domingo, 7 de outubro de 2018

JOÃO CAVOQUEIRO


Sob o sol do meio dia, João Cavoqueiro aprontava a massa da obra. Era servente e ajudava na reforma da casa do vizinho. Na noite anterior havia participado da reunião da CEB's no Sumaré. João não fazia mal a uma mosca. Era querido em toda Sobral. Vivia num casebre humilde da Betânia, sem saber ler ou escrever. Os padres o haviam convencido a participar do movimento social da igreja. Naquele ano de 1971, João tinha 26 anos, uma mulher de 24 e dois filhos. 
Quem estava na rua estranhou quando o caminhão do Exército parou perto da casa do servente; estranhou mais ainda quando desceu um batalhão de soldados enfileirados como numa operação de guerra e o cercaram. Um oficial se dirigiu a João, apontou o dedo em riste em sua direção e gritou:
– Subversivo! 
Uma multidão de curiosos se aproximou perplexa para testemunhar a prisão do até então pacato e irrepreensível João Cavoqueiro. Sem mais nenhuma explicação, algemaram-no e levaram-no não se sabe para onde.
Oito meses depois, a mulher e os filhos já estavam sem esperança de reencontrá-lo. No entanto, novamente no mormaço do meio dia, um caminhão do Exército parou perto da casa de João e o soltou na rua para o espanto de poucos curiosos. 
João estava de pé, mas tremia dos pés à cabeça. Depois de um instante parado, dirigiu-se lento e trôpego à sua casa, apoiando com dificuldade no chão cada passo, até chegar à porta, sem ninguém atrever-se a socorrê-lo. Não conseguiu explicar o que lhe fizeram, não conseguiu mais falar, não conseguiu mais trabalhar, nunca mais voltou a sorrir. João Cavoqueiro morreu três anos depois. Devolveram-no apenas como prova de como o regime tratava as pessoas subversivas.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Pós-verdade


Soube de uma juíza que afirma estar em dúvida acerca da condição de torturador do Brilhante Ustra, apontado pela História como o maior torturador da Ditatura Militar de 64/85, uma vez que ela estaria investigando os fatos e, segunda ela, era preciso ouvir não apenas a versão dos guerrilheiros torturados, mas também a versão do torturador, no caso, contada num blog da mulher do Brilhante Ustra...
A juíza parece querer dar uma sentença sobre a condição do torturador a partir de um contraditório empírico extemporâneo, tentando reescrever a história sem qualquer preocupação com o método histórico-científico, mas com uma convicção típica do nosso tempo de pós-verdade, em que o senso comum busca a todo custo subverter a ciência.
A juíza parece esquecer que não foram apenas os guerrilheiros as vítimas da tortura praticada pela Ditadura Militar, eis que muita gente não-guerrilheira e inclusive muita gente sem qualquer envolvimento político foi parar nos porões do DOI/CODI.
A juíza parece esquecer que a oitiva da versão do torturador, por mais perfeita que fosse, jamais justificaria a barbárie que representa a tortura praticada pelo Estado.
A juíza parece esquecer que, embora, em regra, o Judiciário julgue, é a história o juiz final do Direito. Nas palavras do poeta alemão Schiller: "Die Weltgeschichte ist das Weltgericht."
É natural que essa juíza se julgue imparcial para julgar o passado e o presente, dos fatos mais prosaicos aos mais relevantes para o futuro do País; é natural também que ela repute mais certa a sua sentença do que a sentença da história e é natural, por fim, e nem precisaria dizer, que ela apoie para a Presidência da República um candidato cujo nome é melhor nem mencionar...

domingo, 30 de setembro de 2018

FRASE DO MÊS


"Depois de completado o trabalho de interpretação, o sonho se revela como uma realização de desejo." (Freud)

DEMOCRACIA x MECANISMO


O Mecanismo que gestou o golpe está chocando o ovo do fascismo!
O exame de DNA vai provar que Moro é pai do Bozo...
A Democracia responderá #ElesNão

MARRIAGE


"Of course, social conservatives may still believe that homosexual marriage is wrong because the purpose of matrimony is to create children, but infertile and childless and postmenopausal heterosexual couples get married all the time and nobody protests." (Elizabeth Gilbert. Committed, A Love Story)

#EleNão



HISTÓRIA DIRECIONAL


O melhor virá sim, sempre vem, como apostaria Kant, mas não como algo necessário, decorrente de uma força natural inexorável, e sim como uma possibilidade que nasce a partir da construção do homem... Não fiquemos de braços cruzados à espera do melhor. O caminhar rumo ao melhor é uma construção humana e não uma lei da natureza.  

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Soneto LXI


Aferrados ao caos de certa insônia,
Esquecemos dos sonhos genuínos;
Não passamos sequer de peregrinos,
Sem amor, sem saber, sem parcimônia. 

Traspassamos umbrais sem cerimônia,
Copiamos tacanhos figurinos;
Perfilados cantamos falsos hinos,
Presunçosos perdidos na colônia.

Eis um tempo incomum de resistência;
Mesmo em face do óbvio duvidamos,
Testemunhos passivos da maldade.

Apesar de afogados na ausência,
Desde os gregos antigos procuramos:
A beleza, a justiça e a verdade.

