segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

BHAGAVAD GITA



BHAGAVAD GITA :: COMENTÁRIOS FILOSÓFICOS


CARNAVAL


No meio da multidão,
Sentia-se solitário.
Faltava-lhe aptidão,
Um certo senso gregário.
Bem difícil de entender,
Preferia se esconder
No conforto do armário.
Mas porém no Carnaval,
Libertava a sua nau,
Num lampejo visionário.

Trajava-se de mulher;
Sapateava na rua;
Beijava boca qualquer,
Sob o sol ou sob a lua;
Tomava não sabe quantas;
Saídas, somava tantas, 
Deitado na terra crua;
Até o fim da folia,
Quando então acordaria
Com a sua alma nua.

Eliton Meneses

VERSTAND UND GEFÜHL


Naqueles dois palmos de domínio, era um exímio cientista. Fora desse domínio especializado, esposava teorias da profundidade de um pires, desde que mais interessantes para a manutenção de sua condição social.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

RÁPIDAS


1. Fórmula mágica do Brasil pós-golpe: Estado mínimo com aumento da tributação. O Estado cobra cada vez mais para fazer cada vez menos! Assim a crise econômica acaba...

2. Por onde anda aquele Impostômetro que permaneceu ativo, com suas cifras estratosféricas, até a véspera do golpe? Seu propósito não era o controle social da carga tributária?

3. Basta uma mirada perfunctória para a composição do atual governo para se concluir que o problema das panelas (ora silenciosas) não era a corrupção.

4. O governo golpista, rejeitado por 91% da população nordestina, tenta se apropriar da transposição do São Francisco...

5. Na eleição direta, não ganharam nem da Dilma, imagina do Lula! Vão tentar inviabilizá-lo de todas as formas, porque sabem que, mesmo com todo desgaste, nas urnas, Lula é imbatível.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

OCUPAÇÃO


A força dum lado
A força do outro
Maria no meio
A lágrima corre
A tábua no chão
Adeus sua casa
Adeus sua cama
Adeus sua mesa
Na rua a cadeira
Na rua o fogão
Pra rua foi tudo
A máquina velha
O velho e o novo
A preta e a loira
O pobre do cão
– Agora o que faço?
Fizeram o despejo
Chegaram bem cedo
Sem nenhum mandado
Nem intimação
A noite vem vindo
A força foi indo
A gente pernoita
De volta de novo
Na ocupação.

Eliton Meneses

sábado, 18 de fevereiro de 2017

SONETO XV


Uma nuvem percorre impetuosa
Um céu gris de serena ventania;
 Cessa o canto da ave tenebrosa,
Chega a chuva trazendo a alegria.

Foi-se um lustro de seca desditosa;
  Quase morre a esperança certo dia;
 Corre o rio uma estrada sinuosa,
Entre o verde do campo a sinfonia.

Precisava juntar os seus destroços;
Não pudera pagar tamanha glosa,
Sem a messe que agora enfim teria.

Com a água salobra de dois poços,
 Conseguira contar a sua prosa, 
Ao final da terrível travessia.
   
Eliton Meneses

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

SONETO XIV


Fitava o horizonte acabrunhada,
Olhos postos no azul do fim do dia;
Outrora fora bela; ora, engelhada;
Não mais tinha na face a alegria.

Seguia pela rua desdenhada, 
Sem descerrar o véu da agonia.
Sentia-se amiúde importunada 
Por encômios envoltos de ironia. 

Não tirava do espelho a sua cara;
A si mesma era tudo o que amara;
Tinha sempre na mão o que queria. 

Fora jovem, feliz, beleza rara,
Mas na vida passou tão ignara
Que perdeu-se na própria fantasia.
  
Eliton Meneses

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O POVO BRASILEIRO


"Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto da nossa fúria.
A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária." (Darcy Ribeiro. O povo brasileiro. Companhia de Bolso. 13.ª reimpressão. 2013. p. 108)

DESACATO NÃO É CRIME


Depois de um renhido bate-boca entre a defensora pública e o cidadão, que quase culminou em voz de prisão e condução para a Delegacia de Polícia, a defensora pública, então coordenadora do Núcleo, imprimiu um cartaz com o teor do art. 331 do Código Penal, em letras garrafais, e colou por todo o Núcleo, inclusive nos gabinetes dos três defensores públicos. 

Código Penal. 
Art. 331 - Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

Quando cheguei no dia seguinte, deparei perplexo com o cartaz na porta da minha sala e, antes de saber de quem partira a ideia de tamanho desatino, o rasguei e joguei no lixo...

Em 15.12.2016, a 5.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça considerou atípica a conduta descrita como crime de desacato à autoridade, por entender que a tipificação é incompatível com o artigo 13 da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica). 

