segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Soneto LXXX


Foi um sismo que nunca havia visto;
Uma flor que de tudo o mais destoa;
Uma voz que distante ainda ecoa;
O encontro mais terno e imprevisto.

Sinuoso, complexo, mas benquisto;
Faz um mundo de cores meio à toa;
É mais livre uma ave quando voa,
Mesmo quando o universo se faz misto.

Todavia, voara céu adentro,
Muito afoito, ciente do perigo,
Cada vez mais distante de algum centro.

À procura quiçá de algum abrigo,
Divisou por encanto fora e dentro
A lanterna de um sábio bem antigo.

Eliton Meneses

sábado, 14 de setembro de 2019

Soneto LXXIX


Andei por muita légua e já não vi floresta;
Somente cerca, gado e árvores cortadas;
O céu, um fosco gris, as nuvens deformadas;
Fumaça a encobrir as ambições funestas.

Os animais corriam em busca do que resta;
Os índios lamentavam as tabas devastadas;
Um parvo inda nutria as ilusões passadas;
A Terra consumida em chamas indigestas.

O sol se apagava a milhas de distância;
Um grito de socorro ecoa pelo mundo;
Ninguém pode negar um tal paroxismo.

A Amazônia tem tamanha importância;
Não pode sucumbir a sopro moribundo,
Nem fazendeiro rir à beira do abismo.

Eliton Meneses

domingo, 8 de setembro de 2019

Elegia


Eu me pego voltando na história,
Recordando de tudo que passou;
Tenho tudo guardado na memória,
Desde quando o cupido nos flechou.
Não é fácil o caminho da razão,
Quando a corda nos ata o coração.

Lembro ainda a primeira ligação,
De manhã a caminho do trabalho;
O bom dia discreto, a emoção,
Certo filme, o sorriso, o ato falho...
Foi aquele o primeiro carnaval
Da mudança que nunca vira igual.

Uma foto surgiu meio do nada,
Numas férias sem quase algum contato,
A primeira semente foi plantada,
Quando tudo inda era abstrato.
Foi decerto um arroubo inconsciente,
Que tornou toda a vida diferente.

Logo após veio o seu aniversário;
Um convite indiscreto, um encontro;
Desenhamos qual era o cenário,
O princípio do amor em seu confronto.
Foi um misto de susto e de alegria,
Julieta e Romeu, quem sabe um dia.

A saudade apertava a toda hora;
Sol a pino no fim de um outubro;
Não dá mais, era tempo de ir embora,
De repente o sinal tornou-se rubro.
Todo o mundo em volta tão opaco;
Coração destroçado, só o caco.

O amor foi guardado nas caixinhas,
No silêncio esquivo de um bloqueio;
Apagara o canal, sem entrelinhas,
O real converteu-se em devaneio.
Nem o tempo comprido apagou
A saudade ardente que ficou.

Veio então um estranho fim de ano;
Um céu gris, todo quadro desbotado;
A certeza do duro desengano;
Uma noite inteirinha acordado.
A canção argentina recordava
Quem não mais o percurso acompanhava.

Eis que surge do acaso um convite;
Falta um dia apenas para vê-la;
A saudade passara do limite,
Não havia recurso pra contê-la.
Encontrei-a rápido, mas tão linda
Que a angústia que havia dei por finda.

Logo à noite já veio o desbloqueio;
Num instante a noite se fez dia;
Uma moça sentada num passeio,
À espera de alguém na fantasia,
Acendeu todas luzes do Natal;
Me senti muito mais que especial.

Uma frase saudou o novo ano;
Bem distante e ainda afastado;
Uma flor de metal me fez humano,
Caminito me viu apaixonado.
Dois coqueiros enfim em frente ao mar
Conjugaram pra sempre o verbo amar.

Eliton Meneses

sábado, 7 de setembro de 2019

Il Gattopardo : Tomasi di Lampedusa


"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi."

"Ho capito benissimo: voi non volete distruggere noi, i vostri 'padre'. Volete soltanto prendere il nostro posto."

"L'efficacia della confessione non sta solo nel raccontare i fatti, ma nel pentirsi di quanto si sia commesso di male."

"E no rimase che l'oscurità come ogni altra sera, da sempre."

"L'amore, Eccellenza, l'amore è tutto, ed io lo posso sapere."