Eliton Meneses

sábado, 15 de setembro de 2018

Ballade des dames du temps jadis


Dictes moy où, n'en quel pays,
Est Flora, la belle Romaine;
Archipiada, ne Thaïs,
Qui fut sa cousine germaine;
Echo, parlant quand bruyt on maine
Dessus rivière ou sus estan,
Qui beaulté ot trop plus qu'humaine?
Mais où sont les neiges d'antan?
Où est la très sage Helloïs,
Pour qui fut chastré et puis moyne
Pierre Esbaillart à Saint-Denis?
Pour son amour ot cest essoyne.
Semblablement, où est la royne
Qui commanda que Buridan
Fust gecté en ung sac en Saine?
Mais où sont les neiges d'antan?
La royne Blanche comme un lis,
Qui chantoit à voix de seraine;
Berte au grant pié, Bietris, Allis;
Harembourges qui tint le Maine,
Et Jehanne, la bonne Lorraine,
Qu'Englois brulerent à Rouan;
Où sont elles, Vierge souvraine?
Mais où sont les neiges d'antan?
Prince, n'enquerez de sepmaine
Où elles sont, ne de cest an,
Qu'à ce reffrain ne vous remaine:
Mais où sont les neiges d'antan?

(François Villon)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Soneto LX


Corre o sol pelo céu azul-marinho;
Varre a barca na praia a ventania;
Vem de longe, suave, a melodia;
Nem se escuta do mar o burburinho.

Bate as asas na tarde um passarinho;
Uma flor faz completa a harmonia;
No ameno esplendor do fim do dia,
Dois coqueiros se abraçam com carinho.

Da cabana suspira com saudade;
Não sacia a beleza o seu desejo,
Mais queria era tê-la em suas mãos.

Seja sonho, loucura ou realidade,
Cedo ou tarde haveria algum ensejo,
Pois desejos de amor nunca são vãos.

Eliton Meneses

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O NOVO SEMPRE VEM?


É muito estranho ver jovens, na flor da idade, flertando com o que há de pior e mais velho na política. Jovens que, naturalmente, ao menos por toda uma ebulição hormonal, deveriam estar pensando em mudar o mundo, estejam justamente pensando em resgatar o pior da experiência humana, encarando o outro com intolerância, tratando-o como inimigo, desejando destruí-lo pela força. Jovens – inclusive o sobrinho, o primo segundo, o estagiário de Direito (sic), todos com menos de vinte anos – que votam em Bolsonaro, uma excrescência política que incorpora como ninguém a intolerância, o preconceito, a violência como uma panaceia para todos os males, a ignorância travestida de senso comum, tudo isso em um sujeito (minha nossa!) que não emenda com coerência três frases de um discurso. Do Hitler pode-se dizer que era um gênio do mal, um orador, um estrategista político e militar habilidoso, mas o que dizer do Bolsonaro? Bolsonaro é apenas um idiota, um sujeito muito limitado intelectualmente, extremamente insensível, além de arrogante, truculento e desagregador; enfim, um ser humano ridículo. O que faria as pessoas se agarrarem a Bolsonaro como a uma tábua de salvação? Não precisa ser psicólogo para saber que há algo relacionado ao medo e à desilusão, mas o medo e a desilusão é até natural que façam de pessoas de mais idade sujeitos mais acomodados e distantes do outro; no entanto, o jovem, por natureza, mesmo com medo e desiludido, não deveria cair na desesperança e na tentação do ódio, não deveria abraçar o primeiro sem-noção que promete a solução fácil dos problemas complexos atuais com fórmulas já fracassadas sistematicamente ao longo da história. Os jovens tendem naturalmente à tolerância, à sensibilidade e à inteligência. É com essas forças que normalmente constroem o novo... Aliás, em que novidade está pensando a nossa juventude? Que norte pretende adotar? Quem são atualmente os seus referenciais e as suas fontes de inspiração? Houve épocas em que os jovens se inspiravam em Cristo, em Gandhi, num filósofo qualquer ou até mesmo num cantor de rock que pregava a paz... Em quem a juventude atual se espelha? Onde está sendo plantado o novo? Em quem se inspira o jovem que vota no Bolsonaro? Bolsonaro é o retorno à barbárie, à lei do mais forte, do olho por olho, da violência e da intolerância, o que há, enfim, de mais velho e tosco da experiência humana. Bolsonaro é o nosso inconsciente primitivo sem domesticação. Bolsonaro é uma caverna empoeirada e coberta de teia de aranha que deveria gerar repulsa no jovem. Bolsonaro é o velho (mais velho) e não o novo! O novo ainda não apareceu e cabe aos jovens construi-lo, mesmo com medo e desilusão! 

sábado, 1 de setembro de 2018

RERUM NOVARUM

"Todo o conjunto de representações, conceitos e elos que mantinham unido o nosso mundo estão se dissolvendo e entrando em colapso como um quadro de sonho. Prepara-se uma nova fase do espírito. Especialmente a filosofia deve dar as boas-vindas a essa nova fase e reconhecê-la, enquanto outros, que inutilmente se opõem a ela, agarram-se ao passado." (Hegel)

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

FRASE DO MÊS


"Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis." (Drummond)

AMISTAD x AMOR


"Es que la amistad no necesita frecuencia. El amor sí. (...) El amor está lleno de ansiedades, un día ausente puede ser terrible, pero yo tengo tres o cuatro amigos a los que veo una o dos veces al año. (...) La amistad puede prescindir de la confidencia, pero el amor no. Si en el amor no hay confidencia, uno ya lo siente como una traición." (Borges)