O relator do REsp nº 1640084/SP, proposto pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, ressaltou que: "A Comissão Interamericana de Direitos Humanos - CIDH já se manifestou no sentido de que as leis de desacato se prestam ao abuso, como meio para silenciar ideias e opiniões consideradas incômodas pelo establishment, bem assim proporcionam maior nível de proteção aos agentes do Estado do que aos particulares, em contravenção aos princípios democrático e igualitário. (...) A criminalização do desacato está na contramão do humanismo, porque ressalta a preponderância do Estado – personificado em seus agentes – sobre o indivíduo." (cf. REsp 1640084/SP)

sábado, 28 de janeiro de 2017

TODOS E TODAS


Toda língua carrega consigo uma forte carga ideológica. No alemão, que enfatiza a fertilidade inerente ao gênero feminino, o sol é die Sonne ("a sol"), porque o sol produz luz, gera vida, sendo tratado como feminino, o gênero mais relevante da natureza, ao passo que a lua é der Mond ("o lua"), porque a lua não tem luz própria, não produz luz, não gera vida, logo, é um ser masculino, um ser, digamos, de segunda categoria.    
Nas línguas neolatinas, como o português, ocorre o oposto. A ênfase é sempre dada para o masculino. O sol é masculino; a lua, feminino. O gênero prevalecente é o masculino. Se há um homem entre nove mulheres, deve-se referir ao conjunto como todos e não todas, porque esse único homem prevalece em face das nove mulheres. Essa é a herança linguística que recebemos de tempos imemoriais. Por sorte, a língua é dinâmica e, no processo atual de afirmação feminina, tem sido cada vez mais comum não se falar apenas em todos quando, em meio ao todo, há também mulheres. Nesse caso, tem-se dito, de forma bastante salutar, todos e todas, ou, melhor ainda, todas e todos, como uma forma de afirmar a condição feminina, antes apenas subjacente no masculino todos. 
Há quem critique esse todos e todas, talvez avesso à afirmação feminina, sustentando que esse todos não teria conotação de gênero e, portanto, não encerraria preconceito linguístico; no entanto, todos é, inegavelmente, uma palavra masculina que traz consigo uma opção preferencial pelo masculino, não custando nada, na dinâmica da língua, sobretudo neste momento histórico de tantas afirmações necessárias, enfatizar o gênero feminino, dizendo-se todos e todas, ou, melhor ainda, todas e todos.  
E se for para se fazer uma opção preferencial, que se opte pelo todas (todas as pessoas) e não pelo todos (todos não sei o que, homens, seres humanos ou homens e mulheres)...
Portanto, boa noite a todas! Todas as pessoas que leram este texto!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

GINCANA


Com a arquibancada lotada, Tibúrcio aquecia para a final do futebol de salão da gincana. Defenderia a equipe amarela. Na sua primeira jogada, pisou na bola e foi ao chão. A torcida, discretamente, ensaiou um coro: 
– Uh! Uh! Uh!
– Deve ser a torcida azul querendo me desconcertar. – Pensou consigo. 
Aos três minutos de partida, Tibúrcio fez um lançamento na medida e Wilson arrematou para o gol.
Na comemoração, Tibúrcio ouviu da torcida muito claramente alguém gritar:
– Belo lançamento, Banana!
Nada tirava tanto Tibúrcio do sério quanto aquele apelido de Banana. Daí em diante, nosso ala esquerdo passou a observar com atenção um alvo em meio à torcida.   
Aos seis minutos teve uma chance clara de gol e, antes mesmo do chute, cobriram-lhe de:
– Uh! Uh! Uh!
Desperdiçou a chance de aumentar o placar. A impressão que teve foi de que o coro não fora entoado apenas pela torcida azul, mas por toda a arquibancada. 
Aos dez minutos, Tibúrcio levou um drible desconcertante e a equipe azul chegou ao empate. Da arquibancada alguém protestou:
– Arre égua, Banana! Entre a saia!
Antes de terminar o primeiro tempo, a equipe amarela teve um pênalti a seu favor e Tibúrcio se apresentou para cobrá-lo. Toda a arquibancada explodiu num sonoro:
– Uh! Uh! Uh!
Tibúrcio tomou distância do meio da quadra e disparou um bicudo que fez a bola acertar uma porta do outro lado do quarteirão. Alguém da torcida imediatamente murmurou:
– Oh, Banana ruim do cão!
Desolado, nosso ala pensou em não voltar para o segundo tempo, mas, por insistência do técnico, resolveu continuar. 
No começo do segundo tempo, a equipe azul virou a partida e alguém da arquibancada bradou:
– Tira o Banana!
O técnico resolveu não tirá-lo. Até parece que adivinhava o que viria a acontecer. Na metade do segundo tempo, Tibúrcio driblou na sequência três jogadores adversários e enfiou um chutaço no travessão, enquanto a torcida inteira bradava:
– Uh! Uh! Uh!
A partir daí, sempre que Tibúrcio tocava na bola, o coro ensurdecedor da torcida o acompanhava. 
– Uh! Uh! Uh!
Tibúrcio continuava a mirar volta e meia um ponto fixo na multidão. 
A cinco minutos do fim da partida, a equipe amarela empatou. Tibúrcio salvou uma bola em cima da linha do seu gol, fez um lançamento longo e Joventino arrematou para o gol. Metade da arquibancada explodiu de alegria. E alguém comentou:
– Metade do gol foi do Banana!   
A partida já parecia caminhar para os pênaltis, quando Tibúrcio, a um minuto do apito final, desarmou um adversário no meio da quadra e acertou dali mesmo um bicudo forte no ângulo, decretando a vitória da equipe amarela. A torcida inteira, azul e amarela, ergueu-se eufórica na arquibancada, todos num só coro:
– Uh! Uh! Uh!
Em meio ao coro, alguém tentou puxar um aplauso:
– Banana! Banana! Banana!
Tibúrcio vibrou ensandecido com o gol, quase foi às lágrimas de tanta emoção, mas, em meio a toda aquela euforia, ao ouvir alguém começar a puxar um coro com o seu apelido, mudou imediatamente de aspecto, dirigiu-se àquele ponto fixo que observara durante a partida, subiu a arquibancada, puxou pelo braço o seu vizinho de trabalho no Mercado, levou-o até a entrada da quadra, empurrou-o para fora e esbravejou:
– Vai cuidar da tua quintada, beiço de jumento!

