quarta-feira, 27 de agosto de 2014

IMAGENS DO CEARÁ - BICA DO IPU



"Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.
A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.
O guerreiro falou:
— Quebras comigo a flecha da paz?
— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?
— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.
— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema."

José de Alencar (Iracema)

domingo, 24 de agosto de 2014

CAMINHO DA PRAIA



O dia ainda nem havia raiado quando Edmundo deu a partida da tropa. O comboio de oito burros e dois homens começava cedo sua jornada com destino à praia. Nos fardos e caçuás levavam rapadura, beiju e bolo manzape. Zé Bezerra estava com a saúde frágil. Depois de muitos anos de estrada, pensava em largar a lida do comboio. O terceiro ano seguido de seca castigava o sertão. Não fosse o verde da Ibiapaba, tudo estaria perdido. A mercadoria que descia da Serra Grande tinha um preço alto.
O caminho era longo. Dois dias de caminhada lenta. Da Palma seguiam pela Volta, Padre Linhares, Massapê, Santana do Acaraú, Marco, Bela Cruz, Cruz, até chegar no Acaraú. Era o caminho da praia.
No começo da jornada passaram por uma frente de emergência perto do Breguedof, mais à frente avistaram a pouca água do Açude da Volta, almoçaram sob a copa frondosa de um pé de umbu em Padre Linhares e, depois de um rápido cochilo, seguiram no sol a pino da tarde pela vereda estreita, escutando o canto estridente da cigarra.
Com a noite escura, arrancharam na fazenda de Seu Romualdo, entre Santana e o Marco. Seu Romualdo mantinha a hospitalidade, embora, desde a morte de Dona Maria e a ida dos filhos para Sobral, andasse meio desgostoso da vida. Na fazenda do velho amigo, os comboieiros ainda desfrutavam do jantar farto, cujo arremate era sempre um prato de coalhada com um pouco de farinha e açúcar. Não havia pagamento. Edmundo deixava umas rapaduras e uns beijus só como agrado.
Os comboieiros dormiam no alpendre até o cantar dos galos. Tomavam, então, um café quente e seguiam pela estrada silenciosa. No final do dia alcançariam a praia. No Acaraú, o comércio minguado só adquiria a mercadoria depois de muita negociação. O lucro era pouco. Levariam uns peixes na viagem de volta. Dariam uns quilos para Seu Romualdo.
Os comboieiros não sabiam que Seu Romualdo tinha falecido na noite seguinte àquela em que eles dormiram na fazenda. Eles não sabiam ainda que as pernas de Zé Bezerra não lhe permitiriam realizar uma nova jornada pela estrada da praia. Não sabiam também que aquele retorno para a Palma seria a derradeira jornada da tropa de Edmundo. Não sabiam que aqueles seriam os últimos passos do ciclo do comboio da região. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ALTOS E BAIXOS


EM ALTA

A força que move o ser humano a arriscar sua própria vida para salvar o outro. Na África, nem o ebola afasta os médicos sem fronteira da luta contra a doença. 

EM BAIXA

A barbárie que ainda insiste em perseguir o ser humano. Os vídeos que circulam na internet, de execuções sumárias e decapitações a sangue frio, revelam que o homem, com sua centelha de maldade, precisa cada vez mais alimentar o amor ao próximo... 

EM ALTA

A nova cultura de comemorar ou ao menos lembrar o aniversário alheio. Num passado próximo, pouca gente, em regra, lembrava do aniversário do outro, às vezes nem o próprio aniversariante. 

EM BAIXA

E eis que, em Coreaú, do final de 2012 para cá, toda uma interessante efervescência sociocultural sofreu um repentino eclipse total... Por que parou? Parou por quê?

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

MEA-CULPA


Ela entrou compenetrada na sala. Os olhos tremiam lacrimosos. Na mão segurava a certidão de óbito do filho. Não pensava em vingança. Não se importava com a justiça dos homens. Desejava somente voltar no tempo para abraçar mais uma vez o seu filho. O seu filho de vida tão adoidada, viciado em droga, autor de alguns delitos, mas seu filho, tão jovem, tão bonito, tão amado... Quanta saudade!  
Seu filho morto aos vinte anos. Três tiros à queima-roupa. O tráfico não perdoa delator. Ela não se perdoa por não ter atendido ao último pedido do filho. O dinheiro, a droga do dinheiro, ainda continua na gaveta do quarto. Não serve mais para nada. Nada trará o filho de volta. Devia ter tido a coragem. O arrependimento dói tanto quanto a perda do filho. Toda noite sonha com seus olhos suplicantes pedindo os trezentos reais. Seu filho precisava do dinheiro. Ele precisava realmente comprar uma arma para se defender... 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