(Il Gattopardo. Tomasi di Lampedusa)

sábado, 31 de agosto de 2019

Frase do mês


"Auf der Höhe der Verliebtheit droht die Grenze zwischen Ich und Objekt zu verschwimmen." (Freud)

"No auge do sentimento de amor, a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer." (Freud) 

Curtas do mês


Sempre houve queimada na Amazônia, mas se está diante de um aumento de 82% de um ano para outro (cf. G1), que coincide com o primeiro ano de um governo que é declaradamente favorável ao agronegócio e contrário ao meio ambiente e especialmente aos índios, que são os guardiões da floresta.

Comemorar um tiro na cabeça de uma pessoa em surto psicótico — como o fez o Governador Witzel — é sinal de que o surto psicótico não acometeu apenas a pessoa morta...

Sou Lula Livre! Sou direito do trabalhador, das mulheres, dos pobres, das minorias... Sou Amazônia... E você, é só Bolsonaro?

Traços indeléveis


Era tradição entre os alunos da Escola de 1.º Grau Vilebaldo Aguiar gravar o nome com giz no teto da sala de aula. Ao me despedir da escola, ao concluir a 8.ª série, nos idos de 1992, também deixei minha marca, que, para minha surpresa, depois de quase 27 (vinte e sete) anos, ainda permanece lá.


Há marcas que o tempo não apaga, mesmo quando escritas a giz...


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Soneto LXXVIII


A aragem fustiga a face em transe;
Mar revolto ameaça a vela afoita;
A palavra cortante ainda açoita;
Toda história revolve num relance.

Bem distante, já fora do alcance;
Pesadelo insistente inda pernoita;
Na alcova vazia alguém acoita
O espasmo final de um romance.

Duas aves outrora em simbiose
Avoavam sem norte a céu aberto,
Ao sentirem a mais plena sintonia.

Uma pena que amor em overdose
Faz o bem e o mal andarem perto,
Chega a Deus e destrói a fantasia.

Eliton Meneses

A interpretação dos sonhos : Freud


"O sonho mostra a verdadeira natureza do homem, ainda que não inteira, e está entre os meios que nos permitem conhecer o núcleo oculto da psique."

"No sonho, o psiquicamente reprimido vem à luz."

"O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimido, recalcado)."

"Uma experiência para a qual não achei exceções é o fato de todo sonho tratar da própria pessoa que sonha. Os sonhos são absolutamente egoístas."

"O trabalho do sonho absolutamente não pensa, calcula ou julga, mas se limita a transformar."

"O estado de sono possibilita a formação dos sonhos ao reduzir a censura endopsíquica."

"Os delírios são a obra de uma censura que não se dá mais ao trabalho de ocultar suas atividades, uma censura que, em vez de cooperar para uma reelaboração que não seja mais chocante, risca sem consideração tudo aquilo a que faz objeções, tornando incoerente o que resta. Essa censura procede de modo inteiramente análogo à censura russa de jornais na fronteira: apenas jornais estrangeiros repletos de tarjas pretas chegam às mãos dos leitores que cabe proteger."

"O desejo provém do inconsciente e não pode ser percebido durante o dia."

"O desejo figurado no sonho tem de ser um desejo infantil."

"No inconsciente nada pode ser terminado, nada passou ou foi esquecido."

"O inconsciente é o círculo maior que abrange em si o círculo menor da consciência; tudo o que é consciente tem um estágio prévio inconsciente, enquanto o inconsciente pode permanecer nesse estágio e ainda assim reclamar o valor pleno de uma produção psíquica. O inconsciente é o psíquico propriamente real, tão desconhecido para nós segundo sua natureza interna quanto o real do mundo externo; ele nos é dado pelos dados da consciência de maneira igualmente tão incompleta quanto o mundo externo pelas informações de nossos órgãos sensoriais."

"Em sua expressão última e mais verdadeira, deve-se dizer que a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material."

