o comércio minguado só adquiria a mercadoria depois de muita negociação. O lucro era pouco. Levariam uns peixes na viagem de volta. Dariam uns quilos para Seu Romualdo.
Os comboieiros não sabiam que Seu Romualdo tinha falecido na noite seguinte àquela em que eles dormiram na fazenda. Eles não sabiam ainda que as pernas de Zé Bezerra não lhe permitiriam realizar uma nova jornada pela estrada da praia. Não sabiam também que aquele retorno para a Palma seria a derradeira jornada da tropa de Edmundo. Não sabiam que aqueles seriam os últimos passos do ciclo do comboio da região. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ALTOS E BAIXOS


EM ALTA

A força que move o ser humano a arriscar sua própria vida para salvar o outro. Na África, nem o ebola afasta os médicos sem fronteira da luta contra a doença. 

EM BAIXA

A barbárie que ainda insiste em perseguir o ser humano. Os vídeos que circulam na internet, de execuções sumárias e decapitações a sangue frio, revelam que o homem, com sua centelha de maldade, precisa cada vez mais alimentar o amor ao próximo... 

EM ALTA

A nova cultura de comemorar ou ao menos lembrar o aniversário alheio. Num passado próximo, pouca gente, em regra, lembrava do aniversário do outro, às vezes nem o próprio aniversariante. 

EM BAIXA

E eis que, em Coreaú, do final de 2012 para cá, toda uma interessante efervescência sociocultural sofreu um repentino eclipse total... Por que parou? Parou por quê?

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

MEA-CULPA


Ela entrou compenetrada na sala. Os olhos tremiam lacrimosos. Na mão segurava a certidão de óbito do filho. Não pensava em vingança. Não se importava com a justiça dos homens. Desejava somente voltar no tempo para abraçar mais uma vez o seu filho. O seu filho de vida tão adoidada, viciado em droga, autor de alguns delitos, mas seu filho, tão jovem, tão bonito, tão amado... Quanta saudade!  
Seu filho morto aos vinte anos. Três tiros à queima-roupa. O tráfico não perdoa delator. Ela não se perdoa por não ter atendido ao último pedido do filho. O dinheiro, a droga do dinheiro, ainda continua na gaveta do quarto. Não serve mais para nada. Nada trará o filho de volta. Devia ter tido a coragem. O arrependimento dói tanto quanto a perda do filho. Toda noite sonha com seus olhos suplicantes pedindo os trezentos reais. Seu filho precisava do dinheiro. Ele precisava realmente comprar uma arma para se defender...