segunda-feira, 12 de abril de 2021
Les Misérables : Victor Hugo (vol. IV)
sábado, 27 de março de 2021
Redemoinho
"O diabo na rua, no meio do redemoinho..." (Guimarães Rosa)
Quando era menino em Coreaú, diziam que, se a gente ficasse de cabeça para baixo na frente de um redemoinho, via o cão dentro. Um dia resolvi fazer a experiência. Vi um redemoinho no campo de futebol do lado da barragem e plantei bananeira equilibrado num pilar. No começo não vi nada de estranho, apenas um redemoinho virado. Depois de um instante, bem no centro do redemoinho, consegui divisar uma silhueta disforme que um menino de dez anos acreditou ser o cão...
Muitos anos depois, um enorme redemoinho percorre o mundo. Um redemoinho que traga pessoas e não as devolve mais. Aos milhares, aos milhões. Inicialmente, números frios e distantes; aos poucos pessoas conhecidas, da sua rua, seus amigos, seus parentes... O artista, o militante, o médico... Tantos velhinhos morrendo antes do tempo, tantos jovens ainda tão cheios de vida! Falta ar nos pulmões, sobram lágrimas nos olhos. O que dizer para aquele menino de doze anos que perdeu o pai, o tio e o avô? Quem agora vai com ele no estádio?
O que dizer para aqueles que desdenham do cataclisma? O que dizer para aqueles que não se comovem diante da tragédia? O que dizer para aqueles que ainda não entenderam? Façam o seguinte: Fiquem de cabeça para baixo e encarem o redemoinho, o meio dele, lá vocês verão a silhueta estranha...
Les Misérables : Victor Hugo (vol. III)
"Le droit qui triomphe n'a nul besoin d'être violent."
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Um em pé, outro sentado!
Quando Deus, o Criadô
Fez o homi e a muié
Uma coisa Ele mandô
E foi muito bem mandado:
Pra um só fazê em pé
E o outro fazê sentado.
(Você sabe como é...)
No tempo de meu avô
Inda era tudo acertado
Os homi nunca sentô
Nem elas ficaro em pé
Respeitaro o combinado
Pois o povo tinha fé!
(E era muito inducado.)
De lá pra cá, meu sinhô
As coisa desarrumaro
Tem homi que já sentô
Tem uns querendo sentá
As muié se alevantaro
E o mundo vai se acabá!
(Os padre inté já falaro!)
Menino, que estória essa
Um em pé, outro sentado?
É penitença, promessa?
Ou é as necessidade?
Isso tá mal explicado!
Me diz aí, ô cumpade!
(Que eu tô mei encabulado)
Apois num sabe o que é?
Pois eu já dô o motivo
O que nóis fazemo em pé
E as muié faz é sentado?
É andar no coletivo
Quando ele tá lotado!
(Ufa, mais que alivo!)
(Ricardo Emílio Nogueira, Fortaleza, 29/01/2021)
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Deutsche
Wir wünschen Ihnen auf alle Fälle viel Glück! Vielleicht treffen wir uns ja eines Tages in Deutschland auf der Straße?
De humana natura
domingo, 27 de dezembro de 2020
Aves de Arribação :: Antônio Sales
"O noivo e a amante tinham-se ido em busca de climas mais amenos e propícios, fugindo de plaga em plaga, como aves de arribação, que voam livremente para onde as atraem as louçanias da primavera. E ela ficara ali, no fundo daquele triste lar povoado dos espectros dos seus sonhos, para ser um dia conduzida, mutilada d'alma, inútil para a vida, à cela fria de um claustro como uma inválida do amor..." (Aves de Arribação. Antônio Sales)
domingo, 20 de dezembro de 2020
sábado, 19 de dezembro de 2020
Les Misérables : Victor Hugo (vol. II)
"Il la protégea et elle l'affermit. Grâce à lui, elle put marcher dans la vie; grâce à elle, il put continuer dans la vertu. Il fut le soutien de cet enfant et cet enfant fut son point d'appui. O mystère insondable et divin des équilibres de la destinée!"
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
domingo, 29 de novembro de 2020
Memória de papel
A maior parte de todo o saber humano, em cada um dos seus gêneros, existe apenas no papel, nos livros, nessa memória de papel da humanidade. Apenas uma pequena parte está realmente viva, a cada momento dado, em algumas cabeças. Trata-se de uma conseqüência sobretudo da brevidade e da incerteza da vida, mas também da indolência e da busca de prazer por parte dos homens. Cada geração que passa rapidamente alcança, de todo o saber humano, somente aquilo de que ela precisa. Em seguida desaparece. A maioria dos eruditos é muito superficial. Segue-se, cheia de esperanças, uma nova geração que não sabe nada e tem de aprender tudo desde o início; de novo ela apanha aquilo que consegue ou aquilo de que pode precisar em sua curta viagem, depois desaparece igualmente. Assim, que desgraça seria para o saber humano se não houvesse escrita e imprensa! As bibliotecas são a única memória permanente e segura da espécie humana, cujos membros particulares só possuem uma memória muito limitada e imperfeita. É por isso que a maioria dos eruditos resiste tanto a deixar que seus conhecimentos sejam examinados, tendo o mesmo comportamento dos comerciantes em relação a seus registros de vendas. (A arte de escrever. Schopenhauer)
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
domingo, 22 de novembro de 2020
Drummond x Nietzsche
A Ingaia Ciência
A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,
a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.
A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência
e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.
Carlos Drummond de Andrade