(A interpretação dos sonhos. Sigmund Freud)

domingo, 18 de agosto de 2019

Greek x Hebrew


"It has long been understood by philosophers that the entire bedrock of Western culture is based on two rival worldviews — the Greek and the Hebrew — and whichever side you embrace more strongly determines to a large extend how you see life.
From the Greek — specifically from the glory days of ancient Athens — we have inherited our ideas about secular humanism and the sanctify of the individual. The Greeks gave us all our notions about democracy and equality and personal liberty and cientific reason and intellectual freedom and open-mindedness and what we might call today 'multiculturalism'. The Greek take on life, therefore, is urban, sophisticated, and exploratory, always leaving plenty of room for doubt and debate.
On the other hand, there is the Hebrew way of seeing the world. (...) 'Hebrew', in the sense that philosophers use it here, is shorthand for an ancient worldview that is all about tribalism, faith, obedience, and respect. The Hebrew credo is clannish, patriarchal, authoritarian, moralistic, ritualistic, and instinctively suspicious of outsiders. Hebrew thinkers see the world as a clear play between good and evil, with God always firmly on 'our' side. Human actions are either right or wrong. There is no gray area. The colletive is more important than the individual, morality is more important than happiness, and vows are inviolable.
The problem is that modern Western culture has somehow inherited both these ancient worldviews — though we have never entirely reconciled them because they aren't reconcilable. (...) Our legal code is mostly Greek; our moral code is mostly Hebrew. We have no way of thinking about independence and intellect and the sanctity of the individual that is not Greek. We have no way of thinking about righteousness and God's will that is not Hebrew. Our sense of fairness is Greek; our sense of justice is Hebrew."
(Elizabeth Gilbert. in Committed, A Love Story)

sábado, 17 de agosto de 2019

Soneto LXXVII


Há quem queira na vida tudo quanto;
Há quem queira somente ter um laço;
Uns que fazem fortuna como santo;
Outros anjos atrás de um regaço.

Há pessoas vazias tendo tanto;
Outras ricas deitadas no bagaço;
Uns envoltos na crise do quebranto;
Outros tantos carentes de abraço.

Há pessoas que Deus nem sempre acode,
Cujas lutas o mundo menospreza,
Para quem esta vida é sempre esquiva.

Há pessoas pra quem o bem eclode,
Mesmo quando largadas e sem reza,
Passageiras de um barco à deriva.

Eliton Meneses

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Haicais

i.
Foi-se a euforia,
da enorme completude,
fez-se a agonia.

ii.
Ágil pensamento
revoava grandioso,
antes do lamento.

iii.
Mente compulsiva,
por alguém obcecada,
mesmo sendo esquiva.

iv.
Ah! realidade!
por que mudas volta e meia,
fora da vontade?

v.
Pobre amor eterno,
renegado por três vezes,
sopro pós-moderno.

vi.
Tudo à flor da pele,
sentimento exagerado,
mas depois repele.

vii.
Cruzaste a soleira,
solitário então ficaste,
sem eira nem beira.

sábado, 10 de agosto de 2019

A Missa e o Apocalipse


"Quem quer expressar a aliança com Deus, ratificar a aliança com Deus, renovar a aliança com Deus tem de comer o Cordeiro — o cordeiro pascal que é nosso pão sem fermento. (...)
O que João descreve em sua visão era nada menos que o fim do mundo antigo, da antiga Jerusalém, da antiga aliança e a criação de um mundo novo, uma nova Jerusalém, uma nova aliança. Com a ordem do mundo novo surgiu uma nova ordem de culto. (...)
Onde encontramos sacerdotes paramentados de pé diante de um altar? Onde encontramos homens consagrados ao celibato? Onde ouvimos os anjos serem invocados? Onde encontramos uma Igreja que guarda as relíquias dos santos dentro de seus altares? Onde a arte exalta a mulher coroada de estrelas, com a lua debaixo dos pés, que esmaga a cabeça da serpente? Onde os fiéis suplicam a proteção do arcanjo são Miguel?"
(O Banquete do Cordeiro. A missa segundo um convertido. Scott Hahn)

P.S.: Scott Hahn resgata a compreensão dos cristãos primitivos de que o Apocalipse (último livro da Bíblia) retrata a liturgia da nova Aliança que é vivenciada com a comunhão na missa católica. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Mar


Fustigado pelo vento;
Corroído pelo sol;
Arranhado pela areia;
Temperado pelo sal,
O veleiro corta lento,
Sob os olhos do farol.
Tem consigo uma sereia;
Duas roupas no varal.
Voa longe o pensamento,
Vai além do arrebol.
Inda estio, já floreia
Um coqueiro no quintal.
Todo eterno num momento;
Aves juntas pelo ar
Vão cruzando o firmamento;
Nuvens vagam sobre o mar...

Eliton Meneses