domingo, 22 de janeiro de 2017

SONETO XIII


Muitas marcas percorrem o seu rosto;
Uma cruz carregada a vida inteira,
Pela estrada encoberta de poeira,
Ruminava soturno o seu desgosto.

Assumira na vida ser oposto;
 Desterrado da farsa lisonjeira;
 Não parava diante de barreira, 
Sob o lume apagado do sol-posto.

Nunca fora à procura de encosto;
No ocaso brandia uma bandeira,
Mesmo tendo acordado indisposto.

Nada havia escrito na soleira;
 Procurava acudir, com muito gosto,
 Quem estava ao seu lado na trincheira.

Eliton Meneses

domingo, 15 de janeiro de 2017

O POETA


Folheando um livreto, o indolente rapaz perguntou ao dono da livraria: 
– O senhor leu o meu trabalho?
– Ainda não! – Respondeu friamente o livreiro, com cara de quem não entendera a pergunta.
Parecia sob efeito de um sossega-leão. Tinha movimentos lentos e olhar vazio. Parecia familiar. Algum colega de estudo. Difícil recordar. Baixo, cabelo grisalho, um bucho que era uma coisa medonha... No caixa, mais de perto, deu para notar que tinha uns quarenta anos e que não parecia regular bem do juízo. Não obstante um vago ar de bem-nascido, a roupa era surrada e o suor exalava um cheiro desagradável.
Na fila do caixa, esbarrou em mim, pediu desculpas e, olhando-me nos olhos, disse:
– Acho que já nos conhecemos, não?!
– Também lhe achei familiar.
– Da Faculdade de Direito...
– Ah, da Faculdade de Direito! Lembro-me agora! Seu nome é...
Não era possível! Aquele sujeito que cantarolava sozinho "As Curvas da Estrada de Santos" no intervalo: "Se você pretende saber quem eu sou...". Quanta diferença! Não era um aluno brilhante. Parecia mesmo alheio ao Direito. Interessava-lhe mais a poesia já naquela época. Encontrei-o nos primeiros semestres. Não sei se concluiu o curso.
– Evaldo. 
– Ah, Evaldo. Esqueci o nome, não a pessoa! Ainda faz poesia, amigo?
– Sim. Este livro que estou comprando é de minha autoria. Chama-se: "À sombra do cajueiro." Muito bom. Este era o último disponível numa livraria. A edição acaba de se esgotar.
– Muito interessante. Você teve a sorte de esgotar o seu próprio livro...
– Mas a situação não é fácil, amigo. Pouca gente lê. As editoras não se preocupam com poesia de qualidade. Temos que mendigar nas livrarias. Essa gente só pensa no lucro.
– Você tem outros livros publicados?
– Enviei dois para várias editoras, mas até agora não tive resposta. Por enquanto só mesmo "À sombra do cajueiro." Aliás, tome, dê um olhada!
O livro tinha apenas setenta e oito páginas. Os versos não passavam de umas poucas palavras enfileiradas na vertical, sem métrica, sem rima e sem musicalidade, confusos que nem a cabeça do autor.
Devolvi-o e pensei em perguntar sobre uma possível atividade jurídica do poeta, mas relutei.
– Onde você mora, poeta?
– No Cocó.
– Ah, moro aqui perto. 
O Cocó é a área mais cara da cidade. Devia morar com os pais, pensei.  Normalmente os ex-colegas de faculdade só contam vantagem. Evaldo era o primeiro a contar dificuldades. Estava precocemente velho, muito gordo e com o juízo em frangalhos.