terça-feira, 25 de dezembro de 2018

ÁGUA


escorremos como a água,
água mole, água dura,
por um leito sinuoso
de um rio rumo ao mar.

somos água de uma chuva,
água limpa, água suja,
por caminho estreito e raso,
água-nuvem pelo ar.

somos água de um açude,
sob o sol evaporando;
na sangria resvalando, 
sem saber se aquietar.

somos água densa e turva,
escondida sob a terra,  
que aflora cristalina,
quando sabe se filtrar.

nós mudamos como a água,
ora pedra, ora vento,
mas seguimos sempre água,
que não para de mudar.

Eliton Meneses

domingo, 23 de dezembro de 2018

PLANO


Abriu o envelope deixado em cima da mesa e leu com atenção a carta de encaminhamento dos cartões do plano funerário. Tratava-se do último benefício aos associados do sindicato, anunciado com bastante euforia pelo presidente, com votos de feliz natal e próspero ano novo. O plano não geraria qualquer custo para o associado e cobriria cônjuge e filhos, conferindo uma ampla gama de benefícios, do transporte ao cemitério às coroas de flores...     
Pegou com estranheza o cartão com seu nome, leu com certo incômodo o número da funerária para o caso de emergência e não pôde deixar de imaginar com frio na medula uma situação trágica em que as pessoas encontravam aquele cartão na sua carteira. 
Tentou desviar o mau pensamento e passou para o cartão da sua esposa. Estava lá o nome dela completo, sua companheira de tantos anos, ainda tão jovem. A impressão de que a ideia de um plano funerário no Natal não foi uma boa ideia do sindicato ficou-lhe ainda mais notória. Natal é a celebração da vida e não da morte. Julgava consigo que era melhor que a morte envolvesse a imprevisibilidade não só na sua consumação, mas também nos atos dela decorrentes. Pagar por um enterro de alguma forma parecia atrair a morte, torná-la previsível demais, algo espantoso para uma pessoa jovem e saudável. Ora, se sua companheira falecesse, preferia que não houvesse despesas previamente pagas para o velório, ainda que algumas pessoas pudessem vislumbrar nessa previdência a última moda do progresso civilizatório. 
Pensou em jogar fora ambos os cartões, mas hesitou um pouco, julgou-se por um instante antiquado em demasia, e pegou no envelope o terceiro. Nesse estava escrito o nome completo de sua filhinha. Quando leu atrás o número para o caso de emergência, sentiu um nó na garganta. Não. Não ligaria. Não queria que ligassem. Dane-se a funerária, o sindicato, a gente civilizada. Não queria previdência para velório da filha. Preferia evitar esse mau augúrio! Quebrou os três cartões, jogou-os no balde do lixo e seguiu para o banho aliviado.

domingo, 16 de dezembro de 2018

ÉDIPO REI


"Édipo, filho de Laio, rei de Tebas, e de Jocasta, é abandonado quando bebê porque um oráculo anunciou ao pai que o filho ainda não nascido seria seu assassino. Ele é salvo e cresce como filho do rei numa corte estrangeira, até que, incerto quanto à sua origem, também interroga o oráculo e dele recebe o conselho de evitar a pátria, pois se tornaria o assassino de seu pai e o marido de sua mãe. No caminho que o leva para longe de sua suposta pátria, ele encontra o rei Laio e o mata numa luta travada rapidamente. Depois chega a Tebas, onde resolve os enigmas da esfinge que obstrui o caminho e, em gratidão por isso, é escolhido rei pelos tebanos e presenteado com a mão de Jocasta. Ele reina por longo tempo em paz e com dignidade, gerando dois filhos e duas filhas com a mãe que não conhece, até que irrompe uma peste que leva os tebanos a interrogarem o oráculo novamente. É neste ponto que começa a tragédia de Sófocles. Os mensageiros trazem a resposta de que a peste cessará quando o assassino de Laio for expulso do país. Mas onde estará ele?

                                                       Onde acharemos 
                             algum vestígio desse crime muito antigo?