NOSSA ERA PÓS-MODERNA



    "Enquanto para a sociedade de classes, da 'antiga' modernidade, o proletariado precisava ser mantido com um mínimo de condições de subsistência (daí o Welfare State), para a sociedade eficientista, da globalização pós-moderna, o pobre é responsabilizado e estigmatizado pela própria pobreza. Longe de produzir sentimentos de solidariedade, é associado ideologicamente ao que há de mais visivelmente negativo nas esferas nacionais, em escala planetária: superpopulação, epidemias, destruição ambiental, vícios, tráfico de drogas, exploração do trabalho infantil, fanatismo, terrorismo, violência urbana e criminalidade. As classes abastadas se isolam em sistemas de segurança privada. A classe média (que hoje abarca os operários empregados), num contexto de insegurança generalizada, cobra dos legisladores penas aumentadas para o criminoso comum." (Lindgren Alves, A Declaração dos Direitos Humanos na Pós-Modernidade)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

EDUCAÇÃO JURÍDICA POPULAR


Dentre outras funções institucionais, incumbe à Defensoria Pública a difusão e a conscientização dos direitos humanos, da cidadania e do ordenamento jurídico (Art. 4.º, III, da LC 80/94). Trata-se da tarefa conhecida como educação em direitos, uma relevante perspectiva do acesso à justiça atribuída à Defensoria Pública.
Ao contrário da orientação jurídica, que é casuística e possui a tríplice função de prevenir conflitos, solucioná-los pacificamente ou encorajar o litígio por intermédio da jurisdição, a educação em direitos é atribuição de caráter genérico, que consiste em informar, conscientizar e motivar a população necessitada, inclusive pelos diversos meios de comunicação, a respeito de seus direitos e garantias fundamentais.
A educação em direitos, num país de tamanhas desigualdades como o nosso, deve não apenas conscientizar a população de seus direitos, mas também ensiná-la a assumir postura crítica diante das distorções do sistema jurídico e incentivá-la a lutar por novos direitos, pois a justiça social, entre nós, depende muito da participação popular, sem a qual não há qualquer esperança de efetiva transformação social.  

sábado, 9 de agosto de 2014

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA














Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu andensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

JUSTA


Justa todo dia acordava bem cedo, tomava banho de água morna, bebia o café com leite acompanhado de uma tapioca e, depois de se despedir da esposa e dos filhos, seguia de carro para o seu trabalho no banco.
Além da simpatia e do senso de humor, Justa era também reconhecido pela eficiência profissional e pela refinada cultura. Às vezes, relacionava uma contrariedade corriqueira da agência com algum episódio bíblico:
– Cafarnaum! Cafarnaum! E você, Cafarnaum: será elevada até o céu? Não, você descerá até ao Hades!
Em momentos de aborrecimento, para impressionar colegas e clientes incautos, proferia o introito das Catilinárias:
– Quousque tandem abutere Catilina patientia nostra!
Ninguém entendia nada, mas supunha naquele sujeito baixinho, gordo e careca, um fosso de erudição. Com conhecimentos que não passavam dos rudimentos do inglês, do francês, do italiano e do espanhol, Justa adquiriu a fama de poliglota, a partir do suposto domínio de cinco idiomas e, pelas suas competências reais e imaginárias, foi galgando espaços na agência e majorando seu salário com gratificações cada vez mais generosas.
– O Captain! my Captain! our fearful trip is done! Chacun pour soi et Dieu pour tous! Se non è vero, è ben trovato! Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás! (...)
Quando alguém, em expressão de concordância, soltava um justamente, Justa logo atalhava:  
– Justa não mente!  
Justa era conhecido como o "papa-filas", tamanha a sua eficiência no atendimento do caixa. Enquanto os demais colegas, por preguiça, má-vontade ou inexperiência, realizavam um atendimento arrastado, para o desespero dos clientes, Justa desfazia uma fila de quarenta pessoas em pouco mais de uma hora.
Normalmente, Justa se empolgava com a própria celeridade e, entre um cliente e outro, bradava, com ironia e contentamento:
– Mais um atendimento ao molho pardo!
Os colegas de caixa, decerto, mais do que os clientes, se incomodavam com a presteza e a ironia do Justa. Um deles fez chegar ao gerente-geral uma reclamação anônima dando conta da forma incomum de um caixa chamar o cliente da fila.
Num final de expediente, Justa foi chamado à gerência-geral para uma conversa reservada, concluída com uma recomendação para não mais tratar os clientes daquela forma...
No expediente do dia seguinte, todas as atenções voltaram-se para o início do atendimento do Justa. Nos três primeiros atendimentos, Justa demorou um pouco mais do que o convencional, mantendo-se até então em total silêncio, o que levou os colegas à conclusão de que ele teria se inibido com a chamada de atenção; porém, depois de um rápido quarto atendimento, Justa finalmente quebrou o seu silêncio:
– Mais um atendimento ao molho branco! porque ao molho pardo deu problema...!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

