sábado, 30 de junho de 2018

ALTOS E BAIXOS : ESPECIAL COPA DO MUNDO


EM ALTA

O Uruguai, que tem um time inteiro muito bom, começando pelo goleiro Muslera e terminando com Soaréz e Cavani, que, além de craques, jogam cada partida da Copa do Mundo como se fosse a última de suas vidas.  

EM BAIXA 

As atuais campeã e vice, Alemanha e Argentina. A Alemanha, por um certo salto alto, acabou eliminada na primeira fase. A Argentina tinha Messi, Di María e Mascherano, mas, para além desses, era um time bem ordinário, sobretudo na defesa, e foi eliminado, com justiça, nas oitivas.

EM ALTA 

A reafirmação de que o futebol é um esporte coletivo. Ninguém ganha sozinho uma competição como a Copa do Mundo. É preciso ter uma grande equipe para além de um craque fora de série. Por isso, Messi e Cristiano Ronaldo se despediram no mesmo dia da Copa da Rússia. A Argentina e Portugal nesta Copa passaram longe de serem boas equipes. Quando isso acontece, não há Messi, nem Cristiano Ronaldo, nem Pelé, nem Maradona que resolva... 

EM BAIXA 

O futebol africano, cujas seleções foram todas eliminadas na primeira fase da Copa do Mundo.

CHOICE TO MARRY


"(...) the person whom you choose to marry is perhaps the single most vivid representation of your own personality. Your spouse becomes the most gleaming possible mirror through which your emotional individualism is reflected back to the world. There is no choice more intensely personal, after all, than whom you choice to marry; that choice tells us, to a large extent, whom you are." (Elizabeth Gilbert)  

segunda-feira, 25 de junho de 2018

ENIGMA


Latifúndio, beijo, toque...
Nem traiu e nem amou...
A quimera do escravo...
Era vidro e se quebrou.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

LVI


Todos querem pagar as suas contas;
Falta tempo pra ter qualquer deleite;
Segue o junho de Copa sem enfeite
De pessoas que nem baratas tontas.

Ninguém sabe juntar as duas pontas;
Uns reclamam da nota sem aceite;
Outros querem pra si todinho o leite,
Nesta era de coisas todas prontas.
  
O consumo se faz a meta humana;
O prazer se resume ao que emana
Do produto que compra o vil metal.

Cada vez as pessoas mais amargas,
Percorrendo apressadas ruas largas,
Vão perdendo o que há de essencial. 

Eliton Meneses

domingo, 17 de junho de 2018

FUTEBOL




O futebol. Ah, o futebol...
O futebol que inebria, que contagia, que, às vezes, faz poesia com os pés.
Muito mais que um esporte: uma seita, uma catarse coletiva...
O encontro dos povos em torno de uma bola.
Uma guerra sem armas; um choro sem lágrima.
A conquista do mundo sem destruir ninguém.
Algo demasiado estranho na linha frágil do racional.

Há forças ignotas que nos regem:
Bandeiras, mapas, nomes, símbolos...
Há forças contra as quais não adianta resistir.

Dizem que é o ópio do povo;
Ora, mas quem disse que o alimento do corpo vale mais que o alimento da alma...?

Eliton Meneses

sábado, 16 de junho de 2018

domingo, 10 de junho de 2018

ÁRVORE



Um menino espiava ao longe uma árvore. Mergulhado até o nariz no rio, mirava distante uma árvore que se destacava em meio às demais. Uma árvore na serra ao longe. Perto dela, as outras pareciam grama. No alto da serra, uma árvore se destacava das outras. Grande, imponente, feminina... Até parecia acenar para o menino. Fala-se que toda pessoa deve plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Aquele menino não precisou plantar a árvore. Ainda pequeno adotou uma. Uma árvore distante, da qual nunca se aproximou. Mas uma árvore que era sua, mesmo sem nunca tê-la tocado. Durante os anos em que morou na Palma, pensou em subir a serra, ir ao encontro dela, tocá-la, saber de que espécie era. Nunca foi. Passaram-se os anos e, morando distante, toda vez que volta à terra, para na estrada antes da cidade para contemplar sua árvore, ainda altiva no topo da serra depois de tantos anos, cada vez mais forte, cada vez mais bela. Quem sabe um dia ainda suba a serra, para vê-la de perto, para tocá-la. De todo modo, a árvore e o menino são íntimos mesmo sem se tocarem, mesmo sem se verem de perto. A árvore permanece parada no topo da serra enquanto o menino caminha pelo mundo. De alguma forma, o menino carrega consigo a árvore e a árvore mantém consigo o menino no topo da serra. Desde aquela longínqua manhã de verão no rio que o menino carrega consigo aquela árvore. Os dois se gostam e necessitam um do outro. A árvore, para que o menino a carregue pelo mundo; o menino, para que a árvore mantenha fincadas as raízes dele no chão da sua terra...

domingo, 3 de junho de 2018

LV


Anoitece e ainda escuto a lira;
O amor é um símbolo sagrado;
Não devemos deixá-lo magoado,
Mesmo quando vencidos pela ira.