A ação da peça não consiste em outra coisa senão na descoberta gradativa e engenhosamente retardada – comparável ao trabalho de uma psicanálise – de que o próprio Édipo é o assassino de Laio, mas também o filho do assassinado e de Jocasta. Abalado pelo horror que cometera sem saber, Édito cega a si mesmo e deixa a pátria. O oráculo está cumprido."
(Sigmund Freud. in A interpretação dos sonhos, Vol. 1. L&PMPocket. pp. 283/384) 

CHEMISTRY...


"Infatuation alters your brain chemistry, as though you were dousing yourself with opiates and stimulants. The brain scans and mood swings of an infatuated lover, scientists have recently discovered, look remarkably similar to the brain scans and mood swings of a cocaine addiction – and not surprisingly, as it turns out, because infatuation is an addiction, with measurable chemical effects on the brain." (Committed. Liz Gilbert)

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

FRASE DO MÊS


"A experiência sugere que se os homens não podem lutar por uma causa justa porque essa causa justa venceu na geração anterior, lutarão então contra a causa justa." (Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Ed. Rocco. Rio de Janeiro. 1992. p. 396).

JP EM CENA




RELÍQUIAS



QUOTES


"Un roman est un miroir qui se promène sur une grande route." (Stendhal, Le rouge et le noir)  

"E quando o amor é mais intenso, não necessitam nem sussurrar, apenas se olham, e basta, seus corações se entendem..." (Gandhi)

"Estoy acostumbrado a luchar contra gigantes. Jamás los he derrotado, pero nunca sucumbí."

"No próximo instante da eternidade, não estaremos mais aqui, nem você nem eu!"

"O que seria desse céu enorme sem esse ser minúsculo que o contempla deslumbrado?"

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Sonho


A trupe desfila num palco medonho
Seus trajes grotescos, clarins e bandeiras,
Vistosos tecidos, comprados nas feiras,
Em filas compridas de canto enfadonho.
Talvez fosse mero produto dum sonho,
Quem sabe verdade, melhor nem pensar;
Aplausos havia, mas sem despertar
O riso na cara de quem aplaudia;
O povo debaixo era quem mais sofria,
Em cima verdugos suspensos no ar.


A peça era nova, seu grupo bisonho,
Comédia ou tragédia, pudicas rameiras;
Roteiro não tinha, nem eiras nem beiras,
Aos olhos silentes dum mestre tristonho;
Abutres sedentos, um bispo risonho;
Tamanha incerteza que teima em chegar,
Largada na festa sem saber dançar;
As nuvens pesadas no ocaso do dia
Fizeram que a gente, em meio à agonia,
Sonhasse com a fuga na beira do mar.

Eliton Meneses

sábado, 24 de novembro de 2018

FIM DA HISTÓRIA


"Platão argumentava que embora thymos fosse a base das virtudes, por si só não era bom nem mau, mas precisava ser treinado para servir ao bem comum. Em outras palavras, thymos deveria ser governado pela razão, e transformado num aliado do desejo. A cidade justa seria aquela em que as três partes da alma estivessem satisfeitas e equilibradas sob a direção da razão. O melhor regime era extremamente difícil de ser alcançado porque devia satisfazer todo o homem simultaneamente, sua razão, seu desejo e seu thymos. Porém, mesmo que não fosse possível aos regimes reais satisfazer completamente o homem, o melhor regime constituiria o padrão pelo qual podiam ser medidos todos os regimes existentes. Seria melhor o regime que satisfizesse melhor as três partes da alma simultaneamente." (Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Ed. Rocco. Rio de Janeiro. 1992. p. 404).

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Soneto LXIII


Entraste por um beco sem saída,
Calçado num chinelo muito gasto;
De dia, te sentias herói basto;
De noite, simples besta decaída.

Contavas não sofrer a recaída;
Querias percorrer caminho vasto;
Amigos? Tão somente um velho casto;
Nas contas, tanta coisa destruída.

Procuravas sentir felicidade
Em matérias fugazes, ofuscado;
Apostavas ser claro o tempo escuro.

Afastado decerto da verdade,
Não sentiras nas portas do mercado
A fragrância das flores de Epicuro.

Eliton Meneses

domingo, 18 de novembro de 2018

Filosofia x Materialismo


"Na Grécia Antiga, existia uma cidade na qual, em todas as paredes do mercado, se havia escrito toda a filosofia da felicidade de Epicuro, procurando conscientizar as pessoas de que comprar e possuir bens materiais não as tornariam mais felizes, como elas então acreditavam." (Wikipédia)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

HINO


Também sou do tempo em que se cantava o hino nacional na escola, mas não nutro nenhum saudosismo dessa pouco espontânea manifestação de patriotismo. Recordo que na Escola de 1.º Grau Vilebaldo Aguiar, em Coreaú/CE, era o momento mais entediante. As aulas normalmente atrasavam pela dificuldade de se formarem as filas. Em meio à balbúrdia, sempre havia aquele retardatário que furava a fila para ficar mais à frente, aquele que ficava empurrando os outros, aquele que não continha a flatulência... Quando se conseguia finalmente organizar a fila, começava-se a cantar o hino com um desinteresse tão medonho e ainda com os atropelos mais hediondos da letra e da melodia que dava era desgosto... Uma passagem me atraía especialmente a atenção: "Ao som do mar (...) do céu profundo." Juro que entendia, quase colando o ouvido na boca do colega da frente, de trás e do lado, "Ao som do mar(aújo) o céu profundo." Ficava intrigado porque a coisa não continha qualquer nexo com nada que fosse compreensível. Maraújo? A única coisa a que me reportava Maraújo era a cidade de Moraújo, vizinha a Coreaú, mas tão inexpressiva geográfica e historicamente que achei pouco provável que fizesse jus a ter o nome no hino nacional e, caso tivesse, eu pensava, por que o hino não fazia menção também a Coreaú? Afinal, eram cidades arquirrivais e ultimamente Coreaú era até mais próspera...
Um dia cheguei em Cezinha, apontado como o melhor aluno do 7.º ano, e procurei tirar a dúvida:
– Cezinha, aquela parte do hino que diz assim: "Ao som do mar(aújo) o céu profundo..." é mar(aújo) mesmo, né?
Cezinha deu uma gargalha e respondeu com bastante convicção:
– Mar(aújo), não, bicho burro! O certo é Moraújo!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

THYMOS


"O desejo de reconhecimento é também a sede psicológica de dois sentimentos extremamente poderosos: a religião e o nacionalismo. Com isso não quero dizer que religião e nacionalismo podem ser reduzidos ao desejo de reconhecimento, mas que o fato de terem suas raízes em thymos é o que lhes comunica sua grande força. O crente religioso atribui dignidade a tudo que a religião considera sagrado – um conjunto de leis morais, um modo de vida, ou objetos especiais de adoração. Enfurece-se quando é violada a dignidade daquilo que considera sagrado. O nacionalismo acredita na dignidade do seu grupo nacional ou étnico, e portanto em sua própria dignidade qua membro desse grupo. Procura fazem com que essa dignidade seja reconhecida pelos outros e, como o crente religioso, enfurece-se quando ela é ofendida ou menosprezada. Foi uma emoção timótica, o desejo por parte do senhor aristocrata, que deu origem ao processo histórico e foi a emoção timótica do fanatismo religioso e do nacionalismo que impulsionou esse processo, por meio de guerras e conflitos, através dos séculos. As origens timóticas da religião e do nacionalismo explicam por que os conflitos sobre 'valores' são potencialmente muito mais mortais do que os conflitos sobre bens ou riquezas materiais. Ao contrário do dinheiro, que pode simplesmente ser dividido, a dignidade é algo intrinsecamente intransigível: ou você reconhece a minha dignidade, ou a dignidade do que é sagrado para mim, ou não reconhece. Só o thymos, à procura da 'justiça', é capaz de verdadeiro fanatismo, obsessão e ódio."
(Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Ed. Rocco. Rio de Janeiro. 1992. pgs. 262/263).