FRASE DO MÊS



"A beleza salvará o mundo." 
            Fiodor Dostoievski

P.S.: Quadro "Cristo Morto" (1521), de Hans Holbein. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

SERTÃO



Nessa terra ressequida,
Tantas vezes esquecida,
Pouca água cai no chão;
De um povo resistente,
Desde muito padecente
Das agruras da estação.

Gente pobre oprimida,
Generosa e destemida,
De Luiz, rei do Baião;
Do forró, da simpatia;
De prece e de valentia:
Padim Ciço e Lampião. 

Terra do roceiro bravo,
Da peleja qual escravo,
Do vaqueiro de gibão.
Terra de tanta poesia,
De viola e cantoria,
Da festa de apartação.

Terra do caboco pardo,
Agarrado em duro fardo
Nas lidas da plantação;
De um povo inteligente,
E de mulherio decente;
De Lunga e Frei Damião.

Berço da mãe heroína,
E da doce cajuína,
De Alencar e de Tristão.
Terra de bastante glória,
 A mais fértil da história,
Conhecida por Sertão.

Eliton Meneses

sábado, 26 de julho de 2014

SEU LUNGA



No Centro de Juazeiro do Norte/CE, é fácil encontrar Seu Lunga. Todos sabem informar onde fica a sucata daquele que carrega a má fama de "homem mais ignorante do mundo", de qualquer sorte uma lenda viva da cultura popular nordestina. 
Avistei Seu Lunga sentado, solitário e compenetrado, na entrada de sua venda. Aproximei-me cauteloso. Um casal acabara de cumprimentá-lo e Seu Lunga, com indiferença, recusara-se a posar para uma fotografia. 
Tomei coragem e o saudei.
– Olá, Seu Lunga! É um prazer conhecê-lo!  
– Oba! Mais ou menos! Respondeu Seu Lunga. 
– Tem tudo no mundo na sua loja, não é, Seu Lunga?
– Não! Não tem elefante, nem trem, nem onça, nem avião...! Não tem tudo no mundo na loja, não!  
– Tudo bem, Seu Lunga! Mas o que o senhor recomendaria para a gente levar de lembrança do Juazeiro?
Seu Lunga pensou, coçou a cabeça, olhou para o interior da sua sucata e disse:
– Escolha você mesmo!
Percorri por alguns minutos o corredor estreito, em meio à enormidade caótica de bregueços, mas sinceramente não encontrei nada em especial que me despertasse o interesse. Por sorte, no retorno Seu Lunga mostrou um saco de anéis. Escolhi dois e paguei sete reais. Antes de me despedir, olhei no fundo dos olhos de Seu Lunga e vi um homem de alguma forma destroçado pela amargura e pela tristeza, muito diferente do folclórico sujeito impaciente tão cantado em verso e prosa no anedotário popular. Uma aura negra parecia envolvê-lo. Também me acabrunhei. Não tive ânimo para seguir a conversa, apenas perguntei se ele estaria disposto a tirar uma foto.
– Pode ser! Respondeu Seu Lunga, para minha surpresa. 
Logo depois de sair da sucata de Seu Lunga, algumas quadras depois, soube que ele, há dois dias, havia enterrado seu filho caçula e que o seu outro filho homem também havia morrido há apenas dez meses. 
Seu Lunga realmente estava tomado pela amargura e pela tristeza. Não conheci Seu Lunga, o lendário cabra impaciente do anedotário popular, mas o homem Joaquim dos Santos Rodrigues, um pai enlutado com a perda de dois filhos. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ELUCUBRAÇÕES CEREBRINAS



João Santos da Rocha era um poço de desilusão. Julgava-se um fracasso em tudo na vida. Tinha trabalho, dois diplomas, amigos, casa própria, carro novo na garagem, contas pagas, mas tudo no mundo o entediava. Dividia a casa com Calçado, seu confidente cachorro vira-latas. Depois que flagrou a namorada de infância aos beijos com o desafeto da escola, resolveu nunca mais confiar nas mulheres. Quando a insônia e a falta de apetite se lhe apresentaram no rosto encarquilhado refletido no espelho, procurou finalmente se aconselhar com um colega de trabalho.  
– O que você acha que eu devo fazer, Cardoso? 
– Tá na hora de tu arranjar uma mulher, homem! 
João julgava que uma mulher seria mais um agravo do que uma solução para os seus problemas. Teve contrariado que se socorrer de um médico, que, com o resultado dos exames, lhe prescreveu um calmante natural, a mudança de hábitos e uma dieta macrobiótica. 
Depois de uma leve melhora, as inquietações medonhas recrudesceram. Quando soube que Calçado fora acometido pela hidrofobia e que devia ser sacrificado, começou a nutrir a ideia de seguir o mesmo destino do seu sorumbático animal de estimação.   
Com a licença médica no emprego, pôs-se a caminhar dia e noite detido em devaneios e elucubrações cerebrinas. Seu mundo era um labirinto indecifrável, cinzento, sem cheiro e sem sabor. Desejava dar cabo àquele sofrimento sem fim. 
Certo dia tomou coragem e armou uma corda na goiabeira do quintal. Foi ao banheiro, encarou seu rosto sofrido no espelho, respirou fundo e, antes de cruzar a soleira, abandonou o plano suicida, ao avistar Calçado solto no quintal, debatendo-se num acesso furioso da hidrofobia, e ficar com medo de levar uma mordida do animal...    
João Santos da Rocha procurava respostas para suas muitas perguntas e, como não as encontrasse, cada vez mais se considerava no fundo de um poço sombrio. Num passeio pela beira-mar, porém, ficou surpreso com um sujeito na areia da praia que, sem nenhum dos braços, parecia ensaiar os requebros de uma dança inaudível. João, cuja sanidade física sempre fora impecável, foi ao encontro do sujeito para tentar desvendar a razão de tamanha felicidade.
– Ó, moço, diga-me o que lhe faz tão feliz, mesmo lhe faltando ambos os braços?  
– Feliz? Mas que feliz nada, moço! Eu só estou é querendo coçar o ás e não posso!
Três meses mais tarde, sem Calçado, mas com Sovela, sua nova cadela, João, em franca convalescença, resolveu pedir a veterinária em noivado.

sábado, 19 de julho de 2014

ALTOS E BAIXOS


EM ALTA

A criação do banco de fomento do BRICS para fazer frente à hegemonia financeira do FMI. Com capital inicial de apenas 50 bilhões de dólares, o banco nasce como uma mosca na sopa do imperialismo americano, mas que anuncia um início de rearranjo da geopolítica global.

EM BAIXA

Em Coreaú, o Matadouro Público continua interditado e em ruínas. A carne que as pessoas consomem vem dos chiqueiros dos quintais ou das moitas da beira do rio, sem qualquer controle sanitário. Enquanto isso, já iniciaram a reforma geral da Praça do Mercado, a mais nova e bem conservada da cidade... 

EM ALTA

A comemoração da conquista da Copa do Mundo pela seleção alemã com uma dança pataxó em pleno Maracanã. Será que fosse o Brasil o campeão alguém recordaria das nossas raízes culturais?! Enfim, a taça está bem entregue! 


EM BAIXA

Em Coreaú, o calcadão da cidade – uma das poucas opções de lazer – não tem um único banco sequer para as pessoas sentarem. Quanto custa instalar dez bancos de ferro e madeira ou mesmo de cimento? Por que tanta indiferença no enfrentamento de questão tão simples?

terça-feira, 15 de julho de 2014

FAIXA DE GAZA



Mortes, mortes e mais mortes! Morte do lado de lá. Muita morte do lado de cá, Faixa de Gaza, Palestina. Corpos de crianças espalhados pelo chão. A estupidez insana turva os olhos atônitos do mundo. Religião, geopolítica, ganância – muita ganância... Aliados mui esquivos. Eita, mundo dividido! Autodeterminação dos povos sem direitos humanos? Terrorismo palestino, ianque, árabe e judeu! Banho de sangue, dor sem fim. Tanto sangue derramado pela rua. Sangue inocente das crianças. Mais sagrado do que todos os estados, interesses e religiões. Até quando meu Deus?! Mundo, ó mundo, até quando? Até quando ficarás sentado? Até quando ficarás sentado no camarote confortável dessa peça infame da vida real?