Solitário, um corpo inda delira,
Com os olhos no céu enluarado;
Tão distante agora o ser amado
Dum poeta soturno que suspira.

Corre a flor amarela pelo vento;
A saudade é a dor que mais consome
A rotina cruel dos dias meus.

O amor é de Deus maior invento;
É difícil matar a minha fome,
Sem a chama da luz dos olhos teus.

Eliton Meneses

quinta-feira, 31 de maio de 2018

FRASE DO MÊS


"O homem é aquilo que ele ama." (Bhagavad Gîta)
 
"Quem ama quer formar um com quem ama. (...) O ser humano torna-se o que ele ama: aquele que ama a terra, torna-se terra; aquele que ama o Deus eterno irá compartilhar da eternidade com Deus”. (Sto. Agostinho. in A Cidade de Deus, vol. 2, XIV, 28). 

domingo, 27 de maio de 2018

GALOPE À BEIRA-MAR


Sonhaste que um dia serias um sábio,
Pras coisas do mundo sentir as entranhas;
Num cavalo alado por sobre as montanhas,
Com todo o roteiro num velho alfarrábio.
Da virgem mais pura terias o lábio,
Na noite mais fria sem mesmo cismar.
Terias de tudo — de sol a luar;
Seriam só tuas as flores mais lindas;
A vida teria belezas infindas;
Agora rastejas na beira do mar. 

Eliton Meneses

sexta-feira, 25 de maio de 2018

PEDRA ANGULAR DA FILOSOFIA E RELIGIÃO


"(...) a Realidade Infinita e Transcendente é finitamente imanente em todos os seus efeitos nas criaturas do Universo. Para encontrar essa suprema Realidade (Deus) não é necessário que o homem saia do mundo dos fenômenos transitórios, como pensam os dualistas, mas que penetre mais profundamente no último reduto desse mundo e descubra o Invisível  nos visíveis, o Eterno nos temporários, a Realidade no meio das aparências, o Criador em todas as criaturas. É esta a gloriosa conquista dos místicos e videntes, como Francisco de Assis e outros: viam a Deus em todas as suas obras." (Huberto Rohden. in Comentário ao Bhagavad Gita)

LIV


 A vida nos prepara cada espanto,
 A cada curva surge mais segredo;
Do nada, eis que troca de enredo,
Fazendo-nos perder o velho encanto. 

Sonhamos tanta coisa e, no entanto,
 A noite chega escura e traz o medo;
Suprime do poeta em seu degredo:
A vela, a lua, o mar, um certo canto.

Depois de ter a mente povoada
Do lúdico presságio de um verso,
Caímos no sol quente do deserto.

Sentados numa barca abandonada,
Sentimos quanto é duro o universo,  
Seguindo à deriva em mar aberto. 
 
Eliton Meneses

quarta-feira, 23 de maio de 2018

OS IRMÃOS KARAMAZOV :: DOSTOIÉVSKI


1) "O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos.";
2) "Na maioria dos casos, os homens, mesmo os mais perversos, são muito mais ingênuos e simples do que julgamos. E nós próprios também.";
3) "Sabeis que cada um de nós é culpado por todos os pecados que acontecem sobre a terra e também por todos os homens e por cada um deles individualmente.";
4) "É preciso cuidar das pessoas como se elas fossem crianças, e de algumas como de doentes nos hospitais.";
5) "Eu conheço os seus pensamentos. O seu coração é melhor que a sua cabeça.";
6) "Tratam das questões universais, nem mais, nem menos: existe Deus? A alma é imortal? Os que não acreditam em Deus, falam de socialismo e anarquismo e da organização de toda a humanidade numa ordem nova; são as mesmas questões, vistas por outro prisma.";
7) "Porque estamos diante de um temperamento contraditório capaz de reunir todos os contrastes e de contemplar ao mesmo tempo dois abismos, o de cima – o ideal dos ideais sublimes, e o de baixo – o abismo da mais ignóbil degradação.";
8) "A humanidade achará força em si mesma, viverá para a virtude mesmo que não creia na imortalidade da alma! Achará esta força no amor à liberdade, à igualdade, à fraternidade.";
9) "Não podemos tirar amor do nada; somente Deus cria no vazio."
10) "Em nosso século, todos se dividiram em unidades. Cada um se isola em sua toca e esconde-se junto com os seus pertences; desse modo, afasta-se dos seus semelhantes e afasta-os de si. Acumula sua riqueza completamente só, pensando: 'Como sou forte agora e como estou garantido!'. Ignora o insensato que, quanto mais acumula, tanto mais se abisma numa impotência fatal. Ele se habituou a confiar unicamente em si, apartou-se da coletividade, acostumou sua alma a não crer no auxílio dos homens nem na humanidade e treme só com a ideia de perder o seu dinheiro e os direitos conseguidos. Por toda parte, atualmente, o espírito humano começa a esquecer ridiculamente que a verdadeira garantia do indivíduo não consiste no seu esforço pessoal e isolado, mas na solidariedade humana."

domingo, 13 de maio de 2018

TIO CALANCHO


Tio Calancho me esperava com sua pachorra característica desde cedo. Umas sete da noite já estava sentado na calçada, esperando o menino da Leda para dormir. Eu chegava sem pressa, estranhando bastante aquele horário do tio-avô. Tio Calancho era casado com tia Mementa, irmã de vovó Ritinha. Tia Mementa e mamãe estavam em Fortaleza, passando um mês para cuidar da saúde. Tive que me despedir antes da hora dos meninos que brincavam de macaca na calçada do oitão de casa. João me assegurou que a pronúncia correta era: – Pre-da... e não pe-dra, como eu havia pronunciado. 
Tio Calancho me recebeu com um sorriso. Pronunciou alguma coisa que não consegui entender. Em verdade, não conseguia entender quase nada do que ele falava. Era alto, velho e bonachão. Um sujeito que não fazia mal a uma mosca. A primeira mulher havia morrido e ele resolveu casar com Mementa, já coroa. Sentei um instante, olhei os meninos brincando na rua, tio Calancho percebeu meu interesse e me convidou para entrar. Ofereceu-me chá, peta, uma xícara de leite... Recusei. Tinha acabado de jantar.   
A casa tinha poucos pertences. Umas cadeiras, uns retratos na parede, uma mesinha... Não tinha televisão. Entramos pelo corredor, passamos o quarto sem porta, na cozinha ainda fumegava uma panela no fogão à lenha. O quintal estava escuro, escutava-se apenas um leve cacarejo das galinhas. A Coluna da Hora bateu uma única chamada. Era 7h30min. Tio Calancho já queria dormir. Armou sua rede, armou minha rede do lado da dele, me deu um lençol e se deitou.  
Caiu como uma pedra na rede. Em instantes começou a roncar. Um ronco leve, que não incomodava. Queria conhecer melhor tio Calancho, perguntar sobre sua vida, mas não adiantaria, a comunicação era difícil. Quando ele ferrou no sono me levantei e fui ver pela brecha da porta os meninos brincando na rua. Não podia sair. Quando eles foram embora voltei para a rede. Tio Calancho pronunciava umas palavras sonhando. Tentei entender, não adiantou. Peguei no sono por volta da meia-noite.
O dia nem havia ainda clareado, umas quatro e meia da manhã, e tio Calancho já estava de pé. O cheiro agradável do café tomava de conta da casa. Permaneci deitado, ouvindo o galo cantar. O galo do tio e todos os outros dos quintais vizinhos. Uma verdadeira sinfonia de galos. Logo que a luz do dia penetrou na casa, ele veio me chamar para tomar café. Jogou um farelo para as galinhas no terreiro e sentou-se na mesa. Café, leite, tapioca feita na hora, queijo, ovos... Bem melhor do que eu poderia esperar.
Tio Calancho já acordava sorridente. Balbuciou alguma coisa, acho que sobre vovô, e caiu numa gargalhada. Óbvio que não entendi nada, mas por simpatia também sorri. Continuou comendo e falando e entendi que estava com saudade de tia Mementa. Não gostava de ficar só. Depois foi no quarto, veio com um cavalinho de carnaúba e me deu de presente. Foi ainda no galinheiro, pegou uns ovos e também me deu. Tio Calancho era um amor de pessoa. Às seis horas, voltei para casa.
Quando me dirigi à casa dele na noite anterior, era como se estivesse caminhando para o calvário. Agora, de volta para casa, ia até com uma certa saudade do bom velhinho e sem nenhum medo de que uma nova noite chegasse...