sábado, 26 de janeiro de 2019

Haicais macuxis


i.
sinta a Cruviana,
no calor do extremo norte,
soprar na savana.

ii.
tome damurida,
quer de peixe, quer de caça,
apimente a vida.

iii.
beba caxiri,
na maloca wapixana,
sob o buriti.

iv.
veja o caimbé,
solitário no lavrado,
pelo igarapé.

v.
coma tambaqui,
na farinha, desossado,
com a murupi.

vi.
ponha a sua poita,
na curva do Rio Branco,
perto de uma moita.

vii.
ouça Roraimeira,
e verás o grande monte,
antes da fronteira.

Eliton Meneses

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PRÓXIMO 100+




"¿Encontraría a la Maga? Tantas veces me había bastado asomarme, viniendo por la rue de Seine, al arco que da al Quai de Conti, y apenas la luz de ceniza y olivo que flota sobre el río me dejaba distinguir las formas, ya su silueta delgada se inscribía en el Ponte des Arts, a veces andando de un lado a otro, a veces detenida en el pretil de hierro, inclinada sobre el agua. (...)" (Julio Cortázar)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

LE ROUGE ET LE NOIR : STENDHAL



"Une âme comme celle de Julien est suivie par de tels souvenirs durant toute une vie."

"Uma alma como a de Julien é seguida por tais lembranças por toda a vida."

                                                            ***
"Une source limpide qui vient étancher ma soif dans le désert brûlant de la médiocrité que je traverse si péniblement!"

"Uma fonte límpida que mata minha sede no deserto ardente da mediocridade que atravesso tão dolorosamente! 

                                                            ***

"Tombé dans ce dernier abîme du malheur, un être humain n’a de ressource que le courage." 

"Caído no último abismo da miséria, um ser humano não tem outro recurso que não a coragem."
  
                                                            ***

"Il faut renoncer à toute prudence. Ce siècle est fait pour tout confondre! nous marchons vers le chaos."

"É preciso renunciar a toda cautela. Este século é feito para confundir tudo! Caminhamos para o caos."

                                                            ***

"On peut devenir savant, adroit, mais le cœur!... le cœur ne s’apprend pas."

"Pode-se tornar estudioso, inteligente, mas o coração!... o coração não se muda."

(O vermelho e o negro. Stendhal)

domingo, 20 de janeiro de 2019

BEL


"Eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. A minha alucinação é suportar o dia-a-dia e meu delírio é a experiência com coisas reais." (Belchior)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Soneto LXV


Não queira atrofiar a sua mente,
Sem arte, sem vida e sem leitura.
O mundo está repleto de cultura,
Um éden pra sonhar eternamente.

Não custa ser um ser inteligente,
Levante desse mar de amargura,
Aos poucos chegará a certa altura
Ciente do que existe à sua frente.
 
Procure sempre ver uma pintura,
Sentir o que reflete a alma humana,
Ler trechos da melhor literatura.

Então, verá nas portas do nirvana
O som que toca dentro da escultura,
Sabendo até na peça quem lhe engana.

Eliton Meneses

domingo, 13 de janeiro de 2019

Soneto LXIV


Cansei de dia e noite me esconder,
Como bicho que teme um caçador.
Sou livre, nem escravo nem senhor,
Sem medo de no mundo me perder.

Espio há muito tempo o sol nascer;
Sei quando se faz frio ou faz calor;
Tenho olhos que avistam cada cor
No quadro do querer e não poder. 
 
Quisera era ser um passarinho,
Bater asas voar longe do ninho,
Curar na água fresca o padecer.

Ando sempre sonhando acordado;
Amanheço pensando, inebriado,
Com um desejo ardente de te ver. 

Eliton Meneses

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

FELIZ ANO NOVO!



Aos leitores deste humilde diário, àqueles que o acessam de perto ou de longe, aos que nos enviam e-mails, àqueles que permanecem silentes, espalhados por tantos lugares mundo afora, aos colaboradores e a todos que compartilham conosco alguns momentos da vida e da arte, nossos votos de um ano de 2019 de muita saúde, paz, felicidade, solidariedade, sabedoria e amor!

IMAGEM DO ANO


 

FRASE DO ANO


"Saudade não é falta. Saudade é presença imortalizada dentro da gente." (...)

Aphorismus


"Die Liebe bringt die hohen und verborgenen Eigenschaften eines Liebenden ans Licht, – sein Seltenes, Ausnahmsweises: insofern täuscht sie leicht über das, was Regel an ihm ist."

"Nicht die Stärke, sondern die Dauer der hohen Empfindung macht die hohen Menschen."

"Wenn man sein Herz hart bindet und gefangen legt, kann man seinem Geist viele Freiheiten geben."

(Friedrich Nietzsche. Jenseits von Gut und Böse)

sábado, 29 de dezembro de 2018

100+


"L'aube commençait à dessiner vivemente les contours des sapins sur la montagne à l'orient de Verrières. Au lieu de s'en aller, Julien ivre de volupté demanda à madame de Rênal de passer toute la journée caché dans sa chambre, et de ne partir que la nuit suivante." (Stendhal. Le Rouge et le Noir)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Eu


Tenho asas e raízes,
Tantas cores e olhares,
Sou igual a seu ninguém.

Sou de todos os matizes,
Todos seres são meus pares,
Minhas dores ninguém tem.

Tenho minhas cicatrizes,
Tantos gostos e pesares,
Sonhos loucos que não vêm.

Não perdoo meus deslizes,
Sobrenado muitos mares,
Não me apego a qualquer bem.

Eu não tenho diretrizes,
Sou de todos os lugares
E do meu lugar também.

Eliton Meneses

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

ÁGUA


escorremos como a água,
água mole, água dura,
por um leito sinuoso
de um rio rumo ao mar.

somos água de uma chuva,
água limpa, água suja,
por caminho estreito e raso,
água-nuvem pelo ar.

somos água de um açude,
sob o sol evaporando;
na sangria resvalando, 
sem saber se aquietar.

somos água densa e turva,
escondida sob a terra,  
que aflora cristalina,
quando sabe se filtrar.

nós mudamos como a água,
ora pedra, ora vento,
mas seguimos sempre água,
que não para de mudar.

Eliton Meneses

domingo, 23 de dezembro de 2018

PLANO


Abriu o envelope deixado em cima da mesa e leu com atenção a carta de encaminhamento dos cartões do plano funerário. Tratava-se do último benefício aos associados do sindicato, anunciado com bastante euforia pelo presidente, com votos de feliz natal e próspero ano novo. O plano não geraria qualquer custo para o associado e cobriria cônjuge e filhos, conferindo uma ampla gama de benefícios, do transporte ao cemitério às coroas de flores...     
Pegou com estranheza o cartão com seu nome, leu com certo incômodo o número da funerária para o caso de emergência e não pôde deixar de imaginar com frio na medula uma situação trágica em que as pessoas encontravam aquele cartão na sua carteira. 
Tentou desviar o mau pensamento e passou para o cartão da sua esposa. Estava lá o nome dela completo, sua companheira de tantos anos, ainda tão jovem. A impressão de que a ideia de um plano funerário no Natal não foi uma boa ideia do sindicato ficou-lhe ainda mais notória. Natal é a celebração da vida e não da morte. Julgava consigo que era melhor que a morte envolvesse a imprevisibilidade não só na sua consumação, mas também nos atos dela decorrentes. Pagar por um enterro de alguma forma parecia atrair a morte, torná-la previsível demais, algo espantoso para uma pessoa jovem e saudável. Ora, se sua companheira falecesse, preferia que não houvesse despesas previamente pagas para o velório, ainda que algumas pessoas pudessem vislumbrar nessa previdência a última moda do progresso civilizatório. 
Pensou em jogar fora ambos os cartões, mas hesitou um pouco, julgou-se por um instante antiquado em demasia, e pegou no envelope o terceiro. Nesse estava escrito o nome completo de sua filhinha. Quando leu atrás o número para o caso de emergência, sentiu um nó na garganta. Não. Não ligaria. Não queria que ligassem. Dane-se a funerária, o sindicato, a gente civilizada. Não queria previdência para velório da filha. Preferia evitar esse mau augúrio! Quebrou os três cartões, jogou-os no balde do lixo e seguiu para o banho aliviado.