sexta-feira, 11 de julho de 2014

ENCHENTE


A profecia dos antigos se cumpriu. As chuvas copiosas não cessavam nas cabeceiras do rio. As paredes dos três açudes romperam uma atrás da outra. A enchente inundou o vale inteiro durante sete dias e sete noites. A aflição tomou conta do povoado de Palmoca. Ainda era noite quando as águas começaram a ganhar as ruas. Não havia tempo para salvar os pertences. Seria perigoso ficar no povoado. Não se sabia que altura o rio alcançaria. Os mais assombrados diziam que cobriria a torre da igreja. A população inteira seguiu o cortejo desordenado até o alto do serrote. Lá de cima, viram a cidade como nunca tinham visto antes. As luzes dos postes clareavam a correnteza que varria as ruas estreitas, carregando tudo que havia pela frente. Na segurança do serrote, os olhos marejados de dez mil pessoas acompanhavam atônitos a impiedosa tragédia.  
Ninguém dormiu durante a noite. Quando o sol raiou, somente alguns sobrados não haviam sido completamente cobertos pelas águas. Alguns víveres foram chegando em barcos de lugares distantes. Muitas trempes improvisadas pontilharam todo o alto do serrote. Ninguém arredou pé, apesar dos muitos apelos para ganharem o mundo. Queriam resistir. Esperar a tempestade passar para retornar para a reconstrução de seus lares. Tinham raízes e recusavam cortá-las.  
Nos sete dias em cima do serrote, todos ao relento aguardaram com esperança as águas baixarem. Por medo ou por superstição, ninguém resolveu voltar antes da hora. O silêncio predominava no acampamento caótico. Alguns cortavam lenha e outros somente monologavam com o olhar fixo na terra inundada. As mulheres abanavam as trempes e as crianças, desanimadas, ficavam quietas por perto. 
Na reunião geral da primeira noite, algumas teorias tentaram explicar o cataclismo. Seria um castigo de Deus pelos pecados do povo; seria um episódio fortuito decorrente do aquecimento global; seria um defeito na construção dos açudes... Ao final, não houve consenso. Depois de muita exaltação, decidiram somente resistir até o sétimo dia e rezar um pai-nosso.
Como dizia a profecia, o povoado reapareceu intacto depois do sétimo dia. As paredes não haviam brejado, pouca coisa havia sido arrastada pela força da corrente; como por milagre, os danos materiais tinham sido mínimos. Não seriam necessários muitos esforços para retomarem a vida.  
Com pouco tudo voltou ao normal. O trauma foi sendo enfim esquecido. Não mais se falava da enchente. Cada um mergulhou no seu isolamento. Nunca mais o povoado voltou a se reunir